Ao longo das últimas décadas, a política externa portuguesa tem sido marcada pela sua capacidade de diálogo sem abdicar dos seus compromissos estratégicos. Num tempo marcado pelo conflito, a instabilidade e a fragilização da ordem internacional liberal, o nosso país pode beneficiar da sua influente neutralidade estratégica no mundo.
A recente eleição de Portugal para membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas no biénio 2027-2028 é uma oportunidade importante para a política externa portuguesa. Portugal terá de mostrar, mais uma vez, ao mundo que o diálogo multilateral ainda funciona num sistema internacional competitivo e imprevisível.
No entanto, a neutralidade estratégica portuguesa não pode ser vista como um “afastamento” dos seus compromissos assumidos. A influente neutralidade estratégica não se caracteriza por ser uma posição equidistante face aos conflitos ou de afastamento dos compromissos multilaterais e bilaterais. Define-se, antes, pela capacidade de manter o diálogo, sem abdicar dos seus compromissos e valores que caracterizam a política externa portuguesa. A moderação no meio do caos pode fazer a diferença para a construção de pontes no mundo.
A política externa portuguesa tem-se consolidado em torno de três vetores essenciais: o espaço lusófono, a relação transatlântica e a integração europeia. Estes três pilares continuam a definir o posicionamento português no mundo. No entanto, a imprevisibilidade do panorama internacional e a crescente competitividade entre grandes potências no sistema internacional abrem uma oportunidade para Portugal poder aprofundar a sua política externa com um novo vetor estratégico: a América Latina.
Esta proposta não pretende romper com a tradicional política externa de Portugal, mas constitui uma evolução natural da política externa portuguesa, que é marcada pela sua capacidade de presença e diálogo entre laços bilaterais com os países sul-americanos. O nosso país reúne as condições necessárias para ter um papel mais ativo nos laços multilaterais e bilaterais entre a Europa e a América Latina, demonstrando ser um ator diplomático relevante num mundo cada vez mais competitivo.
Contudo, a instabilidade e a rigidez entre potências no panorama internacional farão com que Portugal tenha uma diplomacia bilateral cooperativa e estratégica. A bilateralidade traz o aprofundamento entre parceiros económicos e a cooperação diplomática entre Estados, sendo possível criar pontes. E, neste sentido, Portugal deve aprofundar os seus laços históricos e diplomáticos com muitos países da América Latina, tendo um posicionamento importante e influenciador no panorama internacional, mas, principalmente, sendo a ponte
entre a Europa e a América Latina.
Um dos exemplos dessa possibilidade de bilateralidade entre Portugal e países da América Latina é o caso do Paraguai. O Paraguai tem demonstrado ser um parceiro fiável, estável a nível económico e cooperativo no diálogo internacional. Além disso, a sua estabilidade económica e progresso social tornam o Paraguai um dos bons exemplos para o reforço das relações bilaterais entre Portugal e países sul-americanos.
Neste sentido, a importância da neutralidade estratégica de Portugal no espaço internacional é peça-chave na sua posição geoestratégica enquanto país de média dimensão e influente na construção de pontes, mediação de interesses e na sua capacidade de gerar confiança diplomática entre as organizações internacionais, mas principalmente junto de outros Estados soberanos.
Tendo Portugal esse posicionamento no sistema internacional tão característico, reforça-se que a cidade de Lisboa deve assumir um papel central na diplomacia portuguesa. A nossa capital tem uma posição geoestratégica relevante como a porta de entrada da América do Norte e da América Latina para o continente europeu. Lisboa é uma cidade importante para a realização de fóruns internacionais que têm contribuído para consolidar o papel de Portugal no mundo, como, por exemplo, o Tratado de Lisboa (2009). Lisboa pode ser a capital da diplomacia num panorama internacional cada vez mais duro entre os atores
internacionais. O nosso país tem a oportunidade de institucionalizar a cidade de Lisboa como a capital do diálogo, da negociação, da diplomacia e do multilateralismo entre os Estados e as organizações internacionais. A posição geoestratégica de Portugal, na fachada atlântica da Europa, confere-lhe uma vantagem geopolítica que muitos países europeus gostariam de ter na aplicação das suas políticas externas.
Por fim, o nosso país tem todas as condições para a sua política externa dar o passo seguinte. A nossa neutralidade estratégica é determinante no diálogo entre Estados e permite o papel de mediação para Portugal no caminho para a paz num tempo de caos. Neste sentido, acrescentar o vetor da América Latina na política externa portuguesa e a institucionalização da capital portuguesa como centro da diplomacia são duas linhas desta proposta que podem diversificar o posicionamento de Portugal no mundo, mas, principalmente posicionar Portugal como um ator internacional moderado e relevante num sistema internacional em rutura. O mundo precisa de um Portugal consciente da sua importância geoestratégica na nova ordem mundial.
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