Quando falamos de consolidação de créditos, é frequente associarmos imediatamente o conceito a uma família que já está com dificuldades em pagar as suas prestações. E é verdade que, quando os créditos se acumulam e o peso das prestações começa a tornar-se demasiado elevado para o orçamento familiar, a consolidação pode ser uma solução a considerar.
Mas talvez seja redutor olhar para a consolidação apenas dessa forma.
Consolidar créditos pode ser também uma decisão de reorganização e de planeamento financeiro.
Tal como revemos o seguro da casa, renegociamos o crédito à habitação ou procuramos melhores condições para um contrato de telecomunicações, também devemos, de vez em quando, olhar para as nossas prestações e perguntar: será que continuo a ter as melhores condições possíveis para aquilo que devo?
Não precisamos de esperar pelo incumprimento para fazer esta pergunta.
Quantas prestações estamos a pagar?
É relativamente fácil perder a noção do conjunto quando temos vários créditos.
A prestação da casa. O crédito automóvel. Um crédito pessoal. O cartão de crédito. Talvez mais um financiamento que foi contratado para fazer face a uma despesa inesperada.
Cada prestação, individualmente, pode parecer suportável. Mas quando somamos tudo, descobrimos que uma parte significativa do rendimento mensal está comprometida antes mesmo de começarmos a pagar as despesas do dia a dia.
Imagine uma família com 3.500 euros líquidos mensais que suporta 1.500 euros em prestações de diferentes créditos.
A questão não é apenas saber se consegue pagar os 1.500 euros.
É perceber quanto dessa prestação resulta de créditos com taxas mais elevadas, quanto tempo falta para terminar cada um e se existe uma forma mais eficiente de organizar essa dívida.
É aqui que a consolidação pode entrar.
Consolidar não é simplesmente juntar créditos
Consolidar créditos significa, de forma simplificada, substituir várias responsabilidades por um novo financiamento que permita liquidar os créditos existentes.
Em vez de termos quatro ou cinco prestações, passamos a ter uma.
Isso pode trazer uma vantagem imediata: simplificar a gestão financeira e, em determinadas situações, reduzir o encargo mensal.
Mas a consolidação não deve ser analisada apenas pela prestação.
Se conseguirmos baixar a prestação de 1.500 para 1.000 euros, teremos mais 500 euros disponíveis todos os meses. Parece uma excelente notícia.
E pode ser.
Mas temos de saber porquê.
Se a prestação baixa porque conseguimos uma taxa mais favorável, estamos a melhorar uma componente importante da dívida. Se baixa porque aumentámos significativamente o prazo, estamos também a comprar mais tempo para pagar.
E tempo também tem um preço.
Uma prestação mais baixa não significa necessariamente um crédito mais barato.
É por isso que devemos comparar o custo total, o prazo e as condições do novo financiamento, e não apenas o valor que aparece todos os meses na conta bancária.
Quando existe um imóvel, as possibilidades podem ser diferentes
Como vimos na semana passada, quem é proprietário de um imóvel pode ter acesso a uma solução particularmente interessante: um financiamento hipotecário, utilizando o imóvel como garantia.
A existência de uma garantia real pode permitir, por norma, melhores condições de financiamento do que aquelas que encontramos num crédito sem garantia.
Isto acontece porque o risco assumido pela instituição financeira é diferente quando existe um imóvel associado ao financiamento.
Imagine alguém que tem 40.000 euros distribuídos por vários créditos pessoais, automóvel e cartões e é proprietário de um imóvel. Dependendo das suas condições financeiras, do valor do imóvel e da análise efetuada pela instituição, poderá existir a possibilidade de reorganizar essas responsabilidades através de um financiamento hipotecário.
Mas é importante não esquecer aquilo que já referimos no artigo anterior: a casa passa a estar associada à garantia do novo financiamento.
Por isso, uma solução que pode melhorar significativamente o orçamento mensal deve ser acompanhada por uma utilização responsável da margem financeira criada.
E se o imóvel não for nosso?
Aqui existe uma possibilidade que muitas pessoas desconhecem.
Não ser proprietário de um imóvel não significa necessariamente que esteja excluída a possibilidade de contratar um financiamento hipotecário.
Existem instituições que, em determinadas condições, aceitam que seja constituída uma hipoteca sobre um imóvel pertencente a uma pessoa que não é o mutuário, ou seja, que não é quem está a contratar o crédito.
Imagine um filho que pretende reorganizar os seus créditos e não possui um imóvel, mas os seus pais são proprietários de uma casa e aceitam disponibilizá-la como garantia.
Neste caso, o imóvel pode ser hipotecado para garantir o financiamento, mas os proprietários têm de dar o seu consentimento e assumir as responsabilidades inerentes à constituição dessa garantia.
E aqui é fundamental perceber o que está em causa.
Dar um imóvel como garantia para o crédito de outra pessoa é uma decisão séria.
Não se trata de uma formalidade. Se o financiamento não for cumprido, o imóvel que foi dado como garantia fica exposto às consequências previstas no contrato e na lei.
Por isso, esta possibilidade pode existir, mas deve ser analisada com especial cuidado por todas as pessoas envolvidas.
E quando não existe um imóvel para dar como garantia?
Mesmo quando não existe qualquer imóvel disponível para hipotecar, isso não significa que a consolidação deixe de ser possível.
Uma das alternativas pode passar por um crédito pessoal destinado à liquidação de responsabilidades.
Neste tipo de operação, o novo financiamento é contratado com o objetivo de liquidar os créditos existentes. Em vez de o dinheiro ficar simplesmente disponível para utilização, a operação é estruturada para que as responsabilidades anteriores sejam pagas e substituídas pelo novo crédito.
Uma das vantagens pode estar precisamente no prazo.
Enquanto alguns créditos que temos em carteira podem ter um prazo relativamente curto, um crédito pessoal para liquidação de responsabilidades pode, em determinadas condições, ser contratado por um prazo de até sete anos.
Isto permite alargar o período de pagamento e, consequentemente, reduzir o esforço mensal.
Mas, mais uma vez, é preciso olhar para além da prestação.
Se uma dívida que faltava pagar em três anos passa para um novo financiamento de sete anos, a prestação pode baixar significativamente. Mas estaremos a pagar durante mais tempo e, dependendo das condições, poderemos pagar mais juros no total.
A consolidação pode, portanto, ser uma ferramenta importante para recuperar margem financeira, mas não deve ser confundida com o desaparecimento da dívida.
O que fazemos com a margem que libertámos?
Esta é, para mim, a questão decisiva.
Se consolidamos créditos e conseguimos reduzir as prestações em 300 ou 400 euros por mês, o que vamos fazer com esse dinheiro?
Se simplesmente passarmos a gastar mais, voltaremos provavelmente ao mesmo problema dentro de algum tempo.
Mas se utilizarmos essa margem para criar um fundo de emergência, começar a poupar regularmente e, sempre que possível, amortizar antecipadamente a dívida, a consolidação pode transformar-se numa verdadeira ferramenta de reorganização financeira.
É uma diferença fundamental.
O objetivo não deve ser apenas conseguir chegar ao fim deste mês.
Deve ser criar condições para que daqui a dois, cinco ou dez anos a nossa situação financeira seja melhor do que é hoje.
Por isso, antes de consolidar, devemos fazer algumas contas simples: quanto pagamos atualmente, quanto passaremos a pagar, durante quanto tempo, qual será o custo total do novo financiamento e, sobretudo, que destino vamos dar à margem financeira que conseguimos libertar.
Porque baixar uma prestação pode aliviar o orçamento.
Aprender a viver com essa folga e utilizá-la para construir segurança financeira é que pode mudar verdadeiramente a nossa situação.
Consolidar pode ser uma decisão de prevenção
Há ainda uma ideia que vale a pena reforçar.
Não devemos esperar que as prestações se tornem incomportáveis para olhar para elas.
Se temos vários créditos, se as taxas são elevadas, se o peso das prestações está a limitar a nossa capacidade de poupar ou se simplesmente percebemos que existem alternativas mais adequadas à nossa situação atual, rever as condições pode ser uma decisão de planeamento financeiro, e não um sinal de dificuldade financeira.
A consolidação não é para todos. Pode não compensar quando os créditos estão próximos do fim, quando os custos da operação são elevados ou quando o alongamento do prazo torna o custo total demasiado pesado.
Mas, em determinadas situações, pode ser uma oportunidade para reorganizar a vida financeira, simplificar responsabilidades e recuperar uma margem que permita voltar a planear.
E talvez seja essa a melhor forma de olhar para o crédito: não como algo que simplesmente temos de pagar todos os meses, mas como uma responsabilidade financeira que devemos acompanhar ao longo do tempo.
Ter finanças com cabeça também é perguntar se as decisões financeiras que tomámos há alguns anos continuam a fazer sentido hoje.
E depois de falarmos de crédito, há outra decisão que muitas vezes fica para segundo plano. Quando finalmente conseguimos libertar 100, 200 ou 300 euros por mês, o que fazemos com esse dinheiro?
Gastamos porque finalmente podemos respirar um pouco melhor?
Ou aproveitamos a oportunidade para começar a construir uma almofada financeira?
Na próxima semana vamos voltar a falar de poupança. Não como uma teoria distante, nem como aquilo que fazemos “se sobrar dinheiro”, mas como um hábito que deve fazer parte da nossa vida financeira.
Criar hábitos de poupança: vamos a isso?
Ter finanças com cabeça também é aprender a fazer com que uma pequena folga de hoje se transforme em maior segurança amanhã.
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