Até agora ouvimos falar do R0 e do RT, variáveis que indicam a capacidade média de transmissão do vírus por um doente, no início e nos momentos posteriores da infeção por Covid-19. Mas, avisam alguns especialistas que continuam a tentar compreender a forma como o vírus avança pelo mundo, parece haver uma outra variável que tem sido esquecida e que pode conter a explicação para o avanço da Pandemia.
Chamam-lhe fator K, e remete para a medida que poderá explicar, por exemplo, porque houve um número tão elevado de mortes no norte de Itália, mas não no resto do país. Como avança a The Atlantic, numa análise ao caso, tudo indica que estamos perante um agente patogénico que tende a espalhar-se sobretudo em grupos, com a ajuda de alguém que já se convencionou ser um super transmissor. E o que não faltam, nesta história toda, são casos em que uma única pessoa infetou 80 por cento ou mais das pessoas que estavam perto dela em apenas algumas horas. (Embora também haja outros momentos em que a Covid-19 se mostrou surpreendentemente muito menos contagiosa…)
O papel da aleatoriedade…
Há vários estudos a explicar estas diferenças na capacidade de dispersão. Por exemplo, uma investigação em Hong-Kong, que fez testes em massa e rastreio a todos os contactos, cerca de 19% dos casos foram responsáveis por 80% da transmissão local. Enquanto isso, 69% dos doentes não infetaram mais ninguém. Não é caso único. Múltiplas outras avaliações sugerem que 10% a 20% das pessoas infetadas podem ser responsáveis por 80% a 90% da transmissão— e que tantas outras mal a transmitem. Uma ação muito semelhante à que ocorreu em 2002, durante a epidemia de SARS: a maioria das pessoas infetadas não a transmitiu; mas alguns eventos revelaram-se a causa da maior parte dos surtos.
Este tipo de comportamento, que alterna entre ser super infecioso e o seu contrário, é exatamente o que o K capta. Samuel Scarpino, especialista em epidemiologia e sistemas complexos da Northeastern University College Of Science, assume que este tem sido um grande desafio numa sociedade muito habituada à forma de propagação da gripe – que não tem, sublinha ainda, o mesmo nível de comportamento. “É muito mais determinista; já na Covid-19, a aleatoriedade desempenha um papel muito importante”.
…e dos pequenos clusters
Os dados destes primeiros nove meses da pandemia sugerem, então, que o vírus avança por pequenos clusters – aproveitando-se de supereventos. Preferencialmente em ambientes interiores, mal ventilados, mas sempre onde se reúnam muitas pessoas ao mesmo tempo. Como quem diz, lares de idosos, cruzeiros, estâncias de esqui, hospitais, prisões, festas privadas…
Ou, como disse há tempos à Science Jamie Lloyd-Smith, da Universidade da Califórnia, nos EUA, “se conseguíssemos prever que circunstâncias dão origem a estes eventos de mega transmissão era fácil travar a disseminação do vírus”. Afinal é disso que trata este fator K: saber o quanto a doença funciona por surtos. E a equação que o explica é simples: quanto mais baixo for o K, mais a transmissão teve origem num pequeno número de pessoas.