Previsões, favoritismos, calculadoras de estatística emocional e o drama anual de tentar adivinhar quem ganha enquanto o mundo perfeito dos Globos (Golden Globes) continua a brincar aos Oscars.
Começa sempre assim: o tapete vermelho ainda nem foi estendido, os jornalistas ainda não aqueceram as cordas vocais e já há meio mundo a jurar que sabe quem vai ganhar os Golden Globes 2026. Isto apesar de, todos os anos, os Globos ou melhor os Golden Globes — para não confundir com os da SIC — demonstrarem que a única regra que respeitam é a do caos educado. Mas vamos lá: domingo, 11 de janeiro, 20h em Nova Iorque (1h da manhã em Lisboa e outras geografias que não contam para as audiências da CBS), o circo volta a abrir as cortinas. E nós cá estamos, sentados com o coração partido entre o cinismo e o entusiasmo, a fingir que isto ainda nos surpreende.
Antes do drama propriamente dito, um par de notas de serviço: Nikki Glaser volta a apresentar a cerimónia, garantindo uma coisa essencial, o teleponto vai sofrer e as celebridades também. Há ainda duas homenagens que vão dar o tom “institucional”: Helen Mirren recebe o Cecil B. DeMille Award e Sarah Jessica Parker o Carol Burnett Award, o que explica porque metade de Hollywood decidiu aparecer este ano com mais brilho do que o normal. E há categoria nova: Digital Audio, traduzindo para a língua comum, podcasts, porque claro que já não basta sermos obrigados a ouvi-los no ginásio — e já são tantos, qualquer “gato-pingado” tem um —, agora também têm os Golden Globes.
Do lado do cinema, a narrativa é clara desde o início: Batalha Atrás de Batalha, do senhor Paul Thomas Anderson, lidera com nove nomeações, um número que dá para um cocktail de nervos, expectativas e fetichismo por estatísticas. Mas também há espaço para duas coisas que a América adora fingir que descobre todos os anos: o cinema de autor e o cinema estrangeiro, representados pela avalanche de elogios a Hamnet (drama literário com pedigree real), Pecadores (vampiros, fé e box office, o triângulo amoroso do século XXI), e o fenómeno brasileiro O Agente Secreto, que ameaça fazer história.
Vamos ao que interessa: quem deve ganhar, quem merece ganhar e quem vai ganhar porque é assim que o sistema funciona.
No topo da hierarquia emocional está a categoria de Melhor Filme (Drama), onde Hamnet caminha com ar de já vencedor, tipo aristocrata que sabe que a coroa está na mesa antes do jantar começar. O único que lhe pode estragar a festa é Pecadores, de Ryan Coogler, o filme que mistura vampiresco e blockbuster como quem mistura gin com água tónica. Mas a América gosta de distribuir migalhas de prestígio, por isso o mais provável é: Hamnet leva o drama, Pecadores leva o troféu de “acheivement” (mais bilheteira no fundo) e todos saem felizes.
Melhor Filme (Musical ou Comédia) é um caso diferente: Batalha Atrás de Batalha está tão à frente que seria necessário um acidente metafísico para perder. A outra hipótese é Marty Supreme ou Bugonia, mas aqui ninguém quer arriscar: Anderson já quase mandou imprimir o discurso. E sim, está a unhas de fazer o chamado hat trick: filme, realização e provavelmente argumento. Se depois perde o Oscar, paciência. Oliver Stone já passou por isso.
Nas interpretações, há três grandes narrativas daquelas que os Globos adoram para se acharem progressistas: Jessie Buckley, em Drama, por Hamnet, numa performance que diz tudo aquilo que a academia gosta de ouvir: intensa, literária, “importantíssima”; Wagner Moura, em Drama Masculino, por O Agente Secreto, porque seria literalmente histórico: o primeiro brasileiro a ganhar aqui, empurrando Michael B. Jordan para o “pode ser mais tarde”; Timothée Chalamet, em Comédia, por Marty Supreme, porque ele é o golden boy oficial da geração e os Globos adoram um golden boy.
Nas mulheres do lado “comédia/musical”, aposta mesmo segura: Rose Byrne por If I Had Legs I’d Kick You, filme que metade do público não viu — nós vimos, mas está sem data de estreia prevista em Portugal —, mas cujo título sozinho já merece prémio. Do outro lado do jogo dos secundários, os Globos parecem inclinados para a dupla nórdico-melancólica: Stellan Skarsgård e Inga Ibsdotter Lilleaas, ambos de Valor Sentimental, de Joachim Trier, porque nada deixa a América mais orgulhosa do que premiar dores emocionais traduzidas do norueguês.
Depois há os prémios que só existem para confundir as avós: Melhor Canção: deve ir para Golden, do fenómeno animado KPop Demon Hunters, porque assim o K-pop leva um Globo e a indústria finge que percebe juventude; Melhor Filme em Língua Não-Inglesa ou Internacional: aqui a aposta é O Agente Secreto, não só pela qualidade, mas porque o Brasil anda a recolher o que semeou desde Bacurau: respeito internacional; Cinematic and Box Office Achievement: vitória quase garantida para Pecadores, porque vampiros + bilheteira = aprovação celestial.
E por fim as séries, esse território onde a televisão mostra que agora é cinema com temporadas. Nos Globos, o domínio parece bipolar entre The Pitt (Drama), The Studio (Comédia) e Adolescência (Limitada). Os actores seguem o mesmo mapa: Noah Wyle, Seth Rogen, Rhea Seehorn, Stephen Graham, Sarah Snook e novamente um destaque previsível: Ricky Gervais leva o stand-up, porque ninguém diz às premiadas o que elas não querem ouvir melhor do que ele.
No fim, o que fica é isto: os Golden Globes 2026 vão coroar a tríade do momento e que mais agrada à crítica, à imprensa estrangeira e dos festivais, o que pode não ser necessariamente o mesmo que agradará aos academistas de Hollywood nas votações dos Oscars: Hamnet, Batalha Atrás de Batalha e Pecadores — enquanto abrem caminho para uma narrativa histórica brasileira com O Agente Secreto, do ex-crítico de cinema Kleber Mendonça Filho. E com isto Hollywood salva mais um ano de glamour artificial, previsões furadas e champanhe tíbio. Segunda-feira, todos dizem que “a indústria está em mudança”; terça-feira, tudo volta ao normal. Adeus até aos Oscars a 15 de março.