O novo relatório da Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados com demência analisou 12 fatores que contribuem para o atraso ou a prevenção desta doença, que ainda não tem cura.
Apesar de haver indicadores que não são controláveis, como os genes, a demência, segundo o estudo, pode ser retardada se alterarmos alguns dos nossos comportamentos. Fatores como a educação (no início da vida), a hipertensão, a obesidade, a perda auditiva, as lesões cerebrais traumáticas e uso indevido de álcool (na meia idade) e o tabagismo, a depressão, a inatividade física, o isolamento social, os diabetes e a poluição do ar (numa fase tardia da vida) podem contribuir para o aumento risco de demência.
“A demência é potencialmente evitável. Nós podemos fazer coisas para reduzir o risco de demência, em qualquer fase da vida”, disse Gill Livingston, professora de psiquiatria de idosos da University College London e co-autor do estudo. A psiquiatra refere ainda que essas mudanças no estilo de vida podem reduzir as chances de desenvolver demência em pessoas com e sem um alto risco genético para essas condições.
Este novo estudo vem completar um outro estudo feito em 2017, que revelava que cerca de um terço dos casos de demência podem ser evitados segundo nove fatores do estilo de vida, incluindo a perda auditiva, a depressão, uma menor educação infantil e o tabagismo. Agora, o novo estudo sugere que 1% dos casos de demência, em todo o mundo, são atribuíveis à ingestão excessiva de álcool na meia-idade, 3% a ferimentos na cabeça na meia-idade e 2% como resultado da exposição à poluição do ar na terceira idade (embora alertem que o último fator pode ser sobrestimado).
Apesar de alguns fatores serem adaptados a nível pessoal, existem outros exigem uma intervenção dos governos de cada país. O relatório inclui uma lista de nove recomendações, por exemplo a melhoria da qualidade do ar, para os governos “serem ambiciosos em relação à prevenção”.
A equipa acredita que o impacto das intervenções no estilo de vida, provavelmente, será maior entre os indivíduos mais carenciados e nos países de baixo e médio desenvolvimento. “Não acho que seja coincidência que as reduções na prevalência de demência até agora tenham ocorrido em pessoas com alta qualidade de vida e alta escolaridade, que têm mais controlo sobre seu ambiente”, disse Livingston. “Esperamos que em 2050 dois terços das pessoas com demência, se as previsões se manterem, estarão em países de baixo desenvolvimento.”
Não está claro se todos os fatores de risco são puramente uma causa e não um efeito de demência. O relatório relembra que, por exemplo, “a depressão pode ser um risco de demência, mas mais tarde a demência pode causar depressão”.
Fiona Matthews, professora de epidemiologia da Universidade de Newcastle, que não estava envolvida no relatório, disse que o foco no estilo de vida não significa que as pessoas devam sentir que têm culpa se desenvolverem demência.
“Podemos trabalhar para reduzir nosso risco pessoal e o risco da sociedade, mas mesmo assim, com estes fatores de risco, isso equivale a menos de 50% de toda a demência”, disse, acrescentando que um aumento no risco não significa que a demência se desenvolva.