Talvez o que nos faça viver seja a arte do questionamento, uma competência que se tem vindo a perder com o passar dos anos; e escrevo-o com a intencionalidade de desafiar o leitor para outra arte igualmente fundamental: a da interpretação. Este “passar dos anos” não remete apenas para a literalidade cronológica das épocas históricas que estudamos nas carteiras da escola, embora Pitágoras, Darwin ou Camões tenham sido, com certeza, exímios nessa destreza, mas refere-se, de forma direta, a quem os estuda. Falo daquela fase pela qual todos passamos, mas que teimamos em apressar, mesmo sabendo que jamais voltaremos a ter direito a uma versão 2.0.
As perguntas inocentes da infância não são “apenas uma fase”; são o alicerce do que nos constrói como Pessoas com P grande. E engane-se quem pense que me refiro às dúvidas inerentemente associadas à análise de orações das aulas de Português ou a logaritmos em Matemática. Essas, bem vistas as coisas, têm muito mais em comum com as interrogações utilitárias da nossa vida adulta. Refiro-me, antes, às perguntas verdadeiramente desconstruídas: ao porquê de as borboletas baterem as asas, ao porquê de termos de tomar banho, ou ao motivo pelo qual não nos podemos levantar da mesa enquanto a tia Natália ainda está a reclamar com o Ricardo por se ter deixado dormir e ter faltado à missa.
Contrariamente ao que nos costumam ensinar, a relevância destas interrogações nem sempre reside na “moral da história” ou na exatidão da resposta. O seu verdadeiro valor está no próprio ato de as formular: na ponderação de considerar (ou não) aquele momento o ideal para as colocar, na forma como a nossa mãe reagiu e, só depois de tudo isso, na resposta recebida, sendo ela própria fruto do viés de longos anos de experiência e de uma educação herdada de gerações anteriores, que se depositará em nós como mais uma camada geológica do tempo.
Olhando de fora, compreendemos o absurdo de todo este processo. Talvez possamos comparar a educação de uma criança à experiência académica universitária: só descobrimos verdadeiramente como estudar para determinada cadeira na véspera do exame ou, pior ainda, com a prova já feita. Não se aplicará a mesma lógica à forma como educamos e crescemos? Com a ressalva de que, aqui, um “chumbo” equivale a um caminho mais penoso e a necessidade de ir a “recurso” se traduz, talvez, num segundo filho. E nem ousemos imaginar o peso de quem tem de ir à “época especial”.
Contudo, para não sermos inteiramente pessimistas, admitamos que há muitas ocasiões em que recorremos a estas épocas suplementares por puro aperfeiçoamento: mesmo já tendo obtido um resultado razoável na primeira tentativa, arriscamos, sabendo que, no mínimo, a nota inicial já está assegurada.
Mas será que é depois de todo este escrutínio que aprendemos, de facto, a responder às grandes questões da vida? Será que o fazemos por sabedoria acumulada, ou simplesmente porque já respondemos tantas vezes ao mesmo questionário que acabamos por decorar o texto; com o grave problema de nunca termos tido acesso à grelha de correção? Afinal, o que seria a “revisão de prova” nesta parva, mas certeira, analogia?
Ao observarmos tantos destes exames ainda em processo de maturação, muito antes de passarem efetivamente às correções finais, torna-se claro que enfrentamos um problema estrutural: habituamo-nos à obsessão de exigir uma resposta definitiva para qualquer pergunta, ignorando que, na esmagadora maioria das vezes, ela simplesmente não existe.
É precisamente esta tirania da “resposta certa” que nos encerra o olhar. Deixemos as perguntas existencialistas batidas de lado. Sim, é legítimo refletir sobre o sentido da vida, mas por que razão deixámos de considerar igualmente valioso perguntar, sem segundas intenções, porque é que o céu é azul? (E só não pergunto o real motivo de o Ricardo ter faltado no domingo porque sei, perfeitamente, que o carro ficou atravessado na garagem).
Quando abandonamos o território da simples contemplação para habitar apenas o da utilidade, a nossa perceção do mundo escurece. Talvez seja por isso que uma criança consegue responder com tanta naturalidade e prontidão qual foi “o dia mais feliz da sua vida”, enquanto para nós, “adultos”, é infinitamente mais fácil evocar o pior. Perdemos a tolerância ao inacabado; parámos de falar sobre as borboletas porque passámos a exigir que cada dúvida cobrasse uma nota na nossa pauta pessoal. Se não o tivéssemos feito, se mantivéssemos o espanto intacto, o que seria, afinal, uma “má” pergunta no meio de tantas interrogações genuínas, desconstruídas e livres?
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