De Seia a Nelas, os vinhos do Dão descobrem-se entre visitas à adega e provas

De Seia a Nelas, os vinhos do Dão descobrem-se entre visitas à adega e provas

Há pouco mais de uma década, António Madeira trocou Paris, onde nasceu, e o trabalho como engenheiro, no qual “ganhava dez vezes mais”, pelas vinhas velhas em Santa Marinha, Seia, a terra dos avós e dos pais, onde em miúdo passava as férias de verão. Com ele vieram a mulher, Mariana, os filhos de 12, 8 e 5 anos (o mais novo nasceu cá) e a ambição de fazer vinho “como se fosse um produto cultural, assente na essência e na expressão da identidade”.

“Quando comecei a provar bons vinhos em França, eles pareciam-me um poema, uma obra de literatura. Nessa altura, quis saber como estava esse mundo por cá e percebi que a terra onde eu adorava passar as férias de verão era antigamente a grande região em Portugal. O Dão é o diamante português nos vinhos”, aponta António Madeira, de 45 anos, um dos mais recentes investidores na Região Demarcada do Dão – delimitada em 1908 e que abrange os concelhos do distrito de Viseu, Coimbra e da Guarda.

Um dos vinhos de António Madeira, um dos mais recentes investidores na região a apostar em vinhas centenárias

António Madeira tem adquirido videiras quase ao abandono, a partir das quais faz vinho “fermentado pela meteorologia daquele sítio”. “As minhas vinhas são museus-vivos que estão a despontar. Podemos estar em Estocolmo ou em Nova Iorque, mas, quando provamos este vinho, estamos no Dão. É uma viagem no tempo, ao provarmos o Dão de há um século”, salienta o enólogo autodidata.

“No início, só tinha ideias. Vendi o meu apartamento em Paris para investir aqui”, conta-nos na adega, onde faz as vinificações naturais (tudo começa nos solos ainda trabalhados à enxada e a cavalo), e no armazém que acabou de expandir para o dobro, no sopé da serra da Estrela, próximo de uma das 20 parcelas que tem espalhadas por seis aldeias. Das cepas, que vão dos 50 aos 180 anos, saem atualmente 12 vinhos em 70 mil garrafas por ano, vendidas para 30 países.

Características únicas

Ao contrário de outras regiões vitivinícolas do País, quando se percorrem as estradas do Dão não se avistam as vinhas. É preciso fazer uns desvios por caminhos secundários para encontrá-las, dispersas em áreas montanhosas, entre os 400 a 700 metros de altitude – são 13 409 hectares, com Touriga-Nacional, Alfrocheiro e Jaen (tintos), Encruzado e Malvasia-Fina (brancos) como castas dominantes –, junto a floresta, oliveiras ou pinhais, protegidas dos ventos pelas serras da Estrela, Caramulo, Montemuro e Buçaco.

Vanda Pedroso estuda as castas autóctones no Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão

Terá sido por causa desta geografia, aliás responsável pelo perfil elegante dos vinhos de mesa, que, no século XIX, chegaram a apelidar o Dão de Borgonha portuguesa. A região entraria em declínio, a partir dos anos 60 e 70 do século passado, devido à concorrência do Douro e do Alentejo, aliada à aposta da produção em massa ao invés da qualidade. O volte-face dar-se-ia a partir de finais dos anos 90. “O Dão voltou a reerguer-se com as armas que tinha: as castas e biodiversidade vínica”, sublinha Arlindo Cunha, ex-ministro da Agricultura e atual presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Dão.

O Dão voltou a reerguer-se com as armas que tinha: as castas e biodiversidade vínica

Arlindo Cunha

Das duas centenas e meia de castas autóctones portuguesas, um terço é nativo desta região banhada pelos rios Mondego e Dão, com invernos frios e verões quentes, o que diz muito do seu património e do potencial económico. No campo de ensaio (1,7 hectares) do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, futuro Polo de Inovação de Nelas, a engenheira Vanda Pedroso tem 91 castas, algumas caídas em desuso e que agora andam a ser resgatadas pelos produtores, como a Uva-Cão, Barcelo, Douradinha, Rabo-de-Ovelha, Alvarelhão ou Coração-de-Galo. “Do ponto de vista do património genético, o Dão está a voltar ao que era”, nota a engenheira-agrónoma, que anda a estudar as castas autóctones vai para 40 anos.

Valorizar o Interior

Há mais de três décadas que o engenheiro-agrónomo Carlos Lucas trocou Coimbra por Canas de Senhorim, terra da família materna, para fazer vinho. Passou por adegas cooperativas, foi sócio da Quinta de Cabriz, com Casimiro Gomes (antiga Dão Sul, atual Global Wines, um dos maiores e mais antigos produtores da região), e, em 2011, fundou a Magnum Vinhos, na Quinta do Ribeiro Santo. Hoje, a marca soma 38 hectares de vinha, no concelho de Carregal do Sal (Cabanas de Viriato e Oliveira do Conde).

Carlos Lucas, da Magnum Vinhos, um dos produtores mais antigos da região

Depois de, em 2014, construir de raiz uma adega, aberta a visitas e a provas, Carlos Lucas tem outros projetos para alargar o enoturismo: um hotel no palacete da Quinta da Bela Vista – onde encontrou dois hectares de vinhas velhas dos anos 60, das castas Bastardo, Rabo-de-Ovelha e Rufete –, um restaurante na Quinta de Santa Maria e uma nova adega na Quinta das Pedras Brancas. “Durante a pandemia, as pessoas redescobriram o Dão [a Rota dos Vinhos do Dão inclui 48 produtores], e isto não vai parar. Temos o granito, a altitude, o clima, diferentes parcelas e localizações. Estamos a falar de fazer vinhos, não massificados, mas de altíssima qualidade, como se fossem ourivesaria”, sustenta o engenheiro-agrónomo.

“O Dão está a começar a fazer um percurso como o do Douro. Chegou gente nova com outra formação, visão e variedade do produto. Falta-lhe só que as pessoas venham com tempo para ficar, e para isso precisamos de acessibilidades. Não nos sentimos serranos, mas as pessoas fazem questão de que sejamos serranos”, afirma Carlos Lucas. E enumera as razões: “Não temos comboio, há quatro anos, e não acontece nada a nenhum governante pelo atraso. O IP3 continua a ser o que é, e também nada acontece aos governantes. Sinto-me revoltado com esta política de não valorização do Interior”, confessa.

O engenherio civil Álvaro Castro herdou a Quinta da Pellada nos anos 80. A filha, a enóloga Maria Castro, segue-lhe as pisadas

Nas quintas da Pellada e de Saes, em Pinhanços, Seia, também “a falta de pessoas” e as alterações climáticas têm sido as maiores preocupações de Álvaro Castro, de 73 anos, e da filha, a enóloga Maria Castro, de 49. “A primeira vindima que fiz [em 1989] começou a 20 de setembro. Neste ano, acabou exatamente no dia 20 de setembro, ou seja: terminámos no dia em que começámos, há 34 anos. É um problema, não há como escondê-lo. Podemos continuar a fazer vinho, mas não dá para fazer igual, porque as maturações longas e suaves, as que davam os grandes vinhos, são cada vez mais difíceis de atingir. É o desafio da agricultura”, diz o engenheiro civil, que virou enólogo e produtor, após herdar a propriedade da família, em 1980. Não fossem estas problemáticas e não haveria nada para mudar na região, aponta Maria Castro, formada em biotecnologia. “O segredo do Dão passa por fazer o estilo de vinhos que sempre fez: equilibrados, com mais acidez, menos concentrados, mais longos e suaves, com menor grau alcoólico.”

Reencontrar a genética

Quando visitámos a quinta de Julia Kemper, na pequena aldeia de Oliveira, em Mangualde, a equipa estava prestes a enviar um relatório sobre a última vindima, a pedido de Jancis Robinson. Não é a primeira vez que a conhecida e reputada crítica de vinhos britânica toma contacto com os vinhos biodinâmicos da advogada, que deixou o Direito para transformar a quinta da família num negócio sustentável.

Lá fora, não vendo o Dão como estando situado no Interior, mas digo que somos das montanhas altas. É muito mais sexy”

Julia Kemper

Há poucos anos, Jancis Robinson classificou quatro vinhos Julia Kemper com nota 17 e, em 2022, foi a vez de a publicação Robert Parker Wine Advocate lhe reconhecer um selo verde, o que atesta a sua preocupação pela sustentabilidade. Sem saber como se plantava sequer uma rosa, quando aceitou tomar conta da quinta, Julia Kemper reconverteu a vinha tradicional em biológica. E não se tem dado mal. “Dinamizamos a biologia de todos os seres vivos, onde estão as nossas videiras. É uma vinha dentro de uma floresta [há porcos, texugos, raposas…], e esta biodiversidade é fundamental para controlar as pragas”, descreve Julia. “Esta terra desperta muito amor às pessoas: temos ótimo vinho, mas também fruta e azeite. Lá fora, não vendo o Dão como estando situado no Interior, mas digo que somos das montanhas altas. É muito mais sexy”, ri-se.

O futuro terá de passar pela criação de valor. “O Dão está a reencontrar a sua genética. Não queremos e nem podemos produzir muito; só é preciso que os vinhos tenham qualidade”, sublinha Arlindo Cunha, também vitivinicultor, que vê com bons olhos o facto de a região estar a ser procurada por investidores, enólogos e produtores de outras regiões.

O que falta ao Dão é abertura de espírito e não copiar o Douro nem o Alentejo. A região tem uma identidade muito própria

Dirk Niepoort

Para Dirk Niepoort, que em 2014 adquiriu a Quinta da Lomba, em Gouveia, onde produz nove vinhos, “o Dão sempre foi a região portuguesa por excelência”. “Está no bom caminho. O que lhe falta é abertura de espírito, e não querer copiar o Douro nem o Alentejo. O Dão tem uma identidade muito própria, um terroir de solos graníticos e castas diferentes”, sustenta o produtor de vinhos.

Depois do Douro e do Alentejo, também Luísa Amorim entrou no Dão, em 2018, quando comprou a Quinta da Taboadella, com 42 hectares de vinha, em Silvã de Cima, Sátão. Em 2021, a Caminhos Cruzados (Quinta da Teixuga, Nelas) foi adquirida pelo grupo Terras & Terroir; e o trio de enólogos do Douro, Jorge Moreira, Francisco Olazabal e Jorge Serôdio Borges (marca M.O.B.), apostou em Seia e em Gouveia. Já os vinhos de viticultura biológica da Textura Wines (Vila Nova de Tazem e Penalva do Castelo) andam a dar que falar desde 2018.

Tiago Macena, em breve o primeiro Master of Wine português, é um dos sócios da nova marca No Rules Wines

Uma das marcas mais recentes é a No Rules Wines, com adega no centro de Nelas e vinhas em Vila Nova de Tazem e Póvoa das Quartas. O projeto junta o enólogo Tiago Macena, de 40 anos – que será o primeiro Master of Wine português (qualificação emitida por The Institute of Masters of Wine no Reino Unido) –, ao consultor de vinhos Cláudio Martins e ao empresário António Martins. “A região é diferente pelo granito e pela altitude. Só temos de tirar partido disso”, aponta o futuro mestre de vinhos que, depois de apresentar o trabalho final de pesquisa com dez mil palavras, em julho de 2024, terá o título mais cobiçado de todos os profissionais do setor. O Dão agradece!

VISITAS E PROVAS

António Madeira > Av. 16 de Setembro, 5B, São Martinho, Seia > T. 96 308 7742 > visitas sob marcação

Boas Quintas > Quinta da Giesta, Mortágua > T. 231 921 076 > Visita guiada à adega e provas de vinho (a partir €10), sob marcação (seg-sex 10h-12h, 14h-18h)

Caminhos Cruzados > Quinta da Teixuga, Nelas > T. 232 940 195 > seg-sáb 9h-18h > visitas sob marcação

Casa da Passarella > R. Santo Amaro, 3, Passarela > Lagarinhos, Gouveia > T. 238 486 312 > Por ora, só a loja de vinhos se encontra aberta (seg-sex 9h-13h, 14h-18h). Em breve, retomam as visitas à quinta, adega e provas (suspensas, devido à construção de um hotel, na antiga casa de família)

Casa de Santar e Paço dos Cunhas > Lg. do Paço, 28, Santar > T. 232 945 452 > ter-sáb 10h30, 14h e 16h > Visita guiada aos jardins do Paço dos Cunhas, Vinha do Contador e Adegas Casa de Santar, com prova de vinhos e minitábua beirã (€20 a €30). Pode ser acompanhada pelo enólogo Osvaldo Amado. Inclui restaurante

Julia Kemper Wines > Quinta do Cruzeiro, Oliveira, Mangualde > T. 21 356 8180 > Visita à adega com prova de vinhos (€17,90), ou às vinhas e adega, com degustação de vinhos, pão local e azeite da quinta (€38,90, mínimo duas pessoas)

Magnum Wines Ribeiro Santo > Quinta do Ribeiro Santo, Oliveira do Conde, Carregal do Sal > T. 232 961 652 > Visitas à adega (€10 sem vinhos, €15 com prova de três vinhos), almoços ou jantares (prato e vinhos €35, mínimo seis pessoas), e workshop temático Cozer a Broa (€25, mínimo 4 pessoas)

Quinta de Cabriz > Quinta das Sarzedas, Carregal do Sal > T. 232 960 148/961 222 > Organiza passeios pedestres pela vinha, com prova de vinhos (sob marcação, a partir €18,50/pessoa), e dispõe de restaurante (seg-qua, sex-sáb 12h-15h, 19h-22h, dom 12h-15h)

Quinta da Taboadella > Silvã de Cima, Sátão > T. 96 711 6877 > Visita guiada à adega, da autoria do arquiteto Carlos Castanheira, com prova de vinhos (a partir €26, ter-sáb 11h, 15h)

Solar do Vinho do Dão > R. Aristides Sousa Mendes, Fontelo, Viseu > T. 232 410 060 > seg 14h-18h, ter-sex 10h-12h30, 14h-18h, sáb 10h-13h > Welcome Center da Rota dos Vinhos do Dão, enoteca e loja de vinhos com provas (a partir €3, pessoa)

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