Não há mais como tapar o sol com a peneira. O País está atolado, preso a um imobilismo incompreensível para uma nação que quer andar para a frente num contexto internacional de extrema incerteza e acesa concorrência entre países e blocos económicos. Portugal não se pode dar ao luxo de ficar sentado a ver a banda passar.
Por muito que custe a muitos quadrantes políticos ouvir isto, o País está refém de franjas da sociedade que vivem presas a velhos ideais que já não fazem sentido nos tempos que correm. Será justo que um país inteiro viva refém do atavismo crónico destes grupos?
O proverbial murro em cima da mesa já vem tarde. As reformas estruturais são precisas para ontem. Mas o que é preciso fazer?
Comecemos pela economia. As pessoas votam com o bolso, diz-se, e há boas razões para isso. Parecendo que não, a vida vai levando-se melhor com dinheiro para a viver. É, portanto, altura de olharmos para a nossa economia para tentarmos perceber quais os setores verdadeiramente estratégicos, aqueles sem os quais não conseguimos organizar a nossa vida em sociedade.
Da habitação à energia, dos transportes aos recursos naturais, da saúde à banca, não faz mais sentido que estes setores sejam guiados pelos interesses de acionistas de empresas privadas não sujeitos ao escrutínio democrático dos cidadãos. Os tempos da captura dos Estados por milionários já lá vão e este país precisa de futuro.
Outra das áreas prioritárias é a do trabalho. O executivo de Luís Montenegro identificou bem esta área sensível, e essencial. O drama é haver grupos cuja força é desproporcionalmente superior àqueles que representam e que insistem em inquinar os processos negociais puxando o país para conceções laborais dignas do século XIX.
As associações patronais representam uma minoria e insistem em arrastar o País para um lodaçal que mais faz lembrar os tempos da revolução industrial. Nessa altura, os trabalhadores eram só mais um dos elementos da cadeia de produção e esmifrá-los era um preço justo a pagar pela maximização de lucros.
É preciso avisar os representantes dos patrões de que esses tempos ficaram para trás e que, no século XXI, é importante olhar para os trabalhadores como pessoas que precisam de estabilidade, previsibilidade, segurança, tempo para o ócio e salários dignos que sejam de facto representativos da riqueza que produzem.
Em vez de colocar nos recibos de vencimento dos trabalhadores um descritivo dos valores que os patrões pagaram ao Estado por aquele posto de trabalho, porque não colocar nesses recibos a percentagem daquele apartamento em Quarteira que o patrão comprou, mas que foi paga pelo trabalho de cada empregado?
É preciso darmos largas à imaginação, pensarmos fora da caixa, sairmos da nossa zona de conforto e desenhar soluções novas para tempos novos. Os tempos da semi-escravidão assalariada já lá vão e este país precisa de futuro.
Muitas outras áreas da sociedade estão neste momento a precisar de urgentes reformas estruturais, à espera que venha um governo com verdadeiro ímpeto reformista, mas abordarei, para efeitos de concisão, apenas mais uma: os impostos.
Temos, uma vez mais, um exemplo de uma área absolutamente fulcral da nossa vida coletiva que está refém de um pequeno grupo de interesses que se recusa a deixar que o País siga em frente e que se agarram ao passado com unhas e dentes.
As velhas ideias liberais de aliviar a carga fiscal aos mais ricos e de facilitar a “planificação fiscal” das grandes empresas permitindo-lhes pagar poucos ou nenhuns impostos pertencem ao caixote do lixo da História. Deixemos para trás essa ideia retrógrada de que, por artes mágicas, se os que mais têm pagarem menos impostos, o dinheiro vai fazer o seu caminho até aos bolsos dos que menos têm. Não passam de contos da carochinha que até podiam funcionar há 40 anos, mas que hoje não podem deixar de ser lembradas com algum humor, de tão desajustadas se terem tornado.
O País precisa de enveredar por novos rumos que passem por taxar aqueles que mais têm, para que os serviços públicos sejam devidamente financiados e não deixem ninguém sem resposta, para que não haja mais partos em ambulâncias, para que os desempregados possam receber subsídios dignos permitindo-lhes não aceitar qualquer proposta de tuta e meia. Os tempos de serem os pobres a pagar as crises já lá vão, e este país precisa de futuro.
Por fim, gostaria de deixar um apelo. Dirijo-me a todos estes grupos imobilistas que resistem à mudança e às reformas estruturais. Ouçam as palavras de Aníbal Cavaco Silva e de Pedro Passos Coelho! Abracem as reformas estruturais de que o País precisa. Em nome do nosso futuro! E depois, em nome da estabilidade e da previsibilidade que sei que valorizam, não mexam mais.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.