Pode a expressão “aqui chegados” aplicar-se, agora, à pandemia de modo a querer dizer que estamos naquela fase em que “conviver com a Covid-19” é o habitual, uma certa normalização? Especialistas ouvidos pela VISÃO dizem que sim, mas…
Manuel Carmo Gomes, epidemiologista e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, alude a “uma certa previsibilidade” e, por isso, diz que “até certo ponto, sim”, podemos estar no momento que se assemelha ao que “viver com o SARS-CoV-2” pode querer dizer, no entanto, acrescenta, “mas é um sim e um não”. Já Miguel Prudêncio, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes e professor de Microbiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, não tem dúvidas, “estamos claramente nessa fase”, aliás, vai mais longe, “está mais do que na altura de encararmos a Covid-19 como mais uma doença respiratória”, ressalvando que o diz à luz do que sabemos hoje, daqui a “seis meses pode surgir uma nova variante ou uma situação inesperada”.
Aqui chegados, o panorama é este. Portugal ultrapassou, na semana passada, as cinco milhões de infeções (5 005 783). Sendo que muitas pessoas já tiveram a doença mais do que uma vez. Aliás, reforça Carmo Gomes, “cerca de 14%” dos novos casos de Covid-19 registados em Portugal são reinfeções.
O último relatório semanal da Direção-Geral da Saúde e do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, de 15 de junho, dá conta que foram registados, até agora, “289 365 episódios de suspeitas de reinfeção, o que perfaz 5,8% do total de casos”. No mesmo documento, pode ler-se que a taxa de reinfeção com a BA.5 é de 12,5%, bem superior às sublinhagens BA.1 (6%) e BA.2 (6,7%) e a grande distância da Delta, cuja percentagem de reinfeção foi de 2,3%.
Por isso, parece haver razões de sobra para que haja cada vez mais reinfeções, não só a sublinhagem BA.5 da variante Ómicron é muito mais transmissível – “tem grande capacidade de fugir aos anticorpos induzidos pela vacinação ou por infeções anteriores”, explica Carmo Gomes – como as máscaras foram postas a um canto no dia 21 de abril (com exceção dos lares, transportes públicos e serviços de saúde), os testes deixaram de ser gratuitos, os contatos de risco já não precisam de ficar em isolamento uma semana e, para colmatar, já passou algum tempo deste que a maior parte da população teve a sua dose de reforço da vacinação (terceira dose).
Portugal nos piores
Parece ser este o caldeirão perfeito para que o número de infeções aumente. Os números não enganam: Portugal continua a ser o país da União Europeia com mais casos de infecção por SARS-CoV-2 por milhão de habitantes nos últimos sete dias e o segundo no mundo, depois de Taiwan (considerando os países e territórios com mais de um milhão de habitantes); e também o país da UE com mais mortes diárias por milhão de habitantes nos últimos sete dias, sendo o terceiro no mundo, depois de Omã e Taiwan. O relatório da DGS e do INSA, já citado antes, refere que mortalidade específica por Covid-19 registou, a 13 de junho, um valor de 53,7 óbitos em 14 dias por milhão de habitantes, valor que é superior ao limiar de 20 óbitos em 14 dias por milhão de habitantes definido pelo Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC).
Aqui chegados, repetimos, temos várias variantes, não só as do SARS-CoV-2, que se impõem no cenário atual. A Covid-19 não é uma doença sazonal, pelo menos ainda; as reinfeções são mais frequentes; a long-covid é uma preocupação e “pode ser o próximo grande problema do SNS”, segundo Carmo Gomes; o vírus continua a ser uma ameaça para os mais idosos e para os imunodeprimidos; as novas vacinas ainda não chegaram, sendo que para já, quando chegarem, estão destinadas aos mais vulneráveis.
Mas então, é isto que quer dizer “viver com a Covid-19”?
“A Ómicron está a comportar-se como os coronavírus habituais. A chatice é que a transmissão é muito maior”, diz Carmo Gomes. “A boa notícia é que é menos patogénica do que as anteriores, não causa doença mais grave”. Se há algo que já se sabe é que “vamos continuar a viver com este vírus e as oscilações dependem, quase inteiramente, do aparecimento de novas variantes”.
Coisa que o epidemiologista não descarta, mas que considera “pouco provável”. O que acredita, sim, é que vão surgir mais sublinhagens da Ómicron. Quanto à sazonalidade, mostra cepticismo. “Não sei se alguma vez se vai tornar sazonal.”
Para Miguel Prudêncio, a Covid-19 é uma “infeção respiratória causada por um vírus, como existem outras infeções”, e que “até tem uma vacina, o que não acontece com outras”. O investigador nota que é preciso proteger os mais vulneráveis desta infeção, mas que é preciso não esquecer de os proteger também das outras. “Se espirrar ou tossir para cima de alguém quando se está infetado é passar a infeção à outra pessoa”. O uso da máscara é elementar quando se tem sintomas da doença e “todas as etapas da vacinação recomendadas para os mais vulneráveis devem ser seguidas”, assegura. No entanto, diz, não podemos todos usar máscara para toda a vida, “temos de treinar o nosso sistema imunitário”. Miguel Prudêncio alerta que “a imunidade tem de ser estimulada, não podemos estar numa redoma”, querendo isto dizer que ao estarmos a proteger-nos de uma doença com a barreira da máscara, estamos, também, a “ficar desprotegidos contra outras infeções porque não convivemos com elas” e o sistema imunitário, diz, tem de coabitar com outros patógenos, sejam bactérias ou vírus, para se fortalecer.
Acabar com os isolamentos?
Para Carmo Gomes “ainda é arriscado” acabar com os isolamentos, mas admite que “isto só se tornará mais normal” quando estes acabarem. Reforça que temos de “aprender a viver com esta realidade” e adaptar os comportamentos, o que não é “diferente do mantra que temos dito” e que é proteger os mais vulneráveis, evitar aglomerações em espaços fechados e usar máscara quando necessário.
Já Prudêncio, não concorda com a quarentena de sete dias para os assintomáticos.
Assim, e aqui chegados, finalmente, ainda continua a ser difícil haver alguma previsibilidade na Covid-19, sendo esta a parte do “não” que se aplica à resposta de Carmo Gomes à pergunta inicial deste texto.
“Estamos à mercê a evolução do vírus. Há um ano estava convencido que a situação iria estabilizar, depois apareceu a Ómicron…”