Foi exatamente há 6 meses que a tempestade Kristin assolou a região Centro, como ponto alto de uma sequência assustadora de eventos extremos que colocou durante semanas o centro do nosso mundo em Leiria, na Marinha Grande, em Alcácer do Sal e no vale do Mondego.
Já sabemos que a capacidade de previsão e de aviso prévio foi canhestra, que a resposta foi descoordenada e tardia, que a ministra que devia coordenar as operações estava ao final da manhã a entregar espadas numa cerimónia da GNR, que a propaganda imperou com o pináculo na famosa curta-metragem de ação com Leitão Amaro como protagonista, que o ministro da Defesa andou a brincar às formaturas e que tudo isto está documentado para memória futura no demolidor relatório da visita presidencial de António José Seguro.
Mas se a dimensão das tempestades poderia ter a desculpa da surpresa e da inusitada violência da natureza, a resposta a esta crise veio confirmar um padrão de comportamento do Governo feito de muitos anúncios, tentativas de limitar os custos, uma permanente atribuição de responsabilidades a tudo e todos e esperar que a memória popular seja curta.
O modelo exibido na resposta às tempestades de inverno tem sido repetido na reação à crise energética, com a qual o Governo conta para equilibrar as contas públicas com os ganhos em receitas fiscais beneficiadas com o aumento dos preços, e agora também no colapso da campanha Reforma do Estado que chumbou no teste da digitalização dos exames do ensino secundário.
Todos nos recordamos da celeridade apregoada que teriam os apoios à reconstrução de habitações, que demorariam entre os 3 dias, para despesas até 5 mil euros a comprovar com o envio de umas fotografias, até apoios superiores que seriam concedidos em 15 dias.
Passados 6 meses, das quase 36 mil primeiras habitações com pedidos de apoio, apenas 18168 tiveram uma decisão favorável e foram apenas pagos 82 milhões dos 210 milhões de euros pedidos. Como é hábito, a culpa é das CCDR, das câmaras municipais e até dos requerentes incompetentes, jamais do Governo.
O psicodrama parlamentar entre o Governo e a oposição sobre o pagamento total ou parcial dos salários em lay-off revelou-se uma batalha de pífia relevância orçamental, pois só foram apresentados cerca de 1500 pedidos que custaram 3,3 milhões de euros. Já os incentivos às empresas para a manutenção de postos de trabalho tiveram maior dimensão, tendo já sido pagos a quase 3 mil empresas cerca de 51 milhões dos quase 89 milhões de euros de pedidos de apoio.
Os empréstimos para reconstrução de empresas ficaram igualmente longe das expectativas, tendo atingido apenas 150 milhões de euros, devido às reservas dos empresários ao endividamento adicional, quando a solução deveria ter passado por subvenções a fundo perdido.
Claramente a única área de apoio que superou desde o início as expectativas foi a linha de crédito para apoios à tesouraria das empresas que ultrapassou os 1,6 mil milhões de euros, ainda assim dívida a pagar mais tarde.
As pessoas sentem-se abandonadas ao fim de seis meses, e agora, tal como nas primeiras horas do final de janeiro, todo o esforço parece recair sobre as autarquias locais, que nos casos mais graves reportam já dezenas de milhões de euros de despesas extraordinárias com financiamento irrisório.
Leiria, que apurou 193 milhões de euros em infraestruturas por recuperar, terá gasto já 38 milhões de euros e recebido menos de 27 milhões, ou Alcácer do Sal que recebeu cerca de 3 milhões de euros para apoiar 95 milhões de prejuízos, são os símbolos do abandono e esquecimento mal se desligaram as câmaras das breaking news televisivas.
O PTRR é um arrazoado de projetos velhos, promessas de momento e de amanhãs que cantam, a executar até 2035, mais ou menos a data prevista igualmente para a abertura do novo aeroporto, mas daqui a vários Governos depois do de Luís Montenegro e certamente daqui a muitos ministros da Economia, da Presidência e sobretudo do MAI.
A limpeza da floresta arrasada ficou por fazer entre a falta de mão-de-obra e o desinteresse do Ministério da Agricultura relativamente às questões de ordenamento florestal. A questão do emparcelamento de leiras sem interesse económico e da intervenção do Estado em parcelas sem dono conhecido é um tabu para um Governo que idolatra o primado da propriedade privada.
Não se voltou a ouvir falar no enterramento de redes de alta tensão em zonas de alto risco, só dos mais de 5 mil postes de eletricidade ainda por reparar, e parece que 1600 clientes ainda estão sem comunicações telefónicas.
A única intervenção estrutural lançada desde então foi o concurso para a construção da barragem de Girabolhos, que ajudará a regular os caudais do Mondego, com a conclusão prevista entre 2035 e 2038, numa interessante corrida de maratona de vencedor incerto com o novo aeroporto de Lisboa e a terceira travessia do Tejo, tudo sobre a superior supervisão da agência já criada para a coordenação da execução do PTRR, com a liderança de um antigo deputado do PSD já nomeado até dezembro de 2034.
Esperando que as televisões tenham esquecido as tempestades, com os partidos divididos entre as milhares de notas do secundário suspensas, ou as centenas ainda perdidas, e o tanque ministerial de Odemira, o Governo espera que tudo passe com a modorra estival do querido mês de agosto dos portugueses e a anestesia do controlo parlamentar que irá desta semana até 15 de setembro.
Mas os leirienses sem teto da casa, os alcacerenses sem futuro para o comércio local e os marinhenses sem apoios de praia e com as árvores tombadas à espera dos incêndios, não esquecem, e dão o prémio Laranja Amarga das promessas com memória curta ao ministro da fraca Coesão Territorial Castro Almeida.
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