Querida Chéu,
Desta feita não sei se concordo inteiramente com o que escreves, e nada melhor do que uma discórdia para celebrarmos juntas Abril. Falavas na última carta do exagero que é o chorrilho de ofensas que se escrevem de cada vez que alguém desliza nalguma expressão ou diz algo mais controverso, mas já pensaste nas décadas, séculos de insultos e mentiras que calámos ou, pior, considerámos verdadeiras e aceitáveis? Compreendo que seja enlouquecedor conviver com o ruído permanente dos mexericos, das intrigas e das vulgaridades a que estamos expostas diariamente, nos meios de comunicação, nas redes sociais e por consequência, nas escolas, cafés, escritórios e lares. Mas, apesar de tudo, é preferível o barulho ao silêncio e à censura. Hoje podemos desligar um telefone, escolher ler ou não ler um jornal ou um livro, e sobretudo, podemos contradizer, e à vista de qualquer pessoa, qualquer ordinarice ou mentira que seja proclamada, ficando ainda com a vantagem de ficar toda a gente a saber o que se pensa.
É certo que num aspeto concordo contigo plenamente: “A falta de noção de algumas figuras públicas não deveria ter mais atenção mediática do que certos atos” de poesia. Arte. Literatura. De gestos solidários. Mas cabe-nos a nós dar-lhes ou tirar-lhes a luz da ribalta.
Lembro-me de passar o período da Covid-19 a medir as palavras. Desde 2020 nunca mais me despedi de ninguém sem dizer “saúde!”, ciente do que estava a dizer, e nunca mais disse “Santinho”, como a minha avó dizia, sempre que alguém espirra. Quando me perguntam: se estou bem: não digo um oficial e oco: ”Bem, muito obrigada e tu?”, nem respondo dando logo a resposta como tantas amigas da minha avó faziam, dizendo de uma vez só: “Como está, bem, muito obrigada!”, evitando assim o diálogo que, sabiam, era só protocolo exercido para ouvidos mocos. Também não são raras as vezes que ouço amigas dizerem-me, em conversas de café ou ao telefone: Ia morrendo hoje! Ou, estive a trabalhar num autêntico campo de concentração!, tudo frases que, se avaliarmos bem, não deveríamos dizer de ânimo leve, nem ouvir com complacência. Mas será melhor calar? Dizer ou ouvir um isso não se diz?
Cresci, em miúda, com um dilema que ainda não resolvi: pode-se dizer tudo mas não se pode fazer tudo? Ou pode-se fazer tudo, mas não se pode dizer tudo? O que achas, Chéu? Parece um dilema infantil e disparatado, mas basta substituir o tudo por: dizer eu mato um fascista ou matar mesmo um fascista, e apesar do grau de violência ser diferente no falar e no fazer, não consigo separar a ideia (e a possibilidade de propagar essa ideia) da possibilidade do gesto real. Nós nomeamos, nós fazemos. Ou desfazemos, não é?
Abelardo, o filósofo e teólogo medieval dizia que era na intenção que estava o pecado, mesmo que o mesmo não fosse cometido. A lei diz-nos que é o ato praticado que nos condena; se tentarmos e não conseguirmos, não somos criminosos? A invenção da liberdade de expressão diz-nos que este dilema não é para ser respondido mas praticado. Diz-nos que o que criamos com o que dizemos com regularidade em praça pública, no cinema, no teatro, na pintura ou mesmo nestas humildes e singelas crónicas desenha os contornos da realidade comum em que vivemos, informa-a, defende-a, destrói-a.
Podemos ter perdido a noção da força da linguagem, que pode partir vidros de janelas, como dizia o poeta Daniil Kharms (um escritor que morreu numa prisão na Sibéria porque a sua prosa “não fazia sentido”, de acordo com o relatório dos agentes que o prenderam). Podemos preferir não ouvir certos impropérios numa época que claramente prefere o adjetivo inflacionado ao argumento, e escolhe o superlativo ao vocabulário rigoroso. Mas nunca foi tão urgente sair para a rua aos gritos, a dizer o que nos vai na realíssima gana, enfrentando, confrontando e desarmadilhando quem tem o poder porque tem o poder da palavra!
Discutiu-se muito sobre se o debate entre Pacheco Pereira e André Ventura deveria ter existido e se valeria a pena falar com um fascista. E eu digo: vale! Mesmo saindo do debate de rastos! Da mesma maneira que já deveria ser intolerável, e completamente démodé, em democracia, alguém ainda afirmar com orgulho que deseja matar um (e ouve-se cada vez mais!) e ser aplaudido por isso. Resolver um problema à estalada não é nunca uma solução. Por isso entre defender se deveria haver um código de decência nos meios de comunicação e ouvir uma Cristina Ferreira a desculpar violadores ou um André Ventura a apelidar o dia inicial inteiro e limpo de miserável, prefiro (mesmo que infelizmente) ouvir barbaridades. Compete-nos a nós desafiar e desmontar esse discurso e afirmar que não o queremos se abafa todos os outros. É certo que para tal precisamos de estar lúcidos e em forma, na matéria física e na alma, plenas de literatura e arte que nos almofade o pensamento para aguentarmos o embate da crueldade de alguns impropérios, mas também bem nutrida de imaginação para poder ripostar, assumindo, sempre que necessário, um bartlebiano preferia não fazer (ou não ouvir), ao invés de aguardar por um qualquer líder (ou, hoje em dia, por uma celebridade), que nos salve ou nos ofenda com a sua oratória.
Aliás, talvez seja boa hora de pararmos de carpir o fim do tempo dos grandes líderes carismáticos e de grandes slogans. Talvez seja o momento certo para (re)começar a admirar profundamente a valentia de tanto João Sem Medo que salta todos os dias o muro, para descobrir a Floresta Branca, lembrando-nos que REPETIMOS ABRIL SE FOR PRECISO! Ou FASCISMO, ÉS TÃO SÉCULO XX! ou ainda: Os meus avós não se calaram para eu agora não usar a minha voz!, palavras de ordem de alguns cartazes este sábado em Lisboa.
É por tudo isto que o 25 de Abril é o dia mais inteiro da História recente do planeta e devia ser celebrado e contado em todo o mundo, como se celebra o fim de uma guerra mundial ou um Ano Novo datas que, extravasando o seu significado inicial, tornaram-se num ritual que abarca todos os fins e todos os começos. Tal como o movimento iraniano “Mulher, vida, liberdade” era muito mais do que um movimento de libertação das mulheres. Porque só somos verdadeiramente livres quando somos todas e todos e todes livres! O 25 de Abril devia ser o dia oficial da primeira madrugada futura! Porque ao contrário de outros festejos, descer a Avenida não é um desfile organizado, nem uma parada militar; não é uma exibição de força, de poder ou reflexo de uma tendência política, religiosa ou filosófica. O 25 de Abril é a celebração da Liberdade! De todas as maneiras, com todas as cores, todas as idades e muitas nacionalidades! Um exemplo vivo de como aquilo que começa com tanques só pode terminar em festa se (e só se!) houver gente na rua a cantar, e Donas Celestes a distribuir cravos que acabam pelos canos das espingardas!
Não são os líderes nem os políticos carismáticos, nem as celebridades solitárias de programas televisivos matinais que fazem as revoluções, são os seus apoiantes e espectadores que lhes dão voz e espaço ou Não! É o Povo que se revolta! É a malta que avisa a malta! É o mar de Joões Sem Medo que saiu à rua neste 25 de Abril para festejar o espanto de existirmos em liberdade!
Por isso, querida Cláudia, que esta nossa correspondência continue por muitos anos, em público e em privado, e que colha mais vozes que se queiram juntar nesta nossa vontade de empurrar, cada dia mais um bocadinho, a vergonha para o outro lado; para o lado daquele que nos tenta calar a boca, que nos aperta o pescoço ou nos obriga a apertar o cinto. Sigamos juntas, a tecer o futuro das nossas filhas adolescentes e das Liras que ainda virão (como esta aqui na foto de Natacha Campos), ocupando as ruas já no próximo 1º de Maio, em defesa dos direitos dos trabalhadores, ou seja, em defesa de um mundo inteiro que esgota os dias a fazer o próprio mundo girar.
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela