No Mercado de Arroios, em Lisboa, há um espaço onde o aroma do cominho e do za’atar se mistura com conversas em várias línguas e com um sentido de pertença que não conhece fronteiras. Chama-se Zaytouna – “azeitona”, em árabe – e começou por ser uma pequena mercearia de produtos do Médio Oriente. Hoje é também restaurante, ponto de encontro e, para muitos, um gesto quotidiano de solidariedade. Atrás do balcão, quase sempre de avental posto, está Hindi Mesleh, palestiniano, cozinheiro por vocação e contador de histórias por natureza. Saiu da Palestina em 2013, quando sentiu que a vida se tornara “inviável”. “Antes de 2013 saí muitas vezes, mas voltava sempre. Até que chegou o momento em que pensei: isto já não dá”, recorda. A degradação das condições de vida e a violência constante empurraram-no para Bruxelas. Anos depois, acabaria em Lisboa, cidade que escolheu quase por intuição – e pelo clima. “Estava com alergia ao frio e ao céu cinzento”, diz, meio a rir.
Quando chegou, em 2016, não encontrou estabilidade profissional. Fez biscates, viveu de poupanças, ponderou partir de novo. O ponto de viragem aconteceu numa festa de amigos, onde lhe pediram que cozinhasse pratos palestinianos. À procura de tahini em Lisboa, deparou-se com prateleiras vazias e preços proibitivos. “Fui para casa a pensar que em Bruxelas havia muitas lojas destas. Porque não abrir uma aqui?” O problema era o mesmo de muitos migrantes: não tinha dinheiro nem documentos regularizados. Ainda assim, avançou.

