Há muitos anos que repito uma ideia que parece óbvia, mas que continua por cumprir: o nosso mais valioso património é a Natureza. Não é uma opinião − é um facto geobiofísico. Nenhuma obra humana, por mais grandiosa que for, substitui a água, o solo, o ar ou a geobiodiversidade. E, no entanto, insistimos em tratá-los como secundários.
Portugal tem pouco património construído, e mais pobre, quando comparado com outros países europeus. Mas tem algo muito mais valioso: uma geobiodiversidade excecional. Mesmo depois de incêndios, má gestão e décadas de desleixo, continuamos a ter uma das maiores riquezas naturais da Europa. E o que fazemos com ela? Regulamo-la até à asfixia e deixamo-la degradar-se.
Há cerca de 15 anos, atravessei a Escócia a pé. Nesse ano celebrava-se o Ano da Natureza. À chegada ao aeroporto de Glasgow, recebi um guia (Código Escocês de Acesso ao Ar Livre − Scottish Outdoor Access Code) que se resumia a três princípios: assumir responsabilidade, respeitar os outros e cuidar da Natureza. Três linhas. Três ideias, nada mais.
Mas a diferença não está nas regras − está na cultura. Na Escócia, a Natureza é vivida, apropriada e valorizada pelas pessoas. Caminhar não é exceção, é normalidade. O acesso é um direito, mas também um dever. E, por isso, gera valor económico, social e identitário.
Em Portugal, fazemos exatamente o contrário. Transformámos a Natureza num território de proibição. Um espaço cercado por normas, licenças, pareceres e desconfiança. A conservação é um exercício burocrático que não serve a Natureza nem serve as pessoas. Serve, isso sim, uma máquina administrativa que se alimenta de si própria.
O Estado olha para o cidadão como potencial infrator. O cidadão olha para o Estado como obstáculo a contornar. E é neste jogo infantil − caro, ineficaz e ultrapassado − que gerimos o nosso maior ativo estratégico. Depois admiramo-nos. Admiramo-nos de que um agricultor degrade o solo do qual depende. Admiramo-nos que um projeto turístico venda Natureza e, ao mesmo tempo, a destrua. Admiramo-nos de tudo, menos do essencial: do sistema que criámos.
Custa-me compreender que um agricultor, que depende do solo, da água, dos insetos, etc., não cuide destes fatores essenciais ao seu negócio; claro que sim, a esmagadora maioria cuida da Natureza. Como é que um investidor em turismo, que decide construir um hotel na floresta, com todos os requisitos e cuidados ambientais – porque é esse o seu mercado –, depois não cuida da floresta nem a valoriza? É um absurdo que só cabe na cabeça do Estado português. Se as crianças crescerem a conhecer, a viver e a valorizar a Natureza, não será necessário proibir − será natural cuidar. Na verdade, o agricultor e o hoteleiro são os principais interessados na valorização da Natureza, ou não?
O problema não é falta de leis e regulamentos, de fiscalização. É excesso de desconfiança e ausência de inteligência. Continuamos a tratar a Natureza como um problema a controlar, quando ela é o único capital que realmente temos. A solução é simples − e, por isso, difícil: transformar a Natureza num verdadeiro bem público a que todos interessa porque cria riqueza e se valoriza ecologicamente. Não um slogan, mas uma prática.
O bom estado de um rio, de um solo, de uma floresta, tem de ser um objetivo comum e inegociável. E isso exige uma mudança radical: menos controlo cego, mais responsabilidade partilhada; menos burocracia, mais cultura. A pergunta é incómoda, mas inevitável: queremos continuar a empobrecer gerindo mal a nossa maior riqueza, ou estamos finalmente dispostos a mudar?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.