Sinto a memória em erosão. Não me recordo de como se chamava uma música que em tempos ouvi em loop, esqueço-me dos títulos dos livros que me marcaram mesmo quando consigo fechar os olhos e ver-lhes a capa, falham-me os nomes dos meus realizadores favoritos. Pego numa ponta solta de memória, um fragmento qualquer e, com um pouco de persistência, consigo chegar lá através do Google. É uma cábula sempre à mão, rápida de usar, que me ajuda a chegar a coisas que já soube, mas das quais só me recordo vagamente. É prático. Não tem como falhar. Ou será que tem?
Aquele génio de Aladino sempre pronto a ajudar-me nos meus esquecimentos tem os seus quês. Comecei a percebê-lo enquanto procurava insistentemente artigos que eu sabia que tinha escrito e publicado online e o Google insistia teimosamente em que eles não existiam. É possível que eles continuem a existir algures, debaixo da poeira eletrónica, soterrados pelo algoritmo, ou que se tenham eclipsado num servidor que deixou de existir. Nunca saberei. E como alguns deles não foram publicados em papel, não há como ir à Hemeroteca resgatá-los. Escrever na internet pode, afinal, ser como tentar deixar uma marca na água, por muito que neste momento se encontrem mais pessoas preocupadas com o que as redes sociais não esquecem do que com aquilo que o digital tem a capacidade de obliterar como se nunca tivesse existido.
No caso dos textos que escrevi e não encontro, o esquecimento é com certeza fruto de um acaso qualquer completamente aleatório e desprovido de intenções de ocultação. Mas o simples facto de não os encontrar pôs-me a pensar. E chego à conclusão de que houve um tempo em que era muito mais difícil apagar o que foi escrito do que hoje, quando tudo parece deixar uma marca e uma simples lista de compras enviada por email há dez anos pode persistir no histórico de mensagens, sobrevivendo muito para lá do seu prazo de validade de post-it.
Há uma história com a qual me cruzei há pouco tempo no livro do Pedro Vieira, Vénus em Chamas, que me reforçou essa convicção. Reza a história que o bispo Atanásio de Alexandria decidiu no ano de 367 mandar queimar um conjunto de escritos que punham em causa a versão que os poderes da Igreja queriam deixar para a posteridade de uma série de acontecimentos, entre eles as revelações que, segundo o Evangelho de Maria, teriam sido feitas por Jesus a Maria Madalena. Era suposto não ficar nem um vestígio dessa e de outras obras, incluindo uma tradução de A República de Platão e vários textos gnósticos. Mas quase 1600 anos depois, um camponês chamado Mohammed Ali Samman encontrou-os por acaso numa espécie de pote de barro enterrado. Os 13 códices em papiro enrolados em couro sobreviveram ao apagamento eterno a que o poder os tinha votado, porque alguém, provavelmente uns monges, decidiu preservá-los, escondendo-os na terra.
Sabemos como a Santa Inquisição perseguiu autores e obras, sabemos como os nazis faziam pilhas de livros proibidos para os queimar em fogueiras, sabemos como Estaline ia apagando das fotografias os antigos amigos que se tinham tornado inimigos, sabemos da censura do Estado Novo e das listas de livros que os republicanos nos Estados Unidos estão a banir das bibliotecas escolares. Sabemos como o poder usa a memória, reconstruindo-a de acordo com as narrativas que melhor o sustentam, procurando eliminar ou limitar a dissidência. E sabemos como o conhecimento é absolutamente subversivo, porque quem o detém não é manipulável, ousa questionar, imagina e, imaginando, constrói alternativas.
Sabendo tudo isto, pensem no tal pote de barro enterrado com 13 papiros e como ele sobreviveu mais de 1600 anos. E agora pensem na facilidade com que os donos das grandes tecnológicas podem manobrar com uns poucos cliques todo o conhecimento que existe, toda a memória coletiva, todas as notícias, todos os registos. Como podem apagar, ocultar ou mesmo adulterar tudo o que está na internet, sem precisar de fazer fogueiras, criando passados alternativos como se fossem verdades cristalizadas. Não é uma teoria da conspiração. É só ter a noção da fragilidade dos sistemas aos quais confiamos todo o saber e dos quais estamos tão absolutamente dependentes, apesar de não termos sobre eles qualquer tipo de controlo público, coletivo, democrático.
Sempre que entro numa sala forrada a estantes e olho para as lombadas que exibem, sei que dentro de cada um daqueles livros estão ideias, histórias, teses, factos, hipóteses, vozes muito mais difíceis de manipular do que qualquer registo digital. Claro que um livro pode trazer impressas falsidades, teorias da conspiração, deturpações. Mas um livro, numa estante, é só uma voz num conjunto de várias outras. Mesmo ao lado, terá outros livros com os quais poderá ser confrontado, que nos darão contexto, que nos farão questionarmo-nos, que nos ajudarão a situá-lo.
Não só isso como os cérebros treinados pela leitura vão acumulando camadas, que os protegem de cair na primeira esparrela. Quando a Inteligência Artificial for um simulacro tão perfeito de realidade que não será já possível ver as costuras das mentiras, um cérebro analógico, treinado na leitura de livros, será o melhor apetrecho para navegar num mundo de incertezas e manipulação.
A informação é poder. Sempre foi. Foi por o perceberem que os sumérios desenvolveram a escrita, para codificar o que era importante. E é por isso que durante séculos os saberes da leitura estiveram reservados a uma elite reduzida em quase todas as partes do mundo. Ainda assim, talvez nunca tenha existido um momento na História da Humanidade em que a concentração de riqueza e poder tecnológico estivesse nas mãos de um número tão reduzido de pessoas. Segundo a Oxfam, em 2026 os 12 mais ricos do mundo, com Elon Musk à cabeça, têm mais riqueza do que metade da Humanidade junta.
E é por isso que tenho a certeza de que a verdadeira revolução será analógica. Não a do deslumbramento acéfalo da tecnologia, mas também não a do ludismo em luta contra as máquinas. A revolução de que falo é aquela que nascerá da resistência do saber e do pensamento. Aquela que virá da consciência profunda do que é ser humano e da urgência absoluta de lutar por isso, da resistência ao poder de poucos e da construção de um mundo mais justo e melhor, que, sim, ainda é possível. O analógico é o novo punk.