Elegantes, impecáveis e… previsíveis — à exceção da vitória brasileira — assim foram os Golden Globes 2026. Vestidos perfeitos, fatos alinhados e aquela sensação de déjà-vu que acompanha, de há uns anos para cá, todas as temporadas de prémios. A diferença é que, este ano, o centro da noite falava português do Brasil e ninguém fingiu que era normal um país lusófono entrar ali e sair com dois prémios como se estivesse em casa. Não estava. E, precisamente por isso, vale a pena sublinhar, elogiar e celebrar o que aconteceu.
Há anos que os Globes vivem naquele limbo entre o simpático e o cínico, entre a irreverência dos prémios de bar e a pompa coreografada dos Oscars. É a gala onde se bebe mais do que se aplaude, onde toda a gente fala em revolução para, no minuto seguinte, confirmar o status quo. Desta vez, porém, houve uma exceção inequívoca: O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho — thriller político, histórico e melancólico, já com culto crítico — venceu Melhor Filme de Língua Não-Inglesa e Wagner Moura ganhou Melhor Actor em Drama. Não é apenas simbólico, não é apenas inédito: é estrutural. É uma conquista que altera aquilo que Hollywood considera possível e, sobretudo, aquilo que o mundo considera permitido.
O cinema brasileiro já tinha conquistado festivais, mobilizado públicos e produzido autores, artistas, realizadores e actrizes que o mundo trata pelo primeiro nome — Glauber, Kleber, Karim, Salles, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres — mas nunca tinha entrado na temporada de prémios norte-americana com esta assertividade, até porque no ano passado a vitória de Ainda Estou Aqui nos Oscars e o Globo para Fernanda Torres foram uma surpresa. E, se o Brasil deu o momento vivo da gala, o resto seguiu o guião quase linha por linha, conforme, aliás, as (nossas) previsões.
A previsão dos grandes vencedores da noite — Hamnet + Batalha Atrás de Batalha e a série Adolescência — cumpriu-se com a precisão de uma folha de Excel, independentemente da grande qualidade destas três obras. Hamnet ganhou Melhor Filme Drama e confirmou Jessie Buckley como rainha trágica da temporada. Paul Thomas Anderson fez o que faz melhor: entrou com nove nomeações e saiu com quatro Globes — Realização, Argumento, Filme Comédia e Actriz Secundária (Teyana Taylor) — e a mensagem para Hollywood foi simples: o pai Thomas continua em forma. Na categoria da popularidade, Pecadores levou o inevitável Cinematic and Box Office Achievement, que traduzido significa apenas isto: “a América viu, pagou e aprovou”. Tudo ao gosto do público americano, mas também internacional, já que o filme fez boas receitas por esse mundo fora.
Ainda assim, houve um pequeno abalo logo ao início, já referido: Teyana Taylor venceu Melhor Actriz Secundária por Batalha Atrás de Batalha, numa categoria dada como fechada para a norueguesa Inga Ibsdotter Lilleaas ou para a britânica Emily Blunt. Foi aquele momento em que a sala aplaudiu um discurso emocionado e apontou o olhar para o palco com um “ah, afinal ainda há margem de surpresa”. Mas ficou-se por aí e pelo aplauso ao circuito de estrelas que foram aparecendo para apresentar os prémios, alguns “ressuscitados”, como Macaulay Culkin (Sozinho em Casa).
Na televisão, foi a noite das plataformas e a Netflix levou a taça. Adolescência limpou Melhor Série Limitada, Melhor Actor (Stephen Graham), Melhor Actriz Secundária (Erin Doherty) e Melhor Actor Secundário (Owen Cooper), num 4-0 que dispensava prolongamento. The Pitt ganhou Melhor Série Drama e devolveu protagonismo televisivo a Noah Wyle, enquanto The Studio levou Melhor Série Comédia e garantiu o Globo de Seth Rogen. Para rematar, Ricky Gervais venceu sem espinhas na categoria de Stand-Up com Mortality, lembrando que ainda não existe ninguém capaz de insultar celebridades com a mesma elegância de sempre.
No balanço final, os vencedores ficaram alinhados: Batalha Atrás de Batalha, Hamnet, Adolescência e — sublinhado a “néon” — O Agente Secreto. Dentro deste último, Wagner Moura não foi apenas vitória histórica ou pérola simbólica: foi o reconhecimento objectivo de um dos melhores actores da sua geração, agora validado por este Golden Globe.
Entre os derrotados simpáticos, temos Guillermo del Toro (Frankenstein), que ficou com várias nomeações e pouca conversão; Richard Linklater, duplamente nomeado na categoria de Melhor Filme Musical ou Comédia com Blue Moon e Nouvelle Vague; e Pecadores, que descobriu aquilo que acontece quando um blockbuster tenta ser respeitável: Hollywood devolve com paternalismo.
A tese desta noite pode escrever-se sem rodeios: previsibilidade com verniz progressista, diversidade, internacionalização, mulheres a vencer, Brasil no centro, streamings a dominar, polémicas a zero, tudo muito cool. Os Golden Globes 2026 foram aquilo que sempre foram: um casamento improvável entre a opinião (e votação) da crítica internacional, copos, um bom jantar, glamour de catálogo e modernidade controlada. A diferença é que, desta vez, o Brasil ocupou o centro do palco e ninguém teve coragem — nem vontade — de o tirar de lá. E isso não acontece todos os anos. Quando lá chegará o cinema português? Bom, não vale a pena pensar nisso a estas horas da madrugada. Até aos Oscars, a 15 de março, para mais uma gala, onde as facas são mais afiadas e o champanhe mais caro, mas não necessariamente melhor.