Madonna é o seu próprio demiurgo, controlando sempre, com mão calçada de luva punk, a sua narrativa. Criatura e criadora, camaleónica, ao longo das últimas décadas (o seu quarto e icónico álbum, Like a Prayer, celebrou 30 anos em 2019), a artista nascida em 1958 em Bay City, no industrializado e pouco glamoroso Michigan, reinventou-se continuamente, fintando os supostamente efémeros prazos de validade da pop.
Estava tudo contido no título da digressão Blond Ambition World Tour (1990), cartão de visita em que a cantora, vestida com corpetes de cones protuberantes (cortesia de Jean Paul Gaultier), assentava os pilares do seu reinado. A música importava, mas havia igualmente a imagem, a mensagem, a pose, o discurso, o titilar dos tabus, a sexualidade in your face, a provocação, a religião, a opinião, o querer engolir o mundo. O espetáculo-manifesto e o manifesto da artista. Que é, diga-se, a artista feminina mais bem paga dos EUA, e com várias digressões a quebrarem recordes.
Recorde a entrevista exclusiva à VISÃO: MADONNA: “SINTO-ME INSPIRADA POR ESTA MELANCOLIA E SENTIMENTO DA GUITARRA PORTUGUESA”
Oficiante da transfiguração, foi loira ou morena, barro ou ícone. As reencarnações de Madonna chegariam para todo um batalhão de pupilas, desde a has been Britney Spears até à declaradamente imitadora Lady Gaga. O seu catálogo identitário é extenso e funciona como espelho social das últimas décadas, com Madonna a assumir-se, muitas vezes, como pioneira, de radar afinado a captar sinais. Apresentou-se como virgem a repetir refrões falsamente inocentes, material girl a espelhar a Nova Iorque yuppie dos anos 1980, idólatra vestida de ganga, órfã de mãe aos pés de um altar (o Vaticano não gostou e Like a Prayer vendeu mais de 15 milhões de cópias), protagonista da hipersexualização dos anos 1990 ao encenar as fantasias eróticas (em disco e no livro Sex, fotografado por Steven Meisel).
Depois da carne, veio o espírito: emergiu a estudiosa da cabala, a adepta de ioga. O casamento com o realizador inglês Guy Ritchie e o sonho cumprido de interpretar Evita Perón no cinema, em 1996, transfiguraram-na numa espécie de lady of the manor, aristocrata senhorial na sua mansão. Cedo mudou de pele outra vez, emergindo como militante antiguerra do Iraque e, depois, como deusa do dance floor. Em 2006, no palco da digressão Confessions Tour, Madonna fazia de conta que se crucificava, com direito a coroa de espinhos na cabeça. A cantora alegou que queria chamar a atenção para os problemas humanitários em África; na vida privada, assumiu-se como benfeitora do Malawi, país de origem dos filhos adotados.
Última reencarnação? A matriarca de seis filhos (dois biológicos, quatro adotados) que se redescobre em Lisboa e não abdica da provocação e da sexualidade. Madame X, contou, nasceu do tédio de se ver confinada ao papel ingrato de soccer mom. A cantora invoca um caleidoscópio de personagens (espécie de esquizofrenia em que alguns leram desespero e outros uma procura corajosa): “Madame X é uma bailarina, uma professora, uma estadista, uma governanta, uma amazona, uma prisioneira, uma estudante, uma mãe, uma criança, uma freira, uma cantora, uma santa, uma prostituta e uma espia na casa do amor”, diz ela. Talvez isto seja, apenas, o ciclo da vida: a Madonna de 19 anos que sonhava ter sucesso foi batizada como Madame X pela sua professora de dança, Martha Graham. Um nome que regressa, com a força de uma marca.