“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
Cântico Negro– José Régio
Por motivos pessoais, este ano não pude descer a Avenida, curiosamente hoje transformada numa zona de luxo onde poucos portugueses se podem dar ao luxo de adquirir seja o que for. Mantenho este hábito há largos anos, quer na celebração da minha própria liberdade, quer essencialmente em homenagem aos vários responsáveis pelo Estado de Direito Democrático em que, apesar de tudo, vivemos.
Contudo, ao estar a vários quilómetros do epicentro da comemoração e, ironicamente, perto de Grândola, dei por mim a pensar que, mais do que nunca, o 25 de Abril não pode ser celebrado apenas numa única data ao longo do ano, devendo antes ser exercitado todos os dias.
Apesar de ser verdade que o atual regime nos tem dado alguns desgostos, importa cada vez mais relembrar que os valores de Abril fazem cada vez mais sentido, sobretudo numa época em que alguns “velhos do Restelo” teimam perigosamente em branquear o que foi a ditadura, procurando fazer realçar as suas (parcas ou nenhumas) vantagens e esquecendo as décadas de isolamento, obscurantismo, de ignorância e de medo.
Enaltecer as alegadas virtudes de um regime que matou jovens ao enviá-los para a guerra, que separou famílias e as impediu de conviver, prendendo e enviando para o desterro quem manifestava qualquer tipo de oposição, que considerava as mulheres inferiores aos homens e não lhes permitia sair do seu jugo é mais do que ignorar o que ocorreu. É procurar aproveitar um descontentamento que não se pode negar (antes se devendo tentá-lo perceber e corrigir o que for possível corrigir) para, a seguir, o converter em algo completamente diferente, onde os direitos que hoje temos não serão os que estarão consagrados, ao mesmo tempo que se procura, sem sequer se disfarçar, conquistar o poder pelo poder.
Cada vez mais, parece portanto relevante deixar claro que, se hoje temos liberdade de expressão, se as mulheres têm, pelo menos formalmente, os mesmos direitos do que os homens, se podemos circular e deslocar-nos, reunirmos e fazermos manifestações, se podemos ler os livros que queremos e, até, dizermos os disparates que se ouvem, o devemos não apenas aos que fizeram a Revolução mas a todos os que, de uma forma ou de outra, se foram opondo, ao longo de anos e anos, não aceitando acriticamente os grilhões que lhes impunham. Importa não esquecer que, para além dos Capitães de Abril, muitos outros, a maior parte sob o anonimato, trataram de fazer a sua parte na derrocada de um regime que nunca serviu todos e nunca foi para todos.
Para além de tudo o que já foi discutido nos últimos dias, a verdade é que a Democracia é um regime tão generoso que, inclusivamente, acaba por acolher os que, para tratarem da sua vidinha e sob a capa de terem um desígnio nacional, a querem destruir.
Nos tempos que correm, ser digno de Abril é lutar por esses valores diariamente, não fazendo a festa para logo a esquecer. É, por exemplo, saber que dizer um “não” basta para que um ato sexual seja não consentido. É, também, não aceitar branqueamentos da História e passar ao lado de polémicas sempre que estão em causa princípios fundamentais, apenas para não sermos incomodados. É igualmente sermos solidários e empáticos, quando necessário, mas não concedermos quando estejam em causa direitos, liberdades e garantias que tanto demoraram a conquistar.
Houve demasiada gente prejudicada pela Ditadura para que não se perceba os ventos que começam a surgir com cada vez mais força e para que nos limitemos a combatê-los num único dia do ano. A liberdade custou demasiadas vidas para que nos alheemos do que se passa à nossa volta, fingindo, por ser mais fácil, não ver o que se anuncia querer fazer.
Celebrar o 25 de Abril é, como tal, um exercício que deve ser quotidiano, sob pena de um dia acordarmos e ser tarde demais. Este é o repto que deixo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.