O PCP já não vem pedir demissões de ministros. Sempre que é preciso criticar o PS há um cuidado acrescido e a “avaliação política” tem sido mais branda. Não é de estranhar, por isso, que quando começaram a elaborar as teses para o XX Congresso, os comunistas tenham amolecido as palavras duras que habitualmente dirigiam aos socialistas. Nada definitivo. Se é certo que na versão inicial, aprovada a 18 de setembro no Comité Central, dedicavam pouco mais do que 170 palavras genéricas ao parceiro que apoiam no Governo, com os contributos que nestes meses foram chegando ao partido de militantes e organizações a versão endureceu. O documento que o Comité Central aprovou este domingo e que será votado no Congresso de Almada, é agora mais crítico em relação aos socialistas. Segundo avançou Jorge Cordeiro à VISÃO, a nova versão identifica “meia dúzia de elementos negativos que o PS assumiu neste ano de governação”, entre eles a opção de privatizar o Banif, que obrigou o PS a aliar-se à direita PSD/ CDS para aprovar um Orçamento Retificativo; a luta entre o setor do táxi e as plataformas como a Uber, que o Governo quer regulamentar. E, por último, o episódio Caixa Geral de Depósitos, que o PCP se coibiu de atacar ferozmente, evitando atribuir responsabilidades diretas ao Governo, mas que criou grande incómodo no partido. Ainda assim, não será possível encontrar nestas novas teses as duras críticas que o PCP reservava ao PS de Sócrates em 2012. Aí os socialistas eram acusados de “partido da política de direita que, ao serviço do grande capital, concretizou um ataque brutal aos trabalhadores e ao povo”. Era um PS “intimamente associado aos interesse dos grupos económicos e do capital financeiro”, que apoiava as “mais graves medidas dirigidas contra os interesses dos trabalhadores e do País”. Chegados a 2016, o PS de António Costa continua a ter “opções programáticas, características da política de direita”, sobretudo no que se refere à Europa. Só que, como parece que têm assumido uma “prática concreta face à necessária rutura com a política de direita”, os comunistas deixam as críticas por aqui. Mas esta aproximação do PS aos partidos à sua esquerda “não o transforma num partido portador de uma política de esquerda”. E lembram-lhe que perdeu as eleições de 2015.
Comité Central reforça críticas ao PS por causa da Caixa e da Uber
Luís Barra
O documento que será votado no Congresso de Almada identifica "meia dúzia de elementos negativos que o PS assumiu neste ano de governação"