Quem recentemente viu a série de televisão Furious (Disney), não deixa de ficar impressionado com a qualidade da escrita. Não é o habitual jogo do gato e do rato entre polícias e criminosos, embora haja um serial killer. Ou neste caso, uma serial killer que está empenhada num objetivo de castigo e vingança. Vingança contra quem? Sobretudo contra os homens que lhe causaram mal e sofrimento, quando era uma jovem menor, vítima de exploração sexual.
Do lado dos detetives do FBI e polícias de Nova Iorque, temos a protagonista Alice Black, que tem de lidar com os seus próprios demónios do passado. Por vezes, ela cheira mal porque se recusa a tomar banho. Existe uma razão para isso. Traz-lhe associações dolorosas aos momentos em que era vítima de violência doméstica no chuveiro às mãos do companheiro, também ele um polícia. E ainda temos uma terceira protagonista, uma detetive, mais velha e experiente, que mal consegue conter a sua fúria enquanto responsável pelo departamento de crimes sexuais e recorre, com frequência, ao álcool para conseguir lidar com os horrores do submundo da pornografia infantil, do assédio sexual a menores e de outros crimes hediondos que não se apagam da mente. Não há qualquer conteúdo gráfico explícito apresentado na série, apenas os rostos marcados por raiva, medo, trauma e dor. Mas as mulheres não se resignam apenas ao papel de vítimas. As experiências a que foram sujeitas distorceram-nas de tal maneira que também elas tomaram a forma de monstros que exigem justiça.
O título Furious refere-se às criaturas mitológicas das Fúrias que, na tradição romana, estão associadas a divindades femininas da vingança e da punição. São representadas como figuras que perseguiam quem cometesse crimes graves contra a própria família, descritas de forma aterradora, com serpentes no cabelo, enquanto procuram justiça.
Na era pós-Me Too, esta série dura e intensa recorda-nos de que este continua a ser um mundo pertencente, em grande medida, aos homens brancos heterossexuais, que ainda cometem abusos da pior espécie, protegidos pelo sistema. Mas esta é também uma época marcada pelas revelações de Jeff Epstein, e de como um grupo poderoso de homens, no qual alegadamente poderá estar incluído o próprio Presidente dos EUA, terá cometido, ao longo de anos, inúmeros crimes sexuais contra menores. É neste contexto social polarizador nos EUA que a série se aventura num terreno muito delicado e defende a voz das mulheres segregadas ou silenciadas pelo sistema.
Ainda tinha a série fresca na mente quando rebentou o mais recente escândalo numa prestigiada universidade americana, Cornell, em que uma mulher decidiu processar a universidade por ter ignorado as suas queixas e denúncias de violação sexual às mãos de sete estudantes universitários em 2024. A cada dia que passa, novos factos expõem como a universidade geriu o caso de forma negligente e as repercussões nos EUA demonstram, mais uma vez, que as agressões sexuais nas universidades continuam a ocorrer impunemente e com cobertura do sistema que, em vez de proteger as vítimas, enterra e desvaloriza os seus testemunhos.
Há algo de universal nesta lógica institucional de evitar dar um mau nome à casa e tentar preservar a reputação a todo o custo. Mas quando chega finalmente o reckoning day, lá têm de fazer o mea culpa. Quem não se lembra ainda do caso do Centro de Estudos Sociais de Coimbra, em que várias investigadoras publicaram um capítulo sobre relações de poder e assédio na Academia, revelando um caso de assédio e silenciamento? O CES publicou uma carta em que pedia publicamente desculpa pelo sofrimento e pelo silêncio que tiveram de enfrentar no seio da instituição. Houve falhas gritantes que deram condições para o abuso de poder.
Porque é que muitas vezes se exige serenidade por parte das vítimas, especialmente quando existe tanta resistência para que sejam escutadas e protegidas? A fúria é inteiramente legítima, mas está a ser muitas vezes abafada por um sistema que permite total impunidade. Estas mulheres têm todo o direito de estar zangadas perante uma sociedade e instituições que continuam a falhar na sua responsabilidade de ouvir, proteger e apurar os factos.
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