Não acham? Sinto que se vê pouca publicidade a casinos e casas de apostas, quando há espaço e tempo para muito mais. E é pena, visto que é uma coisa tão positiva para a sociedade, como vamos sabendo cada vez mais e melhor. Têm visto as reportagens sobre o assunto? Aconselho as da SIC e RTP, fáceis de encontrar na net.
Sabiam que apenas 56% da população portuguesa joga a dinheiro? Isto pode parecer preocupante, mas é importante mantermos a fé de que conseguiremos chegar aos 100%, principalmente tendo em conta que é um número que não para de aumentar. No último estudo do ICAD (foi em 2022, por isso imaginem como estará agora), havia 50.000 dependentes de jogo, e 100.000 em vias de se o tornarem, sendo que muitos começam a jogar ainda enquanto menores. Isto tem que ser encorajador para quem quer que este fenómeno se alastre ainda mais.
É que basta só mesmo mais um pouco de ainda mais desregulação e mais publicidade em todo o lado, e poderemos chegar a ser o país onde absolutamente toda a gente joga. Porquê esta ambição? Simples. É que se todos tivermos um problema de jogo, então ninguém tem um problema de jogo. Excelente, não?
Até dou já ideias. Por exemplo, quando vemos um jogo de futebol, ainda só temos publicidade a apostas no nome da competição, em todas as bancadas de diversas formas, nos separadores entre repetições, no intervalo do jogo, na camisola dos jogadores em vários sítios, em todos os suportes possíveis junto ao estádio e ainda mais, mas acho que não é o suficiente. Para quando mudar o nome das equipas, dos estádios e dos próprios jogadores? Estamos a perder oportunidades, enquanto um Sporting x Benfica em Alvalade não for um Betano Clube de Portugal vs. Sport Lisboa e Bwin, no estádio da Betclic Luz ou no Alvalade Bacana Play. E sendo eu do Sporting – ai! – Betano Clube de Portugal, claro que gostava de ver golos do Solverde (ex Trincão) e do Placard (ex Pote).
E quem diz no futebol, diz absolutamente em todo o lado, em todos os aspetos da nossa vida. Tudo o que é influenciador, apresentador, músico, humorista e até desportista, devia estar sempre a apelar ao jogo, a dizer às pessoas que confiem que vão ganhar (não vão). E cada podcast ou espetáculo que não seja patrocinado por um casino ou casa de apostas, só pode andar mesmo a dormir. Tem que haver publicidade a apostas em TODO O LADO, A TODOS OS MINUTOS, PARA TODA A GENTE, DE TODAS AS IDADES. Ao contrário do tabaco, álcool e droga, que não estão sempre acessíveis, cuja publicidade está bastante regulamentada e todos os seus malefícios são conhecidos, o vício do jogo ainda está completamente ao deus-dará, e com a vantagem de ser muito dificilmente detetado por terceiros, também ao contrário de outros vícios. Assim sendo, porque não aproveitar?
“Ó Faro, mas os estudos indicam que o vício do jogo está a destruir milhares de famílias e, ainda mais do que a droga ou álcool, é aquele em que, entre outras coisas gravíssimas, há mais propensão da pessoa viciada a ter ideação suicida!”. Temos de ser menos piegas (ou wokes, se quiserem), se queremos um país próspero, e se queremos respeitar o princípio basilar de uma sociedade: o direito ao lucro máximo dos casinos e casas de apostas. “Mas estás-te a passar, Faro? Já viste como até já há montes de menores completamente viciados?”. Vocês agarram-se muito às coisas chatas, quando o saldo é tão positivo. Principalmente o dos donos destas empresas e dos influenciadores e artistas que lhes fazem publicidade.
Portanto, o meu apelo nem é que não se faça nada (como não se está a fazer) para travar esta absoluta demência em nome do lucro (incluindo o do Estado), pelo contrário. Entre raspadinhas, casas de apostas e casinos legais e ilegais, o importante é desregular ainda mais, incentivar ainda mais, deixar que estas empresas dominem tudo.
Num país onde cada vez mais gente está desesperada para pagar a renda e as contas, para ter mínimos de uma vida decente, por favor carreguem no acelerador desta ilusão de que vão enriquecer com apostas e roleta russa. Se é para irmos quase todos para o inferno à conta do lucro de muito poucos, mais vale despachar isto.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.