No sentido concreto do termo, alguém ser pessoa é uma definição complexa, distinta e imprevisível, que ora pode dizer isto ora pode dizer, logo em contrário, aquilo. Sobre ser-se a pessoa que se pode ser, de facto, há diferentíssimas abordagens e todas elas poderiam estar certas no que, em conjunto, mesmo que em sentido diverso, propõem como hipótese. Melhor, ser pessoa, bem vistas as coisas, pode, até, com uma alta probabilidade de razão, definir-se, a final, por meio dessa incerteza certa que faz o incerto estar, certamente, sempre, por acertar.
No entanto, cavado todo esse surf-conceptual, surge a pessoalidade, que é manifestação própria, e prévia, essa sim, da exata pessoa que, entre várias, até infinitas, se tem sido em si mesmo. A pessoalidade é, por isso, a expressão singular através da qual uma vida se torna verdadeiramente nossa e donde emerge a pessoa que conseguimos, efetivamente, ser. Numa palavra, quer isto dizer que vamos sendo a pessoa que a nossa pessoalidade desvenda sermos.
Porém, uma questão fundamental é: o que sucede quando a pessoa que se tem sido passa a ser coibida da pessoalidade que vinha a fazer dela o que, justamente, até esse momento, vinha a ser?
Note-se que uma possível resposta a esta questão parece encontrar-se num dos acontecimentos que marcaram os últimos dias da Índia, onde milhares de jovens, muitos deles reunidos em torno do movimento Cockroach Janta Party, protestaram contra um sistema de acesso ao ensino superior que, no seu entendimento, deixara de distinguir entre o mérito e a arbitrariedade, já que a sucessão de fugas de exames e de outras irregularidades técnicas tornava o sucesso escolar dependente de circunstâncias estranhas ao esforço, ao estudo e à capacidade de cada um.
Ainda assim, mais do que uma crise de confiança num sistema de acesso ao ensino superior, o que o comportamento destes jovens anunciava pelas ruas de Nova Deli era que a arbitrariedade de uma sociedade não destrói apenas oportunidades, mas interrompe, sobretudo, o caminho através do qual cada pessoa se vai tornando naquilo que a sua pessoalidade a chama a ser. De outra forma: quando o humano se apercebe de que a sua pessoalidade, e, por consequência, o acontecer da pessoa que se é, deixa de encontrar acolhimento na comunidade onde vive, rompe-se a confiança de que essa mesma comunidade ainda possa constituir o lugar onde uma vida encontre sentido, reconhecimento e realização.
Aliás, justamente sobre isto, Simone Weil, na obra O Enraizamento, observa que o humano, para além das necessidades elementares do corpo, como a alimentação, a saúde ou o descanso, possui, de igual forma, necessidades da vida moral, cuja satisfação é indispensável à realização da pessoa que se será. A autora escreve, inclusivamente, que, quando essas necessidades deixam de ser satisfeitas, o destino que resta ao ser humano é “terminar num estado puramente vegetativo”.
Na Índia, atualmente, estes jovens resistem e lutam pela sua mais íntima pessoalidade, que está na génese da pessoa que sabem poder ser, concretizada, eventualmente, no acesso aos mais diversos e dignos lugares da sociedade, fruto do que Weil considera igualdade, isto é, em produto de um “reconhecimento público, geral, efetivo e expresso pelas instituições e costumes quanto ao trato de todos com igual dimensão de respeito e consideração”.
Isto porque, quem se manifesta, ainda vai reunindo em si algumas das várias necessidades da vida moral de que fala Weil – a esperança, a responsabilidade e a honra – mas já não reúne a principal, que é o próprio enraizamento, entendido como o vínculo vivo entre a pessoa, produto da mais profunda pessoalidade, e a comunidade, onde, de forma real, ativa e reconhecida, a vida comum se constrói a partir da justa realização de todos aqueles que a integram.
Nos dias que correm, seja na Índia, aqui em Portugal ou noutro qualquer sítio, insiste-se em não compreender que o futuro-que-se-espera-mesmo só acontece quando cada pessoa encontrar, na comunidade, o lugar necessário para se tornar naquilo que a sua mais profunda pessoalidade a faz ser e, desse modo, erguer uma realidade onde o destino social tanto deixe de ser distinto do destino das pessoas que a compõem, como passe a ser feito à medida do verdadeiro potencial humano que ainda ninguém arriscou descobrir e está bem à nossa frente: na pessoalidade que ainda nos vai restando para sermos o que nunca fomos, mas podemos, perfeitamente, um dia destes, vir a ser.
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