A Leste do Paraíso pertence àquela categoria cada vez mais rara de séries que nos fazem desconfiar do dispositivo onde estamos a vê-las. A Netflix chama-lhe minissérie, tem sete episódios e vive oficialmente no território da televisão, mas há nela uma escala dramática, um trabalho de atores e uma conceção visual que pedem um grande ecrã e uma sala escura à volta. É, para mim — que, confesso, com tantos filmes para ver, vejo poucas séries —, a grande “obra cinematográfica” da temporada e um dos acontecimentos audiovisuais do ano.
O primeiro gesto de Zoe Kazan é também o mais arriscado: não fugir do apelido. O avô, Elia Kazan, realizou em 1955 a adaptação que ajudou a transformar James Dean num ícone. Em vez de se limitar à reverência familiar, Zoe regressa ao romance inteiro, recupera personagens e linhas narrativas praticamente ausentes do filme e transforma a herança num confronto. A neta não refaz o filme do avô; responde-lhe.
A Leste do Paraíso é uma saga familiar, claro, mas chamar-lhe apenas isso é como dizer que a Bíblia é um livro sobre famílias numerosas com problemas de comunicação. Há pais que preferem filhos, irmãos que se amam com a mesma intensidade com que poderiam estrangular-se e uma culpa que atravessa gerações como se viesse incluída no património. Steinbeck construiu tudo isto sobre a sombra de Caim e Abel, e Zoe Kazan percebe que não precisa de sublinhar a metáfora com marcador fluorescente. Basta deixá-la respirar.
No centro está Cathy Ames, ou antes Florence Pugh, porque a certa altura já é difícil separar uma da outra. Cathy foi durante décadas lida como uma encarnação quase abstrata do mal. Zoe Kazan faz uma operação mais interessante: não a absolve, não a transforma retroativamente numa santa feminista e não lhe inventa uma desculpa sociológica para cada crueldade. Dá-lhe contexto. Florence Pugh faz o resto. Pequena, compacta, sensual, ferida e perigosíssima, atravessa a série com aquela capacidade rara de parecer simultaneamente vítima e ameaça. Há momentos em que basta entrar num plano para mudar a temperatura da cena.
Christopher Abbott dá a Adam Trask uma bondade que nunca chega a ser inteiramente inocente; Mike Faist faz de Charles um homem corroído pela certeza de nunca ser o escolhido; Tracy Letts transforma Cyrus num pai que usa a autoridade como arma. Ciarán Hinds traz a Samuel Hamilton uma humanidade sem açúcar, Martha Plimpton dá corpo e coração a Faye e Hoon Lee é talvez a grande revelação. O seu Lee, empregado sino-americano dos Trask, não é decoração exótica nem consciência moral de serviço: é inteligência, humor e resistência, até se transformar numa das figuras emocionais decisivas da história.
Televisão com complexo de CinemaScope
A conceção de produção de Grant Major transforma casas, estradas, quintas e objetos em memória familiar; Stuart Dryburgh e Sam Chiplin fotografam paisagens e rostos como se a televisão tivesse finalmente deixado de ter complexos por querer ser cinema. Garth Davis realiza os primeiros quatro episódios e Laure de Clermont-Tonnerre os três últimos sem quebrar a unidade, o que, num projeto desta dimensão, já é uma vitória.
Também merece referência a operação montada pela própria Netflix em torno da estreia. O Tudum, o portal de conteúdos da plataforma, publicou entrevistas com Florence Pugh e Zoe Kazan, além de textos sobre a adaptação, os cenários, os objetos, as personagens e até os locais de filmagens. É promoção, evidentemente — ninguém confundiu de repente a Netflix com a Cahiers du Cinéma —, mas promoção feita com muita inteligência e com a consciência de que havia aqui um acontecimento cultural para vender, não apenas conteúdo para encher um carrossel de filmes e séries onde, por vezes, se torna difícil encontrar exatamente aquilo que queremos ver.
A ideia central continua, porém, a caber numa palavra: timshel. “Tu podes.” Ou, simplificando, a ideia de livre-arbítrio. Não digo mais: esta crónica é também para quem chega à história pela primeira vez. Basta saber que Steinbeck construiu uma das suas ideias mais poderosas em torno da possibilidade de escolher. Não somos obrigados a repetir os pais, os avós, os pecados da família ou os pecados de um país. Podemos fazê-lo — os seres humanos têm um talento prodigioso para repetir erros com roupa nova —, mas podemos também escolher outra coisa.
É isso que torna esta adaptação actual sem obrigar personagens de 1900 a falar como militantes de 2026. Atualizar um clássico não é pôr-lhe um telemóvel na mão: é descobrir por que razão ainda nos dói. E A Leste do Paraíso continua a doer porque fala de herança, ressentimento, racismo, desejo, maternidade, paternidade e daquela fome infantil de sermos preferidos por alguém ou de percebermos que não somos.
Há pequenas irregularidades, inevitáveis numa narrativa que atravessa décadas e muda de centro entre gerações. O luxo visual ameaça, por vezes, transformar a tragédia numa montra particularmente cara. Mas são defeitos de uma obra que arrisca muito, não de uma série que se contenta com pouco.
A Leste do Paraíso é televisão, mas daquela televisão que torna a divisão entre cinema e pequeno ecrã quase despercebida. Se algum programador suficientemente insensato — no melhor sentido — decidir projetar os sete episódios numa sala, contem comigo. Florence Pugh merece cinco metros de altura. Steinbeck também.
“A Leste do Paraíso”, o filme: James Dean, Elia Kazan e uma sombra impossível de apagar
Em 1955, Elia Kazan fez uma escolha simultaneamente herética e genial: pegou no gigantesco romance de Steinbeck e adaptou apenas a sua parte final. Concentrou-se em Cal e Aron, irmãos que disputam o amor de um pai rígido na Califórnia de 1917. A Leste do Paraíso tornou-se assim menos uma adaptação integral do que uma tragédia sobre rejeição, culpa e necessidade de amor.
E depois havia James Dean. Tinha 24 anos, quase nenhum passado no cinema e uma maneira de representar que hoje pode parecer excessiva, física, nervosa, incapaz de ficar quieta dentro do enquadramento. Kazan percebeu que esse excesso era o filme. Rodou em CinemaScope e ajudou a fabricar uma das imagens definitivas do adolescente ferido do pós-guerra.
Dean recebeu uma nomeação póstuma ao Oscar; Jo Van Fleet (Cate) venceu como Atriz Secundária e o filme somou quatro nomeações. Mais interessante é perceber como a obra parece também um filme secreto sobre o próprio Kazan, então marcado pelo depoimento perante a Comissão de Atividades Antiamericanas, na era da Caça às Bruxas ou do Macarthismo. Culpa, traição, julgamento e perdão estavam em Steinbeck, mas Kazan tinha razões pessoais para os reconhecer.
Setenta e um anos depois, a neta regressa ao mesmo material e reabre a ferida. Numa família normal, daria uma conversa bastante desconfortável ao jantar. Na família Kazan, deu duas grandes obras.
“A Leste do Paraíso”, o livro: O romance que ensinou uma geração a viver com Caim
Publicado em 1952, A Leste do Paraíso passou durante décadas de mão em mão, quase como parte da educação sentimental de uma geração. Steinbeck, que receberia o Nobel da Literatura dez anos depois, considerava-o a obra para a qual todo o resto da sua escrita o tinha preparado.
O livro acompanha várias décadas das famílias Trask e Hamilton e transforma o Vale de Salinas, na Califórnia natal do escritor, numa espécie de território bíblico americano. Adão e Eva, Caim e Abel, irmãos rivais, pais incapazes de amar por igual, filhos esmagados pela comparação e culpa transmitida de geração em geração: tudo está lá, mas nunca como exercício de erudição. A Bíblia serve a Steinbeck para falar de pessoas que querem ser melhores do que aquilo que receberam e nem sempre conseguem.
Cathy Ames continua a ser a personagem mais complexa da história. Steinbeck desenhou-a quase como uma força do mal, fascinante precisamente porque escapa a explicações reconfortantes. É uma das razões pelas quais o romance continua a suscitar novas leituras e uma das zonas em que Zoe Kazan mais claramente dialoga — e discorda — do autor.
No centro está timshel, palavra que Steinbeck lê como “tu podes”: podes escolher, podes não repetir, podes não ser aquilo que fizeram de ti. Talvez seja por isso que A Leste do Paraíso continua a ser lido. Não promete que seremos bons. Apenas recusa aceitar que estejamos condenados a ser maus.