Tozé Brito escreve canções há quase 60 anos, mas queria aventurar-se pela prosa. Depois de uma tentativa de entrar na ficção, socorreu-se da ajuda de Inês Meneses, que há décadas escreve crónicas em jornais e revistas. Juntos, trocaram cartas todos os dias, numa conversa por escrito feita de reptos e réplicas, entre duas pessoas que vivem juntas, mas nunca fizeram a batota de falar sobre o que iriam escrever. O resultado foi Ao Fim do Dia. Memórias e Confissões de um Casal, um livro escrito a quatro mãos, no qual Tozé Brito resvala para memórias mais íntimas e Inês Meneses sobrevoa algumas histórias antigas, sem entrar em pormenores. Se nas redes sociais Tozé e Inês gostam de se mostrar como casal, no livro só se entrevê a intimidade, raramente se entra na privacidade. Fica clara a vontade do músico de escrever, mas não há nenhuma promessa quanto à autobiografia que poderá vir a fazer.

Tozé Brito queria escrever, Inês Meneses tem o músculo da escrita bem treinado e deu-lhe a mão para se lançar nessa tarefa. Se a conversa é uma arte em conflito com a urgência deste tempo instantâneo e as mensagens curtas substituíram as cartas, este livro é um manifesto sobre como se pode redescobrir alguém através de uma troca epistolar. Um exercício bem conseguido, que revela dotes de escrita do autor de canções e confirma o estilo da cronista, em histórias bem contadas e memórias surpreendentes.
Editora Contraponto
Como é que aparece este livro?
Tozé Brito (TB) − Eu nunca tinha pensado escrever um livro neste formato. Mas, ao longo do tempo, com a escrita de canções durante quase 60 anos, tinha muita vontade de escrever prosa. De sair daquele formato da letra da canção. Eu gosto muito de escrever canções. Mas aí tens três minutos para contar uma história, em quatro quadras, num soneto, seja lá no que for. Há um espaço. Desta vez, apeteceu-me ter espaço para escrever mais. Mas não tive coragem de me meter nisto sozinho. Já tinha feito uma tentativa. Começava a escrever umas coisas e tal… mas não estava lá.
A Inês, no fundo, deu-lhe a mão para entrar nesta água.
TB − Deu-me as duas mãos. Eu fiz-lhe a proposta e ela aceitou de imediato… Disse-me para ser eu a escrever o primeiro texto. Disse-me: “Lanças o desafio, como pistas e tal. E eu vou respondendo.” E todos os dias trocávamos textos.
Foi mesmo todos os dias?
TB − Foi mesmo todos os dias.
Sem batota?
Inês Meneses (IM) − Talvez tenhamos falhado num dia em que um escreveu e o outro não respondeu porque teve um compromisso. Ah, sim, mas… Mas a ideia… Isso não quebra o ritmo, não é? Sempre. Sempre foi por isso.
TB − Eu acho que escrevi todos os dias.
IM − O Tozé ficava ansioso, no bom sentido. À espera. Começava a rondar a casa. “Então, já escreveste?”
Num tempo de mensagens curtas e rápidas, às vezes em áudio até, em que praticamente não há cartas, isto é quase como se duas pessoas que vivem juntas escrevessem cartas uma à outra.
TB − Isso mesmo.
E a ansiedade pela resposta?
TB − Eu tinha saudades disso. Porque eu venho de um tempo, e a Inês também, de escrever cartas. Não havia cá as escritas digitais para coisa nenhuma. E eu gostava de escrever cartas. Eu tinha saudades de escrever.
E também de receber as respostas, não?
TB − Claro. Mas, apesar de tudo, foi árduo. Não foi uma coisa simples. Eu, pelo menos, senti isso. Não sei o que é que a Inês sentiu. Mas eu fui muito fundo em algumas questões em relação às quais nunca tinha ido assim tão a fundo. E depois há o deixá-las por escrito. Ficam para a posteridade. Há um preço de responsabilidade aqui.
Os textos foram muito burilados? Ou saíam ao fluir da pena?
TB − Não, saíam…
IM − Os meus saíam… Eu escrevo muito depressa. Cuspo o texto. E fica, porque é a minha verdade. É aquele momento de verdade. O Tozé escreve um texto mais minucioso. Volta atrás, relê, corrige. Não, é parido.
TB − É mesmo parido. O texto é parido. Esta minha escrita é muito condicionada pelo meu hábito de ter de escolher as frases, as palavras. Uma palavra concisa. Porque, numa canção, se tu não disseres aquilo naquele espaço, perdes o significado da história. Por outro lado, senti o peso dessa responsabilidade de estar a falar de questões pessoais. Não só do meu passado, mas do nosso presente.
Que regras é que havia? O que é que combinaram entre vocês?
IM − Não combinámos grande coisa, na verdade. Fomos livres, os dois. Acho que há um território de intimidade que não queremos ultrapassar. Ou seja, o que está no livro é uma coisa, acho eu, aceite por todos. Por todos, até por alguns implicados no livro. Mas há algum território de intimidade. Mesmo quando mostras muito, há um território de intimidade que tem de ser preservado. Até porque as outras pessoas não podem ser chamadas para dizer se concordam ou não. Portanto, havia ali umas balizas.
Mas essas eram naturais ou foram preestabelecidas?
TB − Não foram impostas. Nunca falámos sobre isso.
IM − Há uma certa elegância, acho eu. Quem já leu o livro sabe que há ali territórios que não foram ultrapassados. Isso, para mim, era muito importante.
Alguma vez fizeram a batota de falar sobre os textos antes de os escrever?
IM − Não. O Tozé dizia-me muitas vezes, quando eu lhe entregava o texto: “Já sei o que é que vou dizer.” Mas não dizia.
TB − Fica sempre qualquer coisa no ar. Em qualquer dos textos que nós escrevemos, de um lado ou do outro, havia sempre umas pistas, umas deixas. Havia sempre qualquer coisa que me dirigia, qualquer coisa que me dizia “pega nesta frase da Inês e por aqui vais por um caminho”.

Alguns dos textos entram em matérias não sei se filosóficas, mas reflexivas. Por exemplo, sobre Deus. Estou a lembrar-me, em particular, de um texto do Tozé sobre Deus, que é, no fundo, também uma resposta a Inês.
IM − Nós falamos muito disso, realmente, na nossa vida. Falamos muito disso à mesa, à noite, ao jantar. Porque, apesar de termos visões diferentes, acho que elas acabam por encontrar um caminho comum. Eu acho que o Tozé é mais otimista na fé dele. E a minha fé é mais abstrata.
TB − Eu tenho fé neste equilíbrio do mundo.
Vocês estão juntos há sete anos. E uma coisa que sinto que, como sociedade se perde, mas também como casal se perde com os anos, é a capacidade de conversar. E de ter conversas que são interessantes e estimulantes e que vão para lá do dia a dia, das coisas que se têm de decidir em conjunto. E este exercício que vocês fazem aqui é um exercício de conversa que mostra que vocês, sete anos depois, ainda não esgotaram os temas.
IM − Este livro é muito fiel ao nosso registo diário. Ou seja, claro que não vamos ter todos os dias conversas profundas e filosóficas, mas continuamos a conversar imenso. Aliás, eu quase arriscaria dizer que talvez a principal razão por que nos aproximámos, porque houve uma atração, foi por esse lado. Pelo fascínio da conversa.
TB − Das palavras. Do pensamento, de termos ideias coincidentes em aspetos muito importantes. Políticos, filosóficos, etc.
IM − Humanistas.
TB − E isso aproxima-nos muito. No início, nós mal nos conhecíamos… Nós conhecemo-nos num Festival da Canção, nunca nos tínhamos visto… Começámos a conversar a partir dali e começámos a perceber que tínhamos muita coisa em comum. E essas coisas estão aí. Muitas delas estão transpostas para o livro.
O amor é o único assunto?
IM − Para mim, é.
TB − O amor, quando a gente o tem, deixa de ser o único assunto. Só na ausência é que nós percebemos que o amor é o único assunto.
Torna-se invisível quando o temos?
IM − Mas são muitos os caminhos do amor.
TB − Claro que são. Todas as canções são canções de amor. Eu digo isto muitas vezes. Uma música sobre uma injustiça está a fazer uma declaração de amor à justiça. Há sempre esse lado. Podes sempre ver o amor numa coisa que não é amorosa. Qual é o amor que está implícito.
IM − Eu falo muito do amor pelos amigos. O amor que acontece numa situação com dois estranhos. O amor não é só o amor romântico. Conheço imensas formas de amor. Sim, tudo é sobre amor.
Ou sobre a falta dele?
TB − Exatamente. Estamos em tempos de mais falta de amor do que de muito amor.
IM − Repara: a palavra ódio entrou no nosso léxico. Antigamente não íamos buscar o ódio para driblar argumentos. Começámos a trazer a palavra “ódio” para o nosso discurso. Isso é sinal dos tempos. Há qualquer coisa de errado.
TB − A má distribuição da riqueza é o grande problema deste mundo. Se houvesse uma redistribuição da riqueza, éramos todos muito mais felizes. É muito complicado ver a miséria de um lado e ver a opulência absurda do outro.
Mas isso não é erro. É programa, não é?
TB − Claro que é programa. Mas tínhamos de programar o mundo de outra forma para sermos mais felizes e termos mais equilíbrio. Acho que tocamos nesse assunto aí no livro. E esses são assuntos que nos preocupam também. Estamos perfeitamente de acordo aí.
IM − Nós estamos sempre muito em sintonia nesse tipo de assuntos. Ou seja, assumindo que somos privilegiados, queremos que os outros também sejam privilegiados. Acho que essa é a grande diferença neste momento. Porque a maioria das pessoas com muito dinheiro, que são verdadeiramente ricas, não quer que os outros sejam ricos. Isso aconteceu neste país durante décadas, em que havia um punhado de famílias ricas que queriam era oprimir e ostracizar mais os pobres.

Está igual agora?
TB − Não, agora piorou, porque está a uma escala planetária. Penso que está a extremar-se. E isso preocupa-me bastante.
IM − Interessa-me muito avaliar o carácter das pessoas, quando percebo que, sendo elas privilegiadas, não querem que os outros tenham as mesmas regalias e os mesmos direitos.
É a ideia da escassez, como se a manta fosse muito curta e só queremos tapar os nossos pés.
IM − Sim. E nós podíamos não ter, mas temos a mesma visão sobre esses assuntos.
TB − É muito triste.
Ama-se alguém que não ouve a mesma canção, mas se não se ama quem não está na mesma sintonia política?
TB − É muito mais complicado.
Voltando aqui à metáfora da água, onde o Tozé meteu os pés com a ajuda da Inês. Fiquei com a sensação de que há uma diferença em relação à profundidade até onde cada um de vocês mergulha. O Tozé vai a memórias mais íntimas, mais profundas, mais descritivas da sua vida e a Inês é mais subtil, a fazer pinceladas largas de algumas coisas, ou às vezes a entrar em pormenores, mas que são pequeninas histórias, sem se arriscar tanto no domínio da privacidade.
IM − Sim, o Tozé expõe-se mais.
TB − Creio que aí há um pouco esse resguardo, que a Inês usa. Eu exponho-me mais, por natureza.
Pode haver não só uma diferença de feitio, mas uma diferença de género? Uma mulher que escrevesse com tanto pormenor a sua vida íntima, como o Tozé escreve, seria bem aceite? Poderia ousar uma mulher ainda viva, ainda pública, ser tão clara na sua vida?
TB − Eu leio os livros da Annie Ernaux, por exemplo, e são assim. Está lá tudo, de uma forma violenta até.
IM − Sim, mas tu tens toda a razão. Eu em nenhum momento me senti ilimitada para contar o que quer que fosse. Até porque o Tozé tinha essa via aberta e eu poderia tê-la também. Mas eu escrevi durante muitos anos O Sexo e a Cidália, que era um pseudónimo muito desbragado e, de certa forma, também me cansei um bocadinho. Era um pseudónimo, mas a dada altura já toda a gente sabia que era eu que escrevia aquelas crónicas. E eu também me cansei um bocadinho daquele registo.
Embora esse registo fosse muito mais ficcionado, ou não?
IM − Ou pseudoficcionado. Mas dá outra liberdade. É diferente de… Neste caso, era realmente não querer falar. Querer manter quase sagradas as coisas que eu vivi. É preservar alguma coisa de íntimo.
TB − Atenção, porque houve também muita coisa íntima que eu vivi que não está lá. Eu contei histórias que me marcaram muito. Coisas que eu vivi aos 20 anos, por exemplo.
Algumas são dignas de filme.
TB − Algumas são cinematográficas. Mas são verdade. Não há nada ficcionado. E haveria muitas mais. Escolhi algumas que me pareceram adequadas e que vinham a propósito dos reptos que a Inês me ia lançando. Não houve aqui vontade absolutamente nenhuma da minha parte de ser exibicionista. Há histórias aqui que me fazem sentido e me marcaram muito. Eu costumo dizer que o que eu guardei na memória é importante. O que eu não guardei na memória não me interessa. Já não quero nem saber disso. Tudo aquilo que eu vivi de importante lembro-me perfeitamente de o ter vivido.
Nós, portugueses, passámos de uma fase de um pudor extremo com tudo o que é íntimo para, graças às redes sociais, uma espécie de pornografia da felicidade. Em que é quase obrigatório mostrar-se o que se está a fazer. Quem vem a este livro à procura dessa pornografia não a encontra…
IM − Não, acho que não. Havia uma espécie de código implícito de não ultrapassar certos limites. Nunca foi preciso lembrar ao outro que não íamos escancarar a nossa vida. Houve sempre uma subtileza. Para mim, não está de maneira nenhuma nada que seja íntimo. Muito facilmente eu convido as pessoas a virem cá à casa, as pessoas chegam a esta sala e dizem: “Eu acho que já conheci esta sala por ver as fotografias no Instagram.” E tu vês a sala, mas tu não sabes onde é que eu me sento.
Mas há uma ilusão de proximidade. Não no vosso caso em particular, mas generalizadamente.
IM − Sim. Acho muito que estamos num mau caminho quando vamos para um concerto e interessa-nos mais fotografar o palco e o outfit que levamos do que estar a gozar o concerto. Mas se eu tenho flores em casa e quero partilhar a beleza, isso é quase uma cadeia, uma harmonia que une as pessoas. Para mim não há nada de errado nisso. Outros, no entanto, dirão: mas para quê partilhar as flores? Para que partilhar o sofá? Para mim há sempre um limite. Eu sei até onde é que vou. O lugar onde eu me sento ninguém sabe.
Como é que se intui esse limite?
IM − No nosso caso, os limites estão traçados porque nós temos uma sintonia de quase dez anos. O Tozé sabe perfeitamente aquilo de que eu gosto, aquilo de que eu não gosto e eu também sei o que é que perturba o Tozé. Portanto, não é preciso estar a lembrar. Há aqui um código desconhecido que se tornou conhecido, digamos.
TB − As redes sociais são perversas em muitos aspetos, mas há um único lado honesto: só nos segue quem quer. E eu noto perfeitamente que há pessoas completamente desinteressadas da minha vida e perfeito, vivam as delas, eu tenho a minha. E há outras que, por alguma razão, se interessam por saber em que é que eu estou a trabalhar, o que eu estou a escrever, o que eu estou a fazer. Essa é uma seleção natural que se faz. O que acho absolutamente pornográfico é aquela busca absurda de ir à procura de likes e de seguidores. Isso nunca me preocupa absolutamente nada. Vou pondo aquilo que acho que faz sentido pôr e não me exponho. Posso falar dos meus netos, das minhas filhas, dos meus amigos… Tiramos muitas fotografias juntos e falamos de nós próprios, mas dentro daquilo que nós achamos que é para partilhar. E depois quem se interessa interessa-se, quem não se interessa…
Todas as canções são canções de amor. Eu digo isto muitas vezes. Uma música sobre uma injustiça está a fazer uma declaração de amor à justiça
Para alguém que tem tanta experiência em ser figura pública, em tantos períodos históricos diferentes, como o Tozé, qual é a grande diferença em ser famoso relativamente a outras épocas passadas? Há alguma?
TB − Nenhuma. Eu tive muito mais exposição pública quando estava ativo em termos de cantar e tocar. Desde o Pop Five, depois o Quarteto 1111, os Gemini, todos os grupos… Aí eu tinha uma exposição pública gigante. Depois comecei a resguardar-me, passei para a indústria, estive a gerir companhias discográficas, e sempre a escrever. Aparecia na televisão de vez em quando, mas comecei a afastar-me cada vez mais desse protagonismo. Hoje, há uma geração que me reconhece porque cresceu a ver-me. Alguns são um pouco mais novos. E esses são aqueles que estão mais próximos de mim em termos de se aproximarem de mim, de tentarem falar comigo. Depois eu noto que as pessoas novas, muitas delas me reconhecem, mas não se aproximam! E eu acho fantástico. A melhor coisa que há é atravessar a fronteira, ir a Badajoz e ninguém nos conhecer.
Este livro mostra que há aqui um escritor. Há aqui uma vontade de escrever. Não sei se um romance ou um livro de memórias. Mas há aqui literatura.
TB − Romances, nunca. Ficção, nunca. Não sou capaz de ficcionar. Sei que não sou. Não sou capaz de ficcionar mais do que três ou quatro páginas.
Mas já tentou fazer esse exercício?
TB − Já tentei. Nunca fiquei satisfeito. Falar sobre mim próprio… é o assunto que melhor conheço. Poderia ser uma escrita autobiográfica. Eu fiz uma primeira tentativa de escrever, antes de este livro nascer. E escrevi mais de 100 páginas autobiográficas, em que ficcionei muita coisa. E estava convencidíssimo de que isso poderia passar como ficção. Mostrei ao irmão da Inês, o jornalista e professor universitário João Paulo Meneses, que é alguém cuja opinião eu prezo muito… E ele disse-me: “Isto és tu. Toda a gente percebe que isto és tu. És tu e coisas que tu viveste, contadas de outra forma.”
Então é assumir isso e escrever uma autobiografia?
TB − É isso. É a única coisa que eu sou capaz de escrever. Não há aqui um escritor. Se um dia não tiver nada para fazer, se não estiver na SPA [Sociedade Portuguesa de Autores] como estou, na direção, na administração, a trabalhar e, ao mesmo tempo, a fazer música. E, ao mesmo tempo, a ter uma vida familiar e de amigos. Se um dia estiver reformado e vier para casa, que é uma coisa que não tenho no horizonte… A minha ideia é trabalhar até cair. Até não poder trabalhar mais. Se um dia vier para casa, é uma possibilidade.
Estamos num mau caminho quando vamos para um concerto e interessa-nos mais fotografar o palco e o outfit que levamos do que estar a gozar o concerto
Se calhar não é preciso vir para casa. Até porque se nota neste livro que foi uma coisa escrita em grande velocidade, porque ele faz referência a acontecimentos muito recentes.
IM − Nós entrámos neste registo meio febril. Ou seja, independentemente de haver um prazo ou não, entrámos nisto de uma forma febril.
TB − O gozo que isto nos deu, tu não imaginas.
Como é que decidiram parar?
IM − Aí tivemos um prazo.
TB − Podíamos ter continuado. Mas houve uma altura em que nós estávamos a escrever e a nossa editora teve conhecimento do que estávamos a fazer. Leu e disse que gostaria que isto estivesse terminado até uma data. E então passámos a ter aquela data como limite.
IM − Mas isto é uma conversa contínua. O que eu acho mais bonito, honestamente, neste livro é que ele é uma conversa contínua e pode ser retomado a qualquer momento.
Podem fazer um novo livro neste registo?
IM − Se quiséssemos, sim, claro.
TB − Daria para fazer vários.
Esse não foi claramente o vosso propósito, mas tendo em conta a dificuldade na vida moderna de ter uma conversa, aconselhariam casais ou amigos a fazer estas trocas?
IM −Já aconselhámos uma ou outra vez. Numa das apresentações do livro, falámos precisamente desse efeito terapêutico. A escrita tem esse efeito terapêutico. No nosso caso foi muito apaziguador nós falarmos do passado e da importância que o passado tem. E eu senti uma enorme pacificação com esse passado do Tozé, pelo facto de estar ali escrito.
Porquê?
IM − Não sei explicar. É o poder que as palavras escritas têm. É muito bonito dizer várias coisas, mas elas perdem-se com o tempo. Por isso é que nós continuamos durante anos a ter caixas com cartas, postais. As pessoas precisam de reler. O Tozé é um coletor. São anos e anos e anos de notas. Tirou notas durante muitos anos.
TB − Notas de coisas que vivia. Outras coisas que eu li e que me tocaram muito. E coisas que eu vivi com algumas pessoas. E frases que disseram. Coisas que eu gostei muito ou que me chocaram muito. Tomei notas de todas essas coisas. Estão aí para se um dia escrever a tal autobiografia. Muita dessa matéria pode ser usada. Neste caso, não usei praticamente notas dessas. Mas é evidente que, ao tomá-las, isto vai ficando no cérebro.
Havia alguma coisa um do outro que não soubessem e que descobriram ao ler estas cartas?
TB − Acho que não. Aprofundámos algumas questões. Questões de que tínhamos falado superficialmente. Especialmente sobre a infância, a adolescência. Tínhamos falado sobre o assunto, mas não tínhamos ido tão fundo. E aqui fomos a pormenores que eram aquelas que não conhecíamos.
IM − Acho que a maior surpresa é confirmar que o Tozé escreve tão bem.