Querem o meu cérebro em modo avião.
Querem-no desligado, obediente, sem turbulência, sem excesso de pensamento, sem perguntas a mais. E retirar José Saramago da leitura obrigatória parece-me precisamente isso: mais uma forma de tornar a escola num espaço onde pensar demasiado incomoda e faz confusão. Como se a dificuldade fosse um problema. Como se tudo o que exige tempo, atenção e esforço devesse ser afastado para não “pesar” nos alunos.
Mas desde quando é que a função da escola é facilitar tudo? Desde quando é que aprender passou a significar consumir conteúdos simples, rápidos e fáceis de digerir? Já não bastam as tecnologias, o scroll infinito, os vídeos curtos, o prazer imediato das redes sociais, que nos treinam para estarmos constantemente distraídos? Já não basta um mundo inteiro montado para nos roubar a atenção e reduzir a nossa paciência mental?
O Governo português não pode contribuir para isso.
Retirar Saramago não é só tirar um autor. É cultivar desinteresse pela reflexão. É dar aos jovens aquilo de que mais gostam hoje em dia: o fácil. E o fácil, quando se torna regra, não educa, acomoda. Não expande, encolhe. Não forma, entretém.
Os autores que estudamos não são uma lista de conteúdos para cumprir até ao final do período. Não servem apenas para “dar matéria” ou preencher programas. São escolhas meticulosas de palavras, ideias e formas de olhar para o mundo que nos devem acrescentar alguma coisa. Devem fazer-nos pensar. Devem desafiar-nos. E é exatamente isso que Saramago faz.
Saramago não é fácil. E ainda bem. Nem tudo tem de ser fácil. Se a escola só servir para dar coisas fáceis, então para que serve? Para repetir aquilo que os alunos já encontram todos os dias no telemóvel? Para os manter entretidos? Para lhes dar textos cada vez mais simples, mais rápidos e mais “consumíveis”? Se for isso, então mais vale admitir, definitivamente, que já não queremos formar leitores, escritores, seres pensantes. Queremos apenas evitar que alguém se canse.
E isso é grave. Porque a escola não se devia juntar à cultura da superficialidade. Devia contrariá-la. Devia ser o lugar onde ainda se aprende a parar, a pensar, a reler, a duvidar, a suportar uma ideia difícil. Devia ser o lugar onde ainda se acredita que os jovens conseguem mais do que aquilo que o mundo rápido e imediato espera deles.
Retirar Saramago é, no fundo, baixar a fasquia. É desistir de exigir profundidade. E um país que afasta o seu único Nobel da Literatura da formação dos jovens não está a evoluir. Está, na verdade, a retroceder.
Será que não entendem que pensar não perturba?
Prefiro ser uma passarola louca, a voar sem parar entre triliões de pensamentos, ideias e críticas, do que resignar-me ao estático e aborrecido modo de avião.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.