Uma investigação promovida pela prestigiada instituição cristã World Vision e pelo Human Flourishing Program da Universidade de Harvard, em colaboração com o Centro de Teologia, Espiritualidade e Saúde da Universidade Duke, a Claremont Graduate University, apoiada por teólogos de diversas tradições da fé cristã, desenvolveu um projeto para tentar entender quais seriam os fatores decisivos para a formação espiritual das crianças.
Esse estudo incluiu cerca de 4.600 crianças em diferentes países de diversos continentes e regiões do mundo, incluindo Bolívia, El Salvador, Albânia, Iraque, Lesoto, Senegal, Sri Lanka, Tailândia e Uganda, e contou com testes interculturais adicionais.
A principal conclusão a retirar do estudo, de acordo com Edgar Sandoval, CEO da World Vision, em entrevista à revista Christianity Today, foi que “as crianças experimentam o amor de Deus principalmente por meio das suas famílias, através dos seus pais”, o que não surpreende, pois os cristãos entendem que esse é plano de Deus para o mundo, por isso os seres humanos nascem em famílias. Ou seja, o fator principal aqui é a conexão humana.
Daí que as respostas das crianças inquiridas, segundo o relatório da World Vision e Jennifer Wortham, a pesquisadora associada de Harvard e principal investigadora do estudo, as crianças assimilam o amor de Deus através de “experiências vividas de confiança, proteção, perdão, encorajamento e pertença”. Numa atividade infantil na comunidade de fé, em que as crianças foram convidadas a desenhar Deus, um menino desenhou uma pessoa que era “metade a sua mãe e metade o seu pai”.
O relatório refere que as crianças que se referiram de forma mais positiva à prática da oração, por exemplo, são exatamente aquelas que punham confiança em Deus de modo a superar as situações mais difíceis vividas nos seus países, com “sofrimento inimaginável devido a conflitos, mudanças climáticas, deslocamento e fome”.
A ideia de que o instrumento mais poderoso para combater a pobreza seja a ajuda humanitária pode não ser exata. Talvez o principal seja a identidade, isto é, a noção de que “foram criadas à imagem de um Deus que as ama.” As crianças que sofrem negligência, abusos ou mesmo abandono podem ser francamente resilientes e adaptáveis, mas isso não significa que floresçam enquanto seres humanos equilibrados e saudáveis. Até porque nem todas as crianças têm a felicidade de poder contar com pais, avós ou irmãos amorosos e confiáveis. E por isso é tão importante encontrarem adultos que lhes indiquem o caminho e lhe proporcionem cuidado, atenção e orientação.
E eles podem ser encontrados entre professores, treinadores e responsáveis religiosos, de modo a lhes proporcionarem aceitação, amor e um sentimento de pertença, já que as suas “primeiras experiências de amor foram fragmentadas, ausentes ou traídas”. Ao oferecerem-lhes conforto e orientação esses cuidadores oferecem-lhes um modelo para uma relação com Deus.
Melhor do que a educação cristã proporcionada às crianças pelas comunidades de fé é o apoio e acompanhamento dos pais e outros familiares, e o seu exemplo de vida e fé. É isso que faz a diferença na vida e na formação duma criança, ver os seus pais a viverem a presença de Deus na vida quotidiana em vez de apenas celebrar comportamentos ou conquistas.
E a razão é porque elas prestam atenção sobretudo ao que os pais fazem e não tanto ao que dizem. “Quando os pais disciplinam os filhos num contexto de afeto e compromisso, pedem perdão pelos próprios erros, servem os necessitados ou respondem aos momentos difíceis com esperança em vez de desespero” acabam por refletir nos filhos “a própria essência do amor de Deus”.
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