O título desta crónica poderia ser “algumas coisas que ando a aprender sobre vinhos”, mas seria jornalisticamente insuportável pela sua extensão e vazio de informação. Melhor será, então, descodificar tal hipótese.
Num dos primeiros dias deste agosto, aguardo a ligação Lisboa-Paris, quando me chega a primeira surpresa: duas horas de atraso no voo da companhia aérea de bandeira francesa. Já em viagem oferecem-me uns salgadinhos com uma garrafinha (18,7 cl) de vinho branco Chardonnay 2009 vulgaríssimo.
Nada surpreendente a não ser o material de que a garrafa é feita: exatamente plástico (PET). No contrarrótulo lê-se para quem duvidar: “Esta garrafa, feita de PET, foi estudada para preservar todas as qualidades do vinho que vos é proposto”, e esclarece-se que a adoção deste material teve em conta a defesa do ambiente e do planeta.
A ecologia dá para tudo… Se eu fosse como uma reputada jornalista britânica que há uns anos fez o funeral da rolha de cortiça quando surgiram as rolhas sintéticas e de “rosca”, diria que a indústria do vidro estava em risco… Não me parece que os vinhos de qualidade alguma vez optem por esta “solução ecológica”. A história da embalagem de vidro e do vinho sobrepõem-se a esta usura dos interesses económicos imediatos. Este Chardonnay ficou sem história.
Surpresa seguinte: pelas livrarias parisienses procuro novidades de livros sobre vinhos. Edita-se muita coisa, mas uma pequena publicação sobressai: a revista Autrement dedica um número especial ao vinho, Atlas mondial des vins, onde dois reputados geógrafos, simultaneamente peritos do INAO (correspondente ao IVV) e do Instituto de Ciências da Vinha e do Vinho, traçam a geopolítica global do vinho no século XXI. O relatório é devastador para a perda de importância da Europa neste negócio, sublinhando-se, por exemplo, que a África do Sul já ultrapassou em 2010 as vendas de vinhos da França para Inglaterra.
E com a China a envolver-se neste jogo, não para importar vinho, mas para produzi-lo e a prazo exportá-lo…
Terceira surpresa: entro na loja Lavinia no coração da capital francesa. Olho uma colheita de Chateau Mouton Rothschild 1998; a garrafa custa €670, mas pode bebê-lo a copo (€25). Interrogo-me: crise ou democratização dos vinhos de luxo? Ando, pois, a aprender algumas coisas sobre vinho. Adquiri sete rosés de 2009, um de Espanha, um dos Estados Unidos, cinco franceses entre os €2,55 e os €6,99.
Claramente o melhor era também o mais barato:
Montesierra Somontano (DO) Tempranillo-Garnache 2009 ****/***** Um rosé de elevada qualidade feito na Bodega Pirineos. Cor de morango, aromas e sabores a morangos e framboesas. Uma delícia para beber no final da tarde. (www.bodegapirineos.com).