Tanto este volume de “Os Contos de Beedle o Bardo” (Editorial Presença, 160 págs., €24,90) como a mais modesta edição anterior, datada de 2008, estão associados à Lumos, instituição de beneficência que apoia crianças em Inglaterra e no País de Gales
1. Os Contos de Beedle o Bardo, de J.K. Rowling
Haverá quem não saiba o que significa o termo “muggles”? Qualquer fã de Harry Potter informará esses pouquíssimos e muitíssimo distraídos de que esse é o nome dado aos humanos não-mágicos no universo literário criado por J.K. Rowling. A autora deu por encerrada a saga em torno do pequeno feiticeiro numa escola em quase tudo semelhante aos colégios internos britânicos, mas Rowling não se tem coibido de explorar ficções paralelas, relacionadas com o desporto, o bestiário e o passado da sua saga, ou, como é o caso, sobre os contos de fadas que as famílias mágicas supostamente leriam. Os Contos de Beedle o Bardo são uma brincadeira metaliterária em que ela se permite jogar com referências tanto reais como ficcionais: Shakespeare, Hans Christian Andersen, os Irmãos Grimm e o imaginário das novelas góticas atravessam estas páginas “anotadas” pela personagem Albus Dumbledore, diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts – permitindo-se comentários que parecem ecoar preocupações atuais, como o revisionismo histórico, a discriminação ou a censura.
As cinco fábulas exemplares que mostram que “a magia causa tantos problemas como aqueles que resolve”, através de divertimentos como O Feiticeiro e o Caldeirão Saltitante ou contos macabros como O Feiticeiro do Coração Medonho, ganham aqui o bónus do traço de Chris Riddell, ilustrador e autor premiado (colaborador de Neil Gaiman). O livro transfigura-se com o seu traço anguloso e expressivo, cheio de detalhes, anotações manuscritas e sentido de humor, em que barbas, cabelos, pelos, picos e golas se eriçam como se tivessem recebido um choque elétrico. Aqui e ali, há páginas duplas ocupadas com seres imaginários… Do todo, desprende-se um certo tradicionalismo gráfico que ajuda ao efeito de “veracidade” destes contos de fadas alternativos, bons para “muggles de todas as idades.”
2. Contos Completos, de Beatrix Potter
Para quem ficou desconsolado com a recente adaptação cinematográfica de Peter Rabit, que nem a voz do divertido James Corden salvou, eis o perfeito presente nostálgico: Contos Completos (Pim! Edições, 416 págs., €22,20) reúne, pela primeira vez, os 23 cadernos escritos e generosamente ilustrados por Miss Potter, entre 1902 e 1930, a que ainda acrescem sete histórias póstumas encontradas no seu espólio. Beatrix fez dos muitos animais de estimação da sua juventude vitoriana, aprisionada pelos valores familiares, e das férias nas terras altas de Natureza luxuriante inspirações para um mundo benigno: coelhos chamados Pedro e Casimiro, esquilos, gatos, gansos, lagartos, sempre vestidos e com bons modos humanos, entretidos em aventuras na floresta ou em chás very british, declinados em ilustrações deliciosamente rétro. Uma pérola.
“Frida Kahlo” (Suma de Letras, 152 págs., €18,80), livro originalmente publicado em 2016, marcou o percurso desta artista, que também assinou uma biografia ilustrada dedicada a David Bowie