O mundo atravessa uma crise económica. Não há aqui qualquer novidade, dado que ouvimos falar dela todos os dias. O nosso país, fazendo parte de um mundo um nadinha diferente daquele que nos empurrou para esta situação global, também não foge à regra e, mal preparado, habituado a uma má gestão e ao nacional porreirismo, cultivou uma crise muito sua e muito própria.
Em função dessa nossa crise, e a nosso convite, mudou-se para cá um trio. Não o de Odemira, mas uma tal de Troika, que nos veio “ajudar”, assim o dizem, a gerir o nosso porquinho mealheiro.
Feito que está o preâmbulo, falemos então daquilo que me levou a abordar a nossa acarinhada crise. Como em todos os orçamentos (familiares, empresariais, públicos) em alturas de necessidade de equilíbrio financeiro, normalmente subsequente a um certo desregramento nos gastos, uma das medidas a tomar, quando não há a possibilidade de aumentar a receita, é o corte da despesa. Assim costuma ditar o bom senso. Mas este último já não costuma abundar na tarefa de eleger o que é ou não supérfluo, ou não essencial. E aqui a falta de bom senso costuma acompanhar tanto os orçamentos familiares como todos os outros. Se nos familiares se corta na saúde e na alimentação, mantendo-se a televisão paga e outros mimos que tais, no orçamento nacional mantemos os carros topo de gama da classe ministerial e inerentes secretarias de estado, para cortar na ciência e investigação sem aplicação empresarial.
Eu confesso que tenho alguma dificuldade em falar em verbas para a investigação e conhecimento numa determinada espécie animal ou vegetal quando há famílias com todos os membros do seu agregado no desemprego, quando há dificuldade no apoio social. Mas por isso é que somos seres pensantes e não nos regemos unicamente com base nas emoções. Este tipo de dualidade faz mais parte de discursos demagógicos do que da realidade. Não estamos a tirar à ciência para alimentar famílias carenciadas. Estamos a reduzir o investimento na ciência não empresarial, a depauperar departamentos de investigação, simplesmente porque esta é considerada supérflua, em grande parte por aqueles que não compreendem a sua necessidade.
O investimento no conhecimento sobre o mundo natural não foi um capricho de uma sociedade que não tinha melhor destino a dar ao seu dinheiro. Este surge como uma necessidade de conhecer o mundo desse prisma, com o intuito de evitar a sua degradação extrema e irreversível. Uma degradação com repercussões claras e conhecidas para a nossa espécie. Não creio estar a ser dramático nos termos utilizados, quando assistimos a uma lista de milhares de espécies a caminho da extinção, ou quando ainda tomamos decisões pouco ponderadas, muitas vezes com base em argumentos puramente económicos, desprotegendo e destruindo património natural como se de algo dispensável se tratasse.
Fazendo o paralelismo com o orçamento familiar, estamos a desinvestir na saúde do nosso planeta, por a considerarmos uma não prioridade. A questão é que, tal como a nossa saúde, também a não preocupação com o ambiente, nas suas diferentes vertentes, acarreta problemas graves a longo prazo. Bem mais graves do que a urgência de uma crise económica permite antever.
Mais do que uma qualquer Troika a incentivar-nos a esventrar leis laborais, transportes públicos e um sistema nacional de saúde, precisamos urgentemente de acordar antes de o fazermos ao nosso mundo natural.