“Doutor, dói-me um dente. Não me passa um antibiótico?” É das perguntas que mais ouço. E chega quase sempre antes do diagnóstico — antes de eu ter visto o dente, antes de qualquer radiografia. Quem a faz está com dor há dias, dormiu mal, já tentou os analgésicos que tinha em casa. E parte do princípio de que, havendo infeção, o passo seguinte é inevitavelmente um antibiótico.
Não é. E este é um dos equívocos mais difíceis de desfazer quando falamos de saúde oral. Uma dor de dentes não é uma indicação para antibiótico. O antibiótico não é um analgésico, e não resolve a maior parte das causas de dor dentária.
Uma cárie que chegou à polpa, uma inflamação pulpar, uma infeção localizada – o que estas situações precisam é de tratamento dentário. Conforme o diagnóstico, isso pode significar tratar o interior do dente, drenar uma infeção ou remover o foco que a está a provocar. A norma da American Dental Association sobre dor pulpar e periapical diz exatamente isto: em adultos imunocompetentes, o tratamento definitivo vem primeiro, não a receita.
Sei que soa contraintuitivo a quem chega com dor. Se há dor, há infeção; se há infeção, precisa-se de antibiótico. A sequência é intuitiva, mas a clínica não funciona assim.
Tratar a causa, não adiar o problema
Uma infeção confinada ao interior de um dente pode até melhorar temporariamente com antibiótico. Os sintomas cedem, o doente sente-se melhor, dá-se o problema por resolvido. Mas o foco continua lá. E volta.
Perante uma urgência dentária, a primeira pergunta não é “qual é o antibiótico?”. É “de onde vem esta dor?”.
Isto não significa que os antibióticos não tenham lugar. Quando a infeção dá sinais de se estar a disseminar, quando aparece febre ou mal-estar, quando o doente tem condições clínicas ou fatores de risco que o justifiquem, a antibioterapia é essencial. A questão não é se os usamos, mas em que circunstâncias.
“Mas é só por precaução”
Esta é a parte mais difícil da conversa. Durante décadas instalou-se a ideia de que um antibiótico tomado “por precaução” era uma escolha inofensiva. Se pode ajudar e aparentemente não faz mal, porque não tomá-lo? Hoje sabemos que não é assim. Cada utilização desnecessária alimenta a pressão que seleciona bactérias resistentes, e a resistência antimicrobiana não é um problema confinado a hospitais ou a doenças exóticas: é o que pode tornar difícil de tratar uma infeção banal.
Daí o conceito de uso responsável de antibióticos, o antibiotic stewardship da literatura — o fármaco certo, apenas quando há indicação, na dose e na duração adequadas.
E aqui a medicina dentária não tem como se demitir. Cerca de 10% de todos os antibióticos de uso comum são prescritos por médicos dentistas. Portugal está entre os países europeus de maior consumo e, previsivelmente, entre os de maiores taxas de resistência bacteriana.
Quando se foram estudar os hábitos de prescrição dos médicos dentistas portugueses, encontraram-se percentagens consideráveis de prescrição desnecessária precisamente nos quadros que descrevi acima: pulpite irreversível, necrose pulpar sem envolvimento sistémico. Ou seja, nos casos em que o tratamento resolve e a receita não. Não é um problema de outros países.
Sair sem receita pode ser o melhor tratamento
Compreendo a expectativa de quem chega a uma consulta de urgência. Está com dor, quer uma solução, e uma receita é algo concreto: leva-a consigo, vai à farmácia, sente que começou imediatamente a tratar-se. Ouvir que o antibiótico não está indicado é facilmente interpretado como ter recebido menos.
A verdade é que prescrever um medicamento desnecessário dá muito menos trabalho do que explicar porque é desnecessário. E essa explicação leva tempo — tempo que uma consulta de urgência raramente tem. É por aí que se perdem muitas das decisões certas.
Os antibióticos são das ferramentas mais importantes que a medicina tem ao seu dispor. É precisamente por isso que não devem ser gastos à toa.
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