Escrever é o ato mais egoísta e enganador. Quando alguém começa a escrever, começa por caçar um bicho selvagem que se chama palavra. E o escritor ainda tem a arrogância de não caçar qualquer uma: escolhe-a
“a dedo”. Umas vezes, gorda, balofa, para encher a boca do “Sr. Dr.”; outras, malandramente abreviadas. Não vestem fato. Vestem uns trapos, fumam a ponta de cigarros já por outros fumados e atirados para o chão.
Nós, os caçadores de palavras — os escritores de jornais, os escritores de quando a palavra vem, ou de quando o assunto é demasiado forte para passar despercebido — nós, esses, não temos o poder de criar palavras. Não somos os seus donos e, por isso, caçamo-las na mente, onde estão as palavrinhas alguma vez ouvidas ou lidas. Depois, colonizamo-las. Tornamo-las nossas. Adaptamo-las ao nosso texto e achamos bonito. Acham bonito pegar nas palavras soltas e torná-las um texto? Mas pior. Muito pior.
Depois aprisionamos a palavra. Pomo-la numa folha, numa gaveta. A gaveta mais esquecida de toda a secretária. A ganhar nódoas amarelas. A deixar borratar a tinta barata de uma caneta de campanha de um partido a que nós nem ligamos Mas depois, depois dormimos uma noite qualquer e acordamos decididos a
publicar um texto com dois anos, três dias e oito segundos.
E aí está a traição.
Vamos, feitos anjinhos, entregar o texto à editora, ou publicá-lo no fórum, no blogue, nas redes sociais. Fingir que estamos a libertar as palavras, já aprisionadas por um demónio qualquer há muito tempo. Mal eles sabem. Mal eles sabem que somos nós os demoníacos. E aprendam de uma vez: A palavra só é solta quando lida em voz alta. Só aí é devolvida à floresta, à savana ou onde quer que esses bichos vivam. Talvez no oceano profundo. Ó lágrimas salgadas… Quem sabe se, pelos olhos, também não sairão palavras. Palavras caladas. Aí, lida em voz alta, passa a existir novamente. E enfia-se pelos ouvidos de meia dúzia que a ouviram. E deixa de ser nossa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.