Nesta segunda-feira, 9 de dezembro, e a 17 de janeiro de 2025 (data extra marcada depois dos bilhetes para dia 9 esgotarem) vai haver uma última oportunidade para em Lisboa, no Teatro Tivoli BBVA, se assistir ao espetáculo ReEncanto, de Mayra Andrade, em que a música cabo-verdiana, nascida em Cuba há 39 anos, reinventa as suas canções apenas acompanhada pelo violão de Djodje Almeida.
Mas a partir desta sexta-feira, 11, ReEncanto passa a ser também um disco – gravado ao vivo na Union Chapel, em Londres, no ano passado. Sobre este formato que a tem acompanhado desde 2022, Mayra diz à VISÃO que é “um projeto fora do tempo, uma espécie de bolha, um mundo paralelo onde posso entrar sempre que tiver vontade”, ou seja: “Daqui a dez anos posso fazer o ReEncanto com músicas diferentes, que ainda vou compor.” E Mayra Andrade, transformada pela experiência da maternidade, sente que há, agora, novas canções a caminho.
Normalmente, os discos ao vivo encerram um capítulo na carreira dos músicos e anunciam outro. Agora, vai fazer espetáculos a partir deste novo disco, ReEncanto, gravado num concerto no ano passado. Sente que chegou a uma fórmula vencedora que não lhe apetece largar?
Estes concertos, em 2022, nem sequer foram pensados para sair em disco. Aliás, a ideia era só ter feito quatro espetáculos. Mas a experiência foi tão surpreendente, o envolvimento com o público foi tão bonito e intenso, que quando chegámos ao fim pensámos: vamos mesmo ficar por aqui? E decidimos fazer uma digressão de 15 concertos em 2023. O de Londres, na Union Chapel, foi gravado e acabaria por dar origem a este disco. Em 2024, ainda houve mais 20 datas… Não se consegue fazer um concerto só de voz e violão se não estiver a acontecer ali algo de muito verdadeiro e especial. A ideia do ReEncanto foi-se revelando e foi ganhando uma espécie de aura. Apesar de vivermos numa era que valoriza muito o entretenimento, sinto que às vezes as pessoas estão cansadas e querem o verdadeiro, o mais simples, o cru, sem filtros, algo que permita sentir uma comunhão com quem está ao lado e com o artista. Por isso é que o ReEncanto se prolongou. Não gosto muito da expressão “fórmula vencedora”, que faz pensar mais num lado comercial, e eu nunca fui de “fórmulas”.
Há cinco anos, contava à VISÃO que muitas vezes ouviu músicos mais velhos dizerem-lhe “tens uma voz tão bonita, mas não inventes…”, o que não lhe agradava nada. Há projetos novos no horizonte, está com vontade de voltar a inventar?
Nunca parei [risos]. Até no ReEncanto. De facto, não tem canções novas, é verdade, mas se pensarmos na música que está ali a acontecer é apenas isso: reinvenção, e reinvenção a cada concerto, porque há ali sempre muito espaço para o improviso. Eu quero surpreender-me com o que estou a fazer a cada concerto, também há criação ali.
E já está a pensar num novo disco de estúdio? No Manga, de 2019, havia uma grande vontade de trilhar caminhos novos…
Eu fiz a minha maior criação, que foi a minha filha [agora com um ano e meio], e continuo a viver uma transformação pessoal muito grande e profunda, que tem tomado muita da minha energia criativa. Mas sinto que já estou a entrar num momento em que começo, outra vez, a acumular energia em mim, para poder dar-me, criar, para novas canções nascerem.

Apesar de vivermos numa era que valoriza muito o entretenimento, sinto que às vezes as pessoas estão cansadas e querem o verdadeiro, o mais simples, o cru, sem filtros
Mayra Andrade
Aquela pergunta que lhe fazem muitas vezes: onde se sente, hoje, mais em casa, Cabo Verde, Lisboa, Paris, onde viveu vários anos? Ter uma filha mudou alguma coisa nessa sensação?
Onde me sinto mais em casa, hoje, é num alinhamento mais interessante comigo mesma. Numa casa nova que se criou, como a das tartarugas, e que eu transporto em mim. Sou eu e a minha filha. Mas tecnicamente sinto-me muito bem, e em casa, aqui em Lisboa, para onde me mudei em 2015. Casa, com cê maiúsculo, continua a ser Cabo Verde, pela minha família, a minha história… Paris foi importante pelas suas circunstâncias e oportunidades, mas é uma cidade onde nunca me senti em casa.
As mulheres têm muita importância na música cabo-verdiana, até porque a figura que a levou para o mundo foi Cesária Évora. E mesmo no arquipélago, com a saída de muitos homens que emigram, há um papel fundamental das mulheres. São um exemplo, num momento em que se fala tanto dessas questões?
Não consigo ver isso como um “exemplo” ou uma lição. Vem das circunstâncias. Mas acho que a mulher cabo-verdiana é uma guerreira, e um exemplo de resiliência. São os pilares das famílias, e passam por muitas coisas ‒ no mundo, de forma geral, e Cabo Verde não é exceção. Mas dizem-nos muitas vezes “tu és forte, és uma guerreira”, e acho que às vezes estamos cansadas de sermos “guerreiras” e de termos que ser “fortes”… Venho de uma família muito matriarcal, até somos mais mulheres do que homens, e acho que isso também me ajudou muito, mesmo que inconscientemente, na minha formação artística e na minha autoconfiança. Sei muito bem o que não quero, e vou em busca do que quero. Se me quiserem restringir, isso acaba por funcionar como motivação, como adubo, para me libertar. Eu fui sempre do mundo, tive que me adaptar sempre nos vários países onde vivi. A minha identidade foi muito construída com essa abertura. Não me podem pedir que eu negue a própria essência do que eu sou, é difícil de acatar…
De há uns anos para cá, fala-se muito de Lisboa africana, e especificamente cabo-verdiana, que até se tornou uma tendência, mesmo em termos artísticos. Tem havido uma evolução nessa identidade? Agora sente-se mais uma Lisboa cheia de turistas de várias paragens do mundo…
Essa africanidade pode estar mais diluída nessa onda de turismo, sim, mas Lisboa foi sempre crioula. Precisou foi de uma cena musical efervescente e afirmativa para se perceber crioula. Foi mais uma tomada de consciência. Essa questão do turismo vê-se mais no dia a dia, quando hoje numa esplanada vêm falar connosco em inglês, partindo do princípio de que somos turistas. O meu bairro, aqui à volta do Intendente, é muito gentrificado… Mas gosto de viver aqui, e o que me atraiu, também, foi precisamente a diversidade de línguas e nacionalidades.
Teatro Tivoli BBVA > Av. da Liberdade, 182 A, Lisboa > 9 dez, seg, 17 jan, sex 21h > €22 a €39