Durante o terrível Cerco de Leninegrado, uma das batalhas mais mortíferas da II Guerra Mundial, em que um milhão de civis morreram sob bombas e de fome, desenrolou-se um dos episódios mais comoventes e paradoxais da História contemporânea. Encurralados num edifício gelado da Praça de Santo Isaac, os investigadores do Instituto de Botânica Aplicada guardavam um espólio sem paralelo: o primeiro grande banco de sementes do planeta, composto por toneladas de arroz, batatas, cereais e leguminosas coligidos nos quatro cantos do mundo. À medida que as rações diárias se reduziam a um punhado de serradura e farinha, vários desses cientistas escolheram a morte por inanição a tocar num único grão sob a sua custódia. Não se tratava de mero alimento – era o futuro da agricultura global e a herança do génio visionário que os inspirara, Nikolai Vavilov, caído em desgraça e deixado a morrer nas masmorras de Estaline.
Este dilema moral e científico ganha agora fôlego em O Jardim Proibido de Leninegrado, a mais recente obra de Simon Parkin, jornalista de investigação e ensaísta britânico, colaborador regular de publicações como The New Yorker, The Guardian e da BBC. Em entrevista, o escritor e jornalista explica como a obsessão por um património vivo desafiou o instinto biológico mais primário da sobrevivência, e por que razão o sacrifício destes homens e mulheres, longe de ser um mero drama do passado, encerra um aviso urgente para a vulnerabilidade alimentar do século XXI.
Como descobriu esta história do Instituto Vavilov durante o Cerco de Leninegrado e em que momento percebeu que tinha material suficiente para um livro?
Há alguns anos, li uma notícia no The Guardian sobre uma disputa de terrenos em Pavlovsk, nos arredores de São Petersburgo. Uma agência imobiliária estatal queria expropriar parte de uma estação experimental para construir habitações de luxo. À primeira vista, parecia uma vulgar disputa de planeamento urbano local. No entanto, aquele terreno albergava mais de cinco mil variedades de frutos e bagas, muitos deles cultivados a partir de sementes recolhidas por Nikolai Vavilov e pela sua equipa em expedições por todo o mundo. A comunidade internacional de botânicos ficou em choque com a perspetiva de aquela coleção viva ser destruída por escavadoras.
Perdido no meio do artigo, havia um pequeno parágrafo que descrevia o que acontecera no instituto durante o Cerco de Leninegrado. Os cientistas viram-se cercados por uma quantidade colossal de sementes e culturas comestíveis numa altura em que a cidade morria de fome e, ainda assim, alguns preferiram morrer de inanição a consumir os espécimes cuja proteção lhes fora confiada. Lembro-me de ficar absolutamente estarrecido com essa ideia. Parecia encerrar um dilema moral quase impossível: o que leva alguém a optar por preservar alimento para um futuro incerto em vez de o comer para sobreviver no presente?
Comecei a tentar descobrir tudo o que podia. No início, não tinha a certeza se seria apenas uma anedota histórica extraordinária ou se teria sobrevivido material suficiente para sustentar um livro inteiro. Contudo, quanto mais investigava, mais a história crescia. Havia a figura do próprio Vavilov, aquele carismático cientista e explorador que viajara pelo mundo a reunir a coleção, apenas para ser destruído pelo regime estalinista; havia o cerco e o grupo de botânicos que ficaram para trás para proteger o seu trabalho; e existia até um plano paralelo dos nazis para localizar e pilhar partes da coleção. O elemento decisivo foi ter encontrado testemunhos suficientes para reconstruir aquelas vidas com bastante detalhe.
Que fontes primárias, diários ou arquivos foram essenciais para reconstituir o quotidiano e o estado psicológico desses cientistas?
Reconstituir a rotina diária e, em particular, o estado psicológico dos botânicos que trabalhavam no banco de sementes durante o cerco foi um enorme desafio. Tanto quanto consegui apurar, nenhum dos botânicos manteve um diário da época que tenha sobrevivido. A maior parte dos testemunhos na primeira pessoa proveio de relatos escritos ou de entrevistas concedidas muitos anos depois, já após a morte de Estaline, quando se tornou um pouco mais fácil falar abertamente tanto sobre Vavilov como sobre a experiência do cerco. Isto levanta uma dificuldade evidente: as pessoas lembram-se do que viveram, mas reconstituir com rigor o que pensavam ou sentiam naquele preciso instante é muito mais difícil.
Houve vários relatos posteriores de grande utilidade. Em 1973, Nikolai Ivanov, um dos cientistas seniores que permaneceram no Instituto, concedeu uma longa entrevista à jornalista norte-americana Georgie Anne Geyer para a revista International Wildlife, publicada com o título Novecentos Dias de Sacrifício. Ivanov, Abram Kameraz e Vadim Lekhnovich também escreveram breves relatos das suas vivências para a coletânea soviética V Osazhdennom Leningrad – Na Leninegrado Sitiada. E, nos anos 70, o jornalista Viktor Senin entrevistou Ivanov e outros sobreviventes para List’ya vyrastut vnov’, uma narrativa breve sobre a vida dentro do instituto durante o cerco. Alexander Borin realizou igualmente uma entrevista importante em 1976. Estas fontes contêm detalhes admiráveis e minuciosos, embora tenham de ser lidas com cautela, pois algumas foram concebidas sob as limitações editoriais soviéticas e outras registadas três décadas após os acontecimentos.
Pude depois cruzar essas recordações com os próprios registos sobreviventes do instituto. Uma arquivista do Instituto Vavilov partilhou comigo processos de funcionários em russo, relatórios, despachos e outros documentos. Particularmente valioso foi o livro de ocorrências do tempo de guerra, onde o pessoal registava os alarmes de ataques aéreos e os sinais de fim de perigo, as explosões nas imediações e as bombas incendiárias que caíam no telhado. Esses registos forneceram uma sólida espinha dorsal cronológica na qual foi possível encaixar as memórias posteriores.
Para captar a atmosfera emocional do cerco, recorri também fortemente a diários escritos noutros pontos da cidade na mesma época – de personalidades como Georgi Kniazev, diretor dos arquivos da Academia das Ciências, Vera Inber e Elena Skrjabina. Os seus diários registam, em tempo real, os efeitos psicológicos dos bombardeamentos, do frio e da inanição. Ao cruzar esses relatos contemporâneos com as recordações posteriores dos botânicos, comecei a reconstituir não apenas o que aconteceu no interior do Instituto, mas também como terá sido viver aquela experiência na pele.
O acesso aos arquivos russos levantou entraves específicos durante a sua investigação, sobretudo atendendo ao atual panorama geopolítico?
Sem dúvida. Tinha planeado viajar para São Petersburgo no verão de 2022 para trabalhar nos arquivos do Instituto e contratara uma genealogista russa para ajudar a localizar os descendentes de 25 botânicos que viveram o cerco. Entretanto, a Rússia invadiu a Ucrânia. O Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico desaconselhou qualquer viagem à Rússia, e deixou de fazer sentido, para mim, enquanto escritor e jornalista britânico, avançar com a viagem.
Isso obrigou a repensar a metodologia da investigação. Grande parte do trabalho teve de ser conduzida à distância, através de correio eletrónico, videochamadas e, por fim, aplicações de mensagens encriptadas. Tive a enorme sorte de uma arquivista do Instituto Vavilov ter continuado a ajudar-me. Fotografou e digitalizou dezenas de livros, processos de pessoal e documentos inéditos do arquivo do Instituto, enviando-mos por via eletrónica. Graças a isso, consegui trabalhar com um volume surpreendente de material que, de outro modo, teria ficado inacessível.
Ao cruzar os registos oficiais soviéticos com os relatos pessoais, quais foram as discrepâncias mais significativas entre a narrativa do regime e a realidade vivida no Instituto?
A maior discrepância esteve naquilo que a narrativa oficial escolheu omitir. Os relatos soviéticos foram progressivamente integrando os botânicos na mitologia mais ampla de Leninegrado, numa saga de heroísmo coletivo e de sacrifício imaculado. A realidade que encontrei nos registos era muito mais complexa e caótica. A retirada da coleção falhou em parte; a equipa debatia-se com uma escassez dramática de comida, combustível e braços; e houve momentos de medo e de discórdia sobre se a preservação das sementes era ainda eticamente defensável. Relatos soviéticos posteriores chegaram a reconhecer parte disto, mas tendiam a esbater qualquer ambiguidade numa narrativa reconfortante de resistência heroica.
Uma descoberta particularmente marcante foi o facto de os botânicos terem recebido autorização explícita do diretor do Instituto (que fora retirado) para se alimentarem da coleção, se necessário. O seu telegrama ordenava taxativamente: “Não poupar nada para sustentar as pessoas.” Ivanov e a equipa que permaneceu recusaram. O seu sacrifício não foi mera obediência ao Estado soviético; neste caso, constituiu um ato de desobediência direta às instruções do seu superior hierárquico. Num plano mais alargado, o regime passou também décadas a escamotear o facto embaraçoso de que a coleção que mais tarde cobria de louros fora criada por Nikolai Vavilov – um cientista que o próprio Estado soviético perseguira e encarcerara.
Qual foi a história individual que mais o tocou e quem melhor personifica, a seu ver, o espírito daquela equipa?
A figura a quem dei por mim a regressar com maior frequência foi Vadim Lekhnovich, o especialista em batatas do Instituto. Anos após o cerco, o jornalista Alexander Borin confrontou-o com a pergunta óbvia: como puderam ele e os colegas passar fome rodeados de comida? Lekhnovich respondeu devolvendo a pergunta a Borin: imagine que é um escritor que dedicou toda a sua vida a um livro e agora está a gelar num quarto sem lenha para queimar; o único combustível disponível é o exemplar único do seu manuscrito; destruí-lo-ia para se salvar?
Para mim, essa analogia tornou o sacrifício compreensível de um momento para o outro. Lekhnovich afirmou que, por muito difícil que fosse caminhar ou até sair da cama, não comer a coleção não custou absolutamente nada, porque ela representava o trabalho de uma vida inteira – a sua e a dos seus amigos e colegas. Creio que isto capta o espírito da equipa melhor do que qualquer outra coisa: a coleção não era apenas comida pousada em prateleiras. Encarnava décadas de investigação, a memória de Vavilov e a crença num futuro para lá do cerco.
De que modo a sua formação em Jornalismo Narrativo moldou o ritmo e a estrutura desta obra histórica?
A minha formação é em Jornalismo Narrativo, pelo que tendo a abordar a história através de cenas, personagens e perspetivas, em vez de uma sequência meramente cronológica. Na medida do possível, quis colocar o leitor no interior do Instituto, ao lado dos botânicos enquanto o cerco se apertava à sua volta, sem deixar de reservar o espaço necessário para explicar a ciência e a política que davam sentido às suas escolhas.
Em termos de estrutura, isso implicou alternar entre várias linhas narrativas: a ascensão e a perseguição de Vavilov, a vivência quotidiana do cerco e, mais tarde, a tentativa nazi de se apoderar de partes da coleção. Procurei que cada linha iluminasse as restantes, em vez de parecerem episódios históricos desconexos. Tentei também fechar os capítulos em momentos de viragem, perigo ou revelação, à semelhança do que se faz numa grande reportagem de imprensa. O desafio residiu em criar tensão narrativa sem forjar suspense fictício: tudo no livro tinha de permanecer firmemente ancorado no que a documentação sobrevivente comprovava.
O empenho dos botânicos era movido pela ciência abstrata, pelo legado de Nikolai Vavilov ou por uma fé patriótica no futuro do povo soviético?
Um pouco dos três, embora creia que a proporção variava de pessoa para pessoa. Nem todos no Instituto nutriam uma lealdade pessoal por Vavilov, mas muitos dos que ficaram para proteger a coleção tinham trabalhado em estreita colaboração com ele durante anos. Vavilov rodeara-se de figuras que considerava os “reis e rainhas” das suas respetivas especialidades e, para muitos deles, o Instituto materializava décadas da sua própria investigação e do trabalho de amigos e camaradas.
Compreendiam também o valor científico prático da coleção. A Rússia enfrentara fomes sucessivas e todo o projeto de Vavilov assentava no princípio de que a diversidade genética podia ajudar a obter variedades agrícolas resistentes a pragas e a alterações climáticas. Contudo, não creio que a motivação fosse estritamente soviética ou ideológica. Encaravam aquelas plantas como um património da Humanidade, algo recolhido em todo o mundo que um dia poderia alimentar populações muito além das fronteiras russas. Nesse sentido, preservá-la era simultaneamente um ato de lealdade a Vavilov, ao trabalho de uma vida inteira e a um futuro para lá da guerra.
Além da inanição, a equipa enfrentou temperaturas negativas, bombardeamentos de artilharia e infestações de ratos nos armazéns. Como organizavam a defesa diária da coleção perante tantas ameaças?
Desenvolveram uma rotina de cariz quase militar. O pessoal que permaneceu organizou-se num grupo de autodefesa, com equipas distintas para vigia, transmissões, cuidados médicos, saneamento, combate a incêndios e reparações. As salas onde a coleção estava guardada mantinham-se trancadas à chave, sob a custódia de Klavdiya Panteleyeva, e cada ronda de inspeção terminava invariavelmente com a mesma anotação no livro de registo: “Selos e fechaduras intactos.”
Cada perigo exigia uma resposta específica. Durante os ataques aéreos, os funcionários subiam ao telhado para apagar bombas incendiárias – mais de uma centena atingiu as instalações do Instituto durante o cerco. As sementes suportavam razoavelmente o frio, mas as batatas não; por isso, Vadim Lekhnovich vedava as correntes de ar na cave e recolhia restos de madeira para alimentar um pequeno fogão. Quando os ratos começaram a atacar a coleção, os cientistas improvisaram armadilhas, taparam buracos com cacos de vidro e espalharam arsénico. Tornou-se uma rotina implacável de vigilância e improvisação: defender a coleção das bombas, do gelo, dos roedores e, a cada dia que passava, do seu próprio esgotamento físico.
A coragem demonstrada por estes homens e mulheres foi um ato de bravura premeditado ou, antes, uma sucessão diária de pequenas recusas em ceder ao desespero?
Acredito que tenha sido mais a segunda hipótese, embora houvesse já um forte sentido de dever prévio. Vavilov incutira na sua equipa a convicção de que a coleção era insubstituível e de que a sua salvaguarda era da responsabilidade deles. Não creio, contudo, que se tenham reunido no início do cerco com a decisão consciente de se tornarem mártires.
Há algum registo de como a população esfomeada de Leninegrado olhava para aquele edifício guardado e para o tesouro que guardava no seu interior?
Surpreendentemente, pouco. Não encontrei indícios de que o cidadão comum de Leninegrado compreendesse o que estava armazenado dentro do Instituto ou de que o encarasse como um edifício repleto de provisões comestíveis. Tratava-se de material científico especializado, fechado a sete chaves, e suspeito de que a sua dimensão e o seu potencial valor nutritivo fossem largamente desconhecidos fora dos círculos científicos.
Ainda assim, com o agravar da fome, o receio de pilhagens era real. Os botânicos montaram guarda durante a noite a uma carruagem de comboio com sementes retiradas para evitar saques; mais tarde, removeram partes da coleção do rés do chão por receio de assaltos; e Maria Belyaeva permaneceu de vigia no átrio gelado do Instituto para dissuadir intrusos. Havia, portanto, quem estivesse suficientemente desesperado para tentar roubar comida, mas não restam testemunhos de um debate público alargado sobre a moralidade de manter sob guarda aquela gigantesca reserva enquanto a cidade morria de fome.
O que tornava o banco de sementes reunido por Nikolai Vavilov único no mundo durante as décadas de 1930 e 1940?
O que o tornava único era a sua amplitude e a conceção teórica em que se apoiava. Vavilov e as suas equipas percorreram o planeta à procura, deliberadamente, não apenas de espécies agrícolas correntes, mas de variedades raras, locais e selvagens, suscetíveis de conter traços genéticos vantajosos, tais como resistência ao frio, à seca, a pragas ou a solos pobres. Até 1940, Vavilov liderara 115 expedições de recolha em 64 países.
O resultado constituiu, na prática, uma biblioteca genética da agricultura mundial. Cientistas da época chamavam-lhe simplesmente a “coleção mundial de plantas”, e o The Times descreveu-a como um “museu vivo” de uma integridade ímpar a nível global. A sua importância não residia apenas no número estratosférico de espécimes, mas no facto de alguns serem já à data insubstituíveis: os habitats originais tinham desaparecido, o que significava que a perda daquelas sementes implicaria o desaparecimento irreversível das suas características genéticas.
Vavilov concebeu o banco de sementes para erradicar a fome, tanto na União Soviética como no resto do mundo. Não é uma das ironias mais amargas da História que ele próprio tenha morrido de inanição numa prisão estalinista?
Sim, é sem dúvida uma das ironias mais cruéis de todo este episódio. Vavilov dedicou a sua carreira a combater a fome, viajando pelo mundo para coligir a diversidade genética que acreditava poder servir para criar culturas mais resistentes e produtivas, salvaguardando as gerações futuras da escassez alimentar. No entanto, quando o regime soviético se virou contra ele, foi detido, sujeito a centenas de horas de interrogatório e acabou encarcerado em Saratov em condições desumanas. Por essa altura, já sofria de escorbuto e disenteria; o registo prisional acabou por classificar a causa de morte como “distrofia”, o mesmo eufemismo usado para mascarar a morte por fome entre as vítimas da Leninegrado sitiada.
Até que ponto os cientistas sitiados em Leninegrado tinham conhecimento do verdadeiro destino de Vavilov enquanto defendiam a obra da sua vida?
Não sabiam praticamente nada. Vavilov desaparecera após a sua detenção em 1940. Os colegas suspeitavam fortemente do envolvimento dos seus rivais científicos e políticos (sobretudo de Isaak Prezent, aliado de Lysenko), mas durante o cerco ignoravam onde Vavilov se encontrava preso ou sequer se continuava vivo.
Vavilov morreu na prisão de Saratov em janeiro de 1943, enquanto os colegas continuavam a defender e a renovar a sua coleção em Leninegrado, mas a verdade sobre o seu fim nunca lhes chegou na altura. Mesmo finda a guerra, o seu paradeiro permaneceu oficialmente envolto em segredo; os cientistas que sobreviveram saíram do cerco com Vavilov ainda formalmente dado como desaparecido.
Grande parte do que hoje se sabe só veio a público décadas mais tarde, graças ao trabalho do escritor e académico Mark Popovsky. Em 1965, Popovsky conseguiu aceder aos autos do processo de Vavilov e reconstituiu a história da sua detenção e dos seus interrogatórios; dois anos depois, rumou a Saratov, onde os registos prisionais sobreviventes confirmaram, finalmente, que Vavilov falecera de “distrofia”.
As variedades ancestrais preservadas em Leninegrado foram mais tarde usadas para restaurar as colheitas destruídas pela guerra. Qual é o valor real das variedades selvagens face às monoculturas agrícolas atuais?
O valor reside na diversidade genética. A agricultura moderna privilegia um leque relativamente restrito de variedades altamente produtivas, mas essa eficiência gera vulnerabilidade: se uma doença ou praga atingir uma cultura amplamente disseminada, áreas territoriais imensas ficam expostas em simultâneo. As variedades selvagens e ancestrais guardam características que podem ter escasso valor comercial aparente até ao momento em que se tornam subitamente indispensáveis.
Essa foi a grande intuição de Vavilov. A coleção funcionava como uma caixa de ferramentas genética para o futuro. No pós-guerra, variedades salvas em Leninegrado foram utilizadas no cruzamento de culturas de alto rendimento e resistentes a doenças, incluindo o trigo Bezostaya-1 e novos híbridos de batata. Em 1979, sementes com origem na coleção do Instituto eram cultivadas em cerca de um terço de toda a terra arável da Rússia.
A perda silenciosa de biodiversidade agrícola é mais perigosa hoje do que era há um século?
Penso que sim, em certos aspetos. Vavilov já compreendia o perigo da erosão genética há um século, mas hoje os habitats naturais desaparecem a um ritmo mais acelerado, por vezes antes mesmo de os cientistas conseguirem recolher o que neles germina. No Millennium Seed Bank, um investigador descreveu-me a situação como uma “corrida contra a perda de habitats”: uma equipa que pretendia recolher sementes de banana selvagem na Malásia, por exemplo, deparou-se à chegada com uma área que fora inteiramente desbravada para dar lugar a plantações de palma para produção de óleo.
Essa perda é muitas vezes invisível. Uma planta selvagem pode parecer inútil até a ciência descobrir que encerra resistência a uma doença, à seca ou a uma pressão ambiental futura. Contudo, uma vez extinta essa variação genética, recuperá-la torna-se impossível. A biodiversidade agrícola é, na verdade, uma reserva de respostas possíveis para problemas que ainda nem sequer enfrentámos. É frequente só compreendermos o valor daquilo que se perdeu quando precisamos dele desesperadamente.
Como compararia o papel do Instituto Vavilov com instalações contemporâneas como o Banco Global de Sementes de Svalbard, na Noruega?
Svalbard é claramente um prolongamento moderno do princípio pioneiro de Vavilov: a ideia de que a diversidade agrícola é uma espécie de apólice de seguro da Humanidade e tem de ser protegida contra catástrofes. Svalbard alberga inclusivamente sementes originárias da coleção de Vavilov, e o percurso dos botânicos de Leninegrado possui aquilo a que o jornalista da New Yorker John Seabrook chamou uma “ressonância mítica” para os profissionais dos bancos de sementes contemporâneos.
A diferença é que o Instituto Vavilov não era um mero cofre. Era uma instituição científica viva, onde a equipa cultivava os espécimes recolhidos, os investigava e os usava no melhoramento genético de novas espécies. Svalbard foi concebido essencialmente como um depósito de salvaguarda de alta segurança para coleções custodiadas noutros pontos do globo.
O heroísmo destes cientistas foi devidamente reconhecido na União Soviética do pós-guerra ou o regime tentou apagar a sua ligação a Vavilov?
Não foi devidamente reconhecido, pelo menos, durante largos anos. Sob o jugo de Estaline, tanto o cerco em si como a sorte de Vavilov eram assuntos que o poder preferia abafar. Os colegas que sobreviveram sabiam que falar de forma demasiado explícita era perigoso; quando Ivanov, Kameraz e Lekhnovich colaboraram numa obra histórica estatal em 1969, os seus textos ficaram marcados por omissões evidentes.
Após a morte de Estaline, o cenário começou a mudar. Vavilov foi reabilitado postumamente como académico em 1956 e as publicações posteriores passaram a exaltar cada vez mais o sacrifício dos botânicos. Contudo, a versão oficial tendia a integrá-los na narrativa épica mais ampla da estoica resistência de Leninegrado, ocultando a verdade desconfortável de que tinham salvado o trabalho de uma vida de um cientista que o próprio Estado perseguira e levara à morte. Só por ocasião do centenário do nascimento de Vavilov, em 1987, é que essa ligação – e a verdade sobre o seu fim – pôde começar a ser abordada com muito maior franqueza.
Que paralelos traça entre o negacionismo científico da era Lysenko e as campanhas modernas de desinformação em torno da biologia ou da ciência climática?
O paralelo mais evidente reside na forma como a ideologia consegue corromper o processo pelo qual as sociedades definem o que é a verdade. Lysenko vingou não porque as provas a favor das suas teorias fossem mais sólidas, mas porque ofereceu a Estaline uma narrativa atraente – resultados rápidos e uma visão da biologia ajustada à matriz ideológica do regime. Os seus acólitos passaram então a atacar a genética enquanto “pseudociência” e a rotular os cientistas consagrados de elitistas ou politicamente suspeitos.
Esse padrão soa bastante atual. Rejeitam-se provas inconvenientes, os especialistas são catalogados como agentes de um sistema com interesses instalados e alegações politicamente ou emocionalmente sedutoras propagam-se com mais facilidade do que verdades científicas complexas.
Que reflexões nos deixa este livro sobre a nossa relação com a terra, a agricultura e os recursos mais elementares do planeta?
Creio que nos alerta para a facilidade com que confundimos abundância com permanência. A agricultura moderna pode dar a ilusão de que o alimento é um recurso infinitamente reprodutível, quando, na verdade, cada cultura assenta numa herança de diversidade genética acumulada ao longo de milhares de anos. Vavilov percebeu que muitas variedades selvagens e ancestrais podiam parecer inúteis até que uma nova praga, uma seca ou outra crise revelasse o valor inestimável de uma característica particular. Algumas das paisagens onde as suas equipas recolheram sementes tinham desaparecido ainda durante o seu tempo de vida.
Se tivesse de destacar uma mensagem central para quem termina a leitura de O Jardim Proibido de Leninegrado, qual seria?
Para mim, a questão central do livro prende-se com a responsabilidade que temos para com o futuro. Os botânicos foram confrontados com essa interrogação na sua expressão mais extrema: deviam consumir uma coleção insubstituível para prolongar a sua própria vida ou preservar algo que poderia vir a alimentar pessoas que nunca chegariam a conhecer?
Eles compreenderam que há coisas que não nos pertencem por inteiro, nem pertencem exclusivamente ao presente. O conhecimento, a biodiversidade e as coleções científicas são legados que passam pelas nossas mãos. Podemos nunca vir a saber que partes se revelarão essenciais. O mínimo que nos cabe fazer é tentar não ser a geração que permite o seu desaparecimento.
A coleção funcionava como uma caixa de ferramentas genética para o futuro. No pós-guerra, variedades salvas em Leninegrado foram utilizadas no cruzamento de culturas de alto rendimento e resistentes a doenças
Sob o jugo de Estaline, tanto o cerco em si como a sorte de Vavilov eram assuntos que o poder preferia abafar. Os colegas que sobreviveram sabiam que falar de forma demasiado explícita era perigoso
A Rússia enfrentara fomes sucessivas e todo o projeto de Vavilov assentava no princípio de que a diversidade genética podia ajudar a obter variedades agrícolas resistentes a pragas e a alterações climáticas