Precisamos da química para desenvolver medicamentos e materiais, produzir energia, garantir água potável e recuperar recursos. A química ajudou a transformar profundamente a nossa qualidade de vida. Mas também contribuiu, em muitos casos, para problemas que hoje procuramos resolver: poluição, resíduos persistentes, uso intensivo de recursos e elevado consumo de energia. A questão decisiva deixou, por isso, de ser apenas o que a química consegue fazer. Passou a ser também como o faz, com que critérios e com que consequências.
Foi essa mudança de perspetiva que Paul Anastas ajudou a colocar no centro do debate científico ao sistematizar, com John Warner, os 12 Princípios da Química Verde. A ideia continua a ser radical na sua simplicidade: em vez de corrigir danos no fim, importa evitar que eles sejam criados logo no início. Segurança, eficiência e sustentabilidade não devem ser acrescentadas no fim de um processo; devem entrar no momento em que se desenha uma molécula, um material ou uma reação.
Isso significa fazer perguntas diferentes. Podemos usar recursos renováveis? Evitar substâncias perigosas? Produzir menos resíduos? Consumir menos energia? Pensar no destino de um produto quando deixar de ser útil? A sustentabilidade deixa, assim, de ser uma correção tardia para passar a ser um critério de conceção.
Mas hoje sabemos também que isso, por si só, não chega. Uma reação pode ser mais eficiente e, ainda assim, estar longe de ser sustentável. É preciso olhar para o sistema no seu conjunto: de onde vêm as matérias-primas, quanta energia se consome, que resíduos se produzem, se o processo pode ser escalado, se é economicamente viável e o que acontece ao produto no fim de vida. Sustentabilidade não é apenas melhorar uma etapa; é repensar o conjunto.
Carbono e resíduos
Vejamos o dióxido de carbono. Estamos habituados a vê-lo apenas como um problema, porque a sua acumulação na atmosfera contribui para as alterações climáticas. Mas o CO2 é também uma fonte de carbono, o elemento que está na base de grande parte dos produtos químicos que utilizamos. A própria natureza mostra que esse caminho não é absurdo: na fotossíntese, as plantas captam CO2 da atmosfera e, com energia solar, transformam-no em matéria orgânica. A química procura, por outras vias, usar esse mesmo carbono como matéria-prima para moléculas úteis. Isto não significa que possamos continuar a emitir como até aqui, à espera de uma solução tecnológica salvadora. A melhor emissão continua a ser a que evitamos. Mas significa que podemos começar a imaginar uma indústria menos dependente de carbono fóssil e mais capaz de trabalhar com fontes alternativas.
O mesmo raciocínio aplica-se aos resíduos. Durante demasiado tempo, aceitámos uma lógica linear: extrair, transformar, usar e deitar fora. No entanto, aquilo a que chamamos “lixo” contém muitas vezes carbono, metais e polímeros que exigiram recursos e energia para serem produzidos. Olhar para esses materiais como matérias-primas, e não apenas como resíduos, é uma das mudanças mais importantes de que hoje dispomos.

Também a inovação precisa de ser pensada de outra forma. Inovar não significa necessariamente inventar um produto inteiramente novo. Muitas vezes, significa encontrar uma maneira melhor de produzir aquilo de que já precisamos: com menos solventes, menos energia, separações mais eficientes e processos mais circulares. A química sustentável joga-se tanto nas grandes ruturas como nestas melhorias menos visíveis, mas decisivas.
Ao mesmo tempo, a química está a entrar numa era de possibilidades inéditas. E foi precisamente essa ideia que Omar M. Yaghi trouxe à Green IUPAC 2026. O seu trabalho em química reticular mostrou como é possível conceber famílias vastíssimas de materiais porosos, com estruturas e funções ajustáveis. Em articulação com Inteligência Artificial, automação e robótica, abre-se um espaço quase sem precedentes para imaginar e explorar novos materiais.
Escolhas inteligentes
É fascinante – mas também exigente. Quando passamos de um mundo de escassez para um mundo de abundância de possibilidades, deixa de bastar perguntar se algo pode ser feito ou se apresenta um desempenho excecional. A pergunta torna-se mais difícil: que materiais vale a pena desenvolver, para resolver que problemas, com que custos energéticos e materiais, e com que impacto social e ambiental?
É aqui que a Inteligência Artificial pode desempenhar um papel decisivo. Pode acelerar a descoberta, prever propriedades e otimizar processos a uma velocidade inédita. Mas seguirá os objetivos que lhe dermos. Se lhe pedirmos apenas melhor desempenho ou menor custo, será isso que procurará. Se lhe pedirmos também menor toxicidade, menor consumo de energia, maior circularidade e melhor desempenho ao longo do ciclo de vida, então poderá ajudar-nos a orientar a inovação em direção a soluções mais sustentáveis.
Foi precisamente este tipo de reflexão que marcou a Green IUPAC 2026, realizada em Lisboa. Uma conferência desta natureza não serve apenas para apresentar resultados científicos. Serve também para discutir que química queremos desenvolver, com que prioridades e com que responsabilidade. Num momento em que a capacidade de descobrir e transformar é cada vez maior, torna-se essencial criar espaços onde se pensa não apenas no que é possível fazer, mas no que faz sentido fazer.
Esse debate torna-se ainda mais importante quando inclui estudantes e jovens investigadores. Não apenas como ouvintes, mas como participantes numa conversa sobre o tipo de ciência, de inovação e de futuro que queremos construir. Envolver as gerações mais novas nestes temas é essencial, porque serão elas a continuar – e a reformular – muitas das escolhas que hoje começamos a fazer.
Há, além disso, um valor que não cabe facilmente em métricas: o de aproximar os mais jovens de cientistas que ajudaram a moldar a química contemporânea. Paul Anastas ajudou a dar linguagem e princípios a uma nova forma de pensar a inovação química. Omar M. Yaghi mostrou até onde pode ir a imaginação científica quando se abre um novo universo de materiais e possibilidades. E Martyn Poliakoff tem mostrado, ao longo de décadas, como a química pode ser simultaneamente exigente, criativa, comunicável e próxima da sociedade. O contacto com figuras deste nível não vale apenas pelo simbolismo de um nome conhecido. Mostra que a ciência é uma construção viva, feita de ideias, discussão, exigência e responsabilidade. E pode ser decisivo para formar ambição científica, sentido crítico e consciência do impacto social do conhecimento.
Ciência que funcione
Também por isso faz sentido lembrar exemplos concretos de ciência que chega às pessoas. Thalappil Pradeep apresentou em Lisboa uma tecnologia baseada em nanomateriais para remover contaminantes tóxicos da água que, segundo os dados apresentados, fornece atualmente água descontaminada a mais de 1,3 milhão de pessoas. O ponto não é apenas o alcance do número. É a demonstração de que uma solução científica só transforma verdadeiramente a sociedade quando sai do laboratório e responde, de forma robusta e acessível, a necessidades reais.
Sustentabilidade também é isto: fazer ciência que funcione no mundo real. Uma tecnologia promissora no laboratório não basta. É preciso que seja implementável, economicamente viável e capaz de chegar aonde faz falta.
No fim, talvez a pergunta mais importante já não seja “podemos fazer isto?”, mas “devemos fazê-lo?”, “como devemos fazê-lo?” e “para quê?”. O futuro continuará a precisar de química – provavelmente mais do que nunca. A nossa responsabilidade é garantir que a química que desenvolvemos hoje aumenta, em vez de reduzir, as possibilidades do mundo de amanhã.
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