Consegui um intercâmbio como Visiting Scholar na University of New South Wales (UNSW), em Sydney, na Austrália, para realizar estudos comparados sobre federalismo cultural, isto é, para investigar como, nesta e na federação brasileira, se repartem as competências relativamente às responsabilidades culturais dos entes políticos.
No primeiro dia de atividades, o colega supervisor da minha estadia na UNSW, o professor Lucas Lixinski, levou-me ao local onde mais tempo passam os investigadores do universo jurídico, a Law & Justice Library (biblioteca especializada em Direito): um lugar encantador, que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, de acesso livre, o que significa que os funcionários não pedem qualquer identificação para entrar e até retirar livros das prateleiras.
Estruturalmente, a biblioteca jurídica da UNSW é dotada de vários tipos de espaços que são disponibilizados aos leitores: mesas redondas, cabinas individuais, salas para estudos coletivos, assentos confortáveis e espaços com computadores e Internet são algumas das facilidades mais visíveis.
Situada num edifício de quatro andares, com o acervo próximo das salas de aula de portas transparentes, dá a sensação de que as atividades académicas são ministradas num ambiente cuja perceção varia entre a de se estar num oceano ou num ventre de livros. É um sentimento verdadeiramente orgânico o que percorre a relação entre seres humanos e essas milenares ferramentas do conhecimento.
Após conhecer o ambiente, cheguei à conclusão apressada de que a estrutura acolhedora e o ambiente de liberdade e confiança seriam coisas peculiares da unidade universitária qualificada como a 13.ª de maior excelência em todo o mundo, no âmbito jurídico, segundo o QS World University Rankings. Não demorou muito para eu descobrir o meu erro.
Precisando de adquirir algumas amenidades, dirigi-me ao Shopping Metro, no município metropolitano de Randwick, com o propósito adicional de comprar algum livro. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que, no referido centro comercial, não havia livraria.
Porém, a maior loja, superando em tamanho a loja de roupa e até mesmo o supermercado, é uma biblioteca pública, com comodidades semelhantes às acima relatadas para a da Universidade, apenas com a limitação de horário ao funcionamento do centro comercial. Porém, para compensar, oferece um serviço gratuito de entrega do acervo (livros, revistas, CDs, DVDs etc.) a quem esteja sob cuidados médicos, tenha mobilidade reduzida, ou seja, já de idade avançada.
Não bastasse, na primeira folga que tive, fui conhecer a Sydney Opera House, verdadeiro ícone da cidade e, ao caminhar pelas cercanias, deparei-me com um edifício semelhante a um palácio de governo, cuja beleza me atraiu para ver o interior, no qual há — surpresa! — uma linda, convidativa e aberta biblioteca. Não muito distante, a Biblioteca Estadual, simplesmente deslumbrante, ocupando todo um quarteirão, tanto com o acervo literário como com salas de exposições de artes plásticas e fotografia.
Fiquei interessado em saber sobre eventual política cultural específica, tendo descoberto que, na Austrália, as bibliotecas públicas são, em grande medida, organizadas pelos governos locais, não existindo propriamente uma única rede estatal de Sydney que abranja toda a metrópole.
Trata-se de um serviço público que entra na agenda política, tanto por exigência dos eleitores como por oferta dos que disputam os seus votos. As bibliotecas aqui descritas contam-se às dezenas na Grande Sydney, e o apego da população induziu-me mentalmente a fazer uma comparação com outra viagem relativamente recente: os templos estão para a Índia como as bibliotecas estão para a Austrália.
As analogias com o Brasil também foram inevitáveis, levando-me a pensar em iniciativas quase heróicas, algumas das quais mais pitorescas do que efetivas, como a de colocar frigoríficos velhos recheados de livros em pontos de autocarro (geladeirotecas), passando pelo jegue-livro, a bici-biblioteca, o barco-biblioteca, etc., chegando às políticas do livro e da leitura, que parecem persistir, se não no pensamento, na prática de que biblioteca é simplesmente um espaço onde há livros, o que evidentemente não basta: elas devem ser atrativas para as pessoas em geral, oferecer a perceção da sua importância sociocultural, com estrutura digna e acessível e, assim, possibilitar um contínuo processo de formação não apenas de leitores, mas de plenos cidadãos, como eloquentemente se evidencia ser o caso da Austrália.
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