“Costumo dizer, a brincar, que estamos aqui a devolver algum do ouro que levámos há uns séculos”, afirma Jorge Rebelo de Almeida, a propósito da inauguração do Vila Galé Collection Ouro Preto, que decorreu este sábado, 24, em Cachoeira do Campo, Ouro Preto, no estado brasileiro de Minas Gerais. “É um prazer enorme renovar património histórico”, acrescenta ainda o presidente e fundador do Vila Galé. “Há muitos anos que defendo que o Brasil tem um futuro promissor. E tem um potencial de crescimento tremendo”, remata.
Localizado na região de Ouro Preto, cidade que foi o centro primordial do Ciclo do Ouro no Brasil, conhecida pelas suas igrejas de arquitetura barroca e classificada património mundial pela UNESCO em 1980, o novo hotel do Vila Galé está integrado numa propriedade com 277 hectares, em Cachoeira do Campo (a 22 quilómetros de Ouro Preto). “Recuperar este edifício é mais do que abrir um hotel. É trazer de volta à vida um espaço com história e alma, contribuindo para o desenvolvimento do turismo e da economia local, como temos feito em Portugal e no Brasil”, diz também Jorge Rebelo de Almeida.
Em breve, no Vila Galé Collection Ouro Preto, serão, no total, 311 quartos: 95 no edifício principal e 216 em dois blocos adjacentes construídos de raiz (um dos blocos já está terminado, o outro só deverá ficar disponível no final de 2025). O hotel dispõe de cinco piscinas aquecidas, um spa, três restaurantes, uma biblioteca, um museu, uma capela e um clube para crianças. E ainda um anfiteatro com 130 lugares e uma área de eventos com capacidade para 900 pessoas. Na área da fazenda, também está previsto o planeamento de trilhos ecológicos com acesso a cascatas e a plantação de vinha, em cerca de 15 hectares (o grupo Vila Galé já produz vinho com a marca Santa Vitória no Alentejo, Val Moreira no Douro e Paço de Curutelo, em Ponte de Lima).

O Vila Galé Collection Ouro Preto representa um investimento de 180 milhões de reais (cerca de 30 milhões de euros), origina 120 empregos diretos e mais de 600 postos de trabalho indiretos na região. As primeiras negociações ocorreram em 2021, na Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) e, no ano seguinte, um acordo com os salesianos, proprietários do imóvel, permitiu a apresentação do projeto a grupos de hotelaria. Foi assinado um contrato de concessão com a Igreja Católica para os próximos 50 anos (renovável). Do lado do governo de Minas Gerais, o resort é visto como um projeto fundamental porque não só tem impacto na economia local e regional como permite “reposicionar” o estado brasileiro como “um destino competitivo, seguro e acolhedor”.
Novos projetos já em construção
O edifício do Vila Galé Collection Ouro Preto tem uma longa história para contar. Trata-se de um imóvel histórico onde funcionou o primeiro regimento de cavalaria de Portugal no Brasil, mandado construir em 1779 pelo então governador António de Noronha. O brasão da coroa portuguesa, ainda hoje localizado por cima da porta principal, costuma ser atribuído a Aleijadinho (1738-1814), mas não há certezas de que, efetivamente, tenha sido esculpido pelo conhecido artista do período colonial. Em 1789, o edifício foi também um dos focos principais da Inconfidência Mineira, a revolta de natureza separatista liderada por Joaquim José da Silva Xavier, o célebre “Tiradentes”.
O movimento da Inconfidência Mineira acabou reprimido pela coroa portuguesa e a maioria dos seus autores foram condenados ao degredo perpétuo. “Tirandentes” – hoje considerado um herói nacional, símbolo da identidade brasileira – foi executado no Rio de Janeiro, a 21 de abril a 1792. O corpo foi esquartejado e a cabeça foi exibida no cimo de um poste em Ouro Preto, que então se chamava Vila Rica.
Depois da revolta da Inconfidência Mineira, o edifício de Cachoeira do Campo teve ainda duas vidas: em 1816, começou a ser adaptado para a Coudelaria Imperial de Cachoeira do Campo, fundada a 29 de julho de 1819. E, no final do século XIX, em 1897, foi também ali que se instalou o Colégio Dom Bosco, uma escola agrícola orientada por salesianos. Funcionou até 1997 e, por isso, ainda hoje, muitos mineiros têm memórias familiares desse período em que ali esteve instalado o colégio.
O Vila Galé Collection Ouro Preto já é o segundo projeto de recuperação de património levado a cabo pelo grupo português no Brasil, depois do Vila Galé Rio Janeiro, um antigo hotel convertido em colégio nos anos 40 do século XX reconvertido, depois, novamente, para hotel pelo Vila Galé. No total, o grupo dirigido por Jorge Rebelo de Almeida conta com 12 hotéis no Brasil. Recentemente, antes da unidade de Ouro Preto, no final de 2024, foi também inaugurado o Vila Galé Cumbuco, no Ceará.
Ainda em 2025, em outubro, a tempo da COP 30, a reunião da ONU sobre alterações climáticas que juntará 140 chefes de Estado de todo o mundo, em Belém, no estado do Pará, também está prevista a abertura do Vila Galé Amazónia. Em construção, o grupo Vila Galé tem já quatro novos empreendimentos: dois em São Luís do Maranhão e dois em Coruripe, em Alagoas. Em conferência de imprensa, realizada este sábado, 24, em Ouro Preto, Jorge Rebelo de Almeida também confirmou um novo hotel em Inhotim, um museu de arte contemporânea a céu aberto em Brumadinho, no estado de Minas Gerais, a 60 quilómetros da capital de Belo Horizonte.