A seleção da Alemanha protagonizou esta tarde mais duas grandes surpresas neste início do Qatar2022. Na vertente desportiva, viu-se derrotada pelo Japão, depois de ter estado a vencer, tal como acontecera, na véspera, com a Argentina. Mas a maior surpresa deste quarto dia do primeiro mundial nas arábias, foi a forma engenhosa que a seleção alemã encontrou para assinalar e contornar a ridícula lei da rolha imposta pela FIFA. Como prometera, a federação germânica mostrou que “as questões dos direitos humanos não são negociáveis”. Proibidos de usar uma simples braçadeira da Fundação One Love, alusiva à defesa dos direitos da comunidade LGBTQIA+, os onze jogadores alemães perfilaram-se para a habitual foto de equipa todos com a mão a tapar a boca. Ao mesmo tempo que este gesto denunciava a censura imposta pele organismo liderado por Gianni Infantino, no camarote presidencial do estádio Khalifa Internacional, a ministra do Interior da Alemanha, Nancy Faeser, fez questão usar, na cara do polémico presidente da FIFA, a braçadeira “proibida”. A mesma que uma comentadora da BBC ostentar, em direto, durante o Inglaterra – Irão, num gesto semelhante ao da ex-primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt, que assistiu ao Dinamarca – Tunísia com um casaco com as cores do arco-íris. Se a ideia do brilhante Infatino e seus acólitos era a de proteger os amigos qataris e as suas práticas feudais, começa a perceber-se que o tiro lhes está a sair pela culatra.

Perante esta onda de rebelião para com a FIFA, cresce as expectativa em torno da presença de Marcelo Rebelo de Sousa no Qatar. Depois de receber luz verde da Assembleia da República para poder ir assistir ao vivo ao Portugal – Gana de amanhã, o Presidente da República prometeu: “Na quinta-feira, estarei a falar de direitos humanos no Qatar.” Não sabemos em que termos o fará ou se irá usar alguma braçadeira especial, mas poderia começar por lembrar a Infantino e aos dignitários qataris com quem se cruzar, o exemplo de Portugal, que ainda esta manhã assistiu a uma operação policial que visou desmantelar uma rede que traficava migrantes para trabalhar, sem quaisquer condições, em explorações agrícolas no Alentejo. E acrescentar que, se é verdade que o recurso a mão-de-obra quase escrava é uma realidade que pode acontecer em qualquer parte do mundo, a grande diferença está entre aqueles que tudo fazem para a combater e aqueles que a permitem e dela abusam. Se Marcelo o disser, alto em em bom som, ficará mais do que justificada a sua ida a terras das arábias.
Já quanto à nossa Seleção, não se espera qualquer atitude nesta matéria. Como se percebeu pela forma como os ativistas da Amnistia Internacional foram proibidos de entrar no Estádio de Alvalade com camisolas alusivas ao desrespeito dos direitos humanos no Qatar, a Federação Portuguesa de Futebol não quer que o “grupo de trabalho” se distraia com este tipo de assuntos. Era só que faltava que o foco não seja apenas o de ganhar, amanhã, ao Gana. A não ser que alguém lhes pergunte se Cristiano Ronaldo está melhor da gastroenterite…