Até há poucos dias, o verão de 2024 avizinhava-se tranquilo e, porventura, entusiástico para os franceses, sem outras preocupações que não fossem a de ficarem a torcer pelos blues no Euro de futebol, encherem as estradas do país para apoiarem os ciclistas do Tour e, finalmente, uma dúzia de dias depois da sua festa nacional do 14 de julho, usufruírem da oportunidade única de poderem participar, nas margens do rio Sena, em Paris, no espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos. Afinal, em vez de um verão de união e festa, os franceses vão mergulhar, isso sim, em semanas de crispação, clivagens e de ânimos exaltados. E, ainda por cima, tudo isto no meio de uma grande incerteza em relação ao futuro que será escrito com o resultado que sair das eleições legislativas antecipadas, com a primeira volta a 30 de junho e a segunda a 7 de julho.
Emmanuel Macron sempre gostou de brincar com o fogo. Foi esse, de resto, um dos seus maiores trunfos, exibindo uma postura de impetuosidade, por vezes também a roçar a desfaçatez, frente a qualquer desafio – que lhe permitiu, por exemplo, ser eleito Presidente de França, com apenas 39 anos. Mas essa atração pelo abismo também sempre foi uma das suas maiores fragilidades, arriscando por vezes demasiado, com declarações dramáticas ou medidas impopulares, que acabam por lhe retirar credibilidade junto dos outros líderes mundiais e a perder apoio no seu país. Desta vez, no entanto, Macron rebentou a escala, mal foram conhecidos os resultados das eleições europeias, em que os dois partidos de extrema-direita alcançaram, em conjunto, cerca de 40% dos votos dos franceses.

