“Vai o PS rever o seu sistema de alianças no sentido de deixar as alianças reacionárias e procurar alianças com as forças de esquerda?”. A pergunta podia ter sido feita por Jerónimo de Sousa há um ano a António Costa. Mas não. Esta pergunta data de 6 de novembro de 1975. Imagina quem possam ter sido os protagonistas? Isso mesmo. Foi Álvaro Cunhal, líder histórico do PCP, para Mário Soares, o também histórico líder do PS e o cenário o primeiro debate político na televisão portuguesa. Mais de 40 anos depois, os dois partidos sentam-se agora a uma mesma mesa de negociações. Acordam propostas, discutem estratégias, alinham discursos, monitorizam promessas. E o PCP que durante quatro décadas de democracia se habituou a ser um partido de luta, de protesto, de manifestações, vê-se agora pela primeira vez na sua história num lugar em que nunca antes esteve: o de um partido do arco da governação, um partido de poder, um partido cujo voto influencia de facto o curso dos acontecimentos. Um influenciador do poder. Uma peça-chave na estabilidade política do País.
E é esse partido, confrontado pela primeira vez com esta dicotomia de quem quer continuar a defender os trabalhadores e a condenar o capitalismo mas ao mesmo tempo aceita colocar na gaveta as divergências que tem com a Europa ou com a forma como o sistema financeiro influencia as políticas de António Costa, que este fim de semana se reúne em Congresso. Jerónimo de Sousa é o líder incontestado. Vai a Almada defender a “política patriótica e de esquerda”. Explicar aos camaradas que o apoio a que não querem chamar apoio ao PS e a presença na geringonça a que também não querem chamar geringonça é algo positivo para o partido.
Reforçar a posição do PCP contra a Europa e as suas políticas é algo que estará nas prioridades deste Congresso. Os comunistas querem reiterar a ideia de que só uma rutura com esta Europa permitirá ao País ter o desenvolvimento de que precisa. O mesmo no que toca à luta contra os grandes grupos económicos e o capitalismo. É, aliás, nos dois temas que mais afastam PCP e PS que os comunistas devem centrar neste congresso as suas discussões.
Mas para descansar os camaradas, Jerónimo de Sousa terá que dar outra garantia: a de que o PCP não sairá beliscado nas urnas com o apoio que tem dado ao PS. Com as sondagens a apontar para uma cada vez mais próxima maioria absoluta do PS, a ideia de que são os socialistas quem mais tem capitalizado a solução de Governo encontrada é algo que aumenta a desconfiança entre os comunistas. Jerónimo irá garantir ao Congresso que o apoio do PCP só se manterá enquanto permitir avanços para os trabalhadores e para o povo e que o grande objetivo do partido deve ser reforçar a sua votação em 2019, por forma a aumentar o seu poder de influência.
Mas o XX Congresso terá, dizem algumas fontes ouvidas pela VISÃO, que começar a olhar para o futuro do partido. Em 2016 e depois de transpor a porta que permitiu uma aliança com o PS, o PCP do proletariado terá que encontrar um discurso mais modernizador. E se é certo que Jerónimo não sairá deste Congresso com um secretário-geral adjunto, é incontornável que o partido já começou a olhar para o futuro da liderança. Em 2012, Jerónimo quis sair, mas pediram-lhe mais tempo. Em 2016, a sua imagem na coesão da geringonça é considerada vital. Mas a sucessão já não é um problema de longo prazo. Joga-se agora. Devagar, longe dos holofotes, mas dando destaque a quem for escolhido para substituir Jerónimo. Pode ser João Ferreira, o eurodeputado que voltará a ser candidato da CDU a Lisboa. João Oliveira, o líder parlamentar. Ou mesmo Jorge Cordeiro, figura de bastidores que tem sido o elo de ligação com o PS e o Governo. Isto sem esquecer aquele que é visto como o eterno sucessor: Francisco Lopes. Em ano de eleições autárquicas, o confronto com o PS é incontornável e será aí que se ouvirão as maiores críticas aos socialistas. A ideia de que será possível um acordo para Lisboa entre os comunistas e Fernando Medina é algo que o PCP rejeita antecipar. Uma coligação pré-eleitoral está fora de questão.