O sexo regressou ao cinema. Não em versão higienizada, com lençóis brancos, suspiros aprovados pelo departamento jurídico ou dos coordenadores de intimidade e atores a despirem-se como quem assina uma escritura. Regressou ridículo, excessivo, cómico e cheio de má educação. Em I Want Your Sex, Gregg Araki volta à longa-metragem doze anos depois de Pássaro Branco (White Bird in a Blizzard) de 2014 e entra pela sala dentro como aquele convidado que chega atrasado, muda a música e pergunta por que razão toda a gente deixou de se tocar.
Araki já filmava adolescentes perdidos, bissexuais, apocalípticos e furiosamente vivos quando Hollywood tratava a homossexualidade como doença ou oportunidade para um Oscar. Totally F**ed Up* (1993), The Doom Generation (1995) e Nowhere — um exclusivo Netflix de 2023 — eram cocktails Molotov com banda sonora shoegaze. Agora regressa menos punk, mas ainda indecente o suficiente para incomodar uma indústria que descobriu todas as identidades possíveis e, pelo caminho, perdeu a libido.
O rapaz do podcast e a mulher do chicote
Elliot, interpretado por Cooper Hoffman, é um jovem sem dinheiro, sem rumo e com o projeto existencial mais deprimente do nosso tempo: lançar um podcast. Tem uma namorada, Minerva, vivida com secura glacial por Charli XCX, mas a relação possui a temperatura erótica de uma missa. Tudo muda quando é contratado por Erika Tracy, artista contemporânea, estrela mediática e dominadora profissional quando lhe apetece.
Olivia Wilde entra como se Miranda Priestly tivesse trocado a alta-costura por látex e decidido que os recursos humanos eram uma modalidade de preliminares. Erika contrata Elliot para colar pastilhas elásticas numa vagina gigante, pintar falos e ajudar a manter de pé uma carreira construída sobre uma ideia plausível: a arte contemporânea é muitas vezes o talento de convencer milionários de que uma masturbação cara é uma reflexão sobre o capitalismo. Depois, promove-o. Não a diretor criativo. A escravo sexual.
A relação transforma-se numa guerra de gerações. Erika considera os jovens cautelosos, assustados e policiados pelo telemóvel. Elliot responde que cresceu entre pandemia, pornografia digital, vigilância social, medo da rejeição e a possibilidade de qualquer desastre íntimo acabar filmado. Ambos têm razão, o que é mais interessante do que um filme decidido a distribuir certificados de virtude. Araki assume que a discussão sobre a alegada falta de sexo da Geração Z é uma das provocações centrais do filme, não propriamente uma tese científica com chicote e bibliografia.
Consentimento, chicotes e recibos verdes
I Want Your Sex brinca com a fronteira entre libertação e abuso, prazer e manipulação, desejo e hierarquia laboral. Erika manda; Elliot aceita porque é um alívio não ter de decidir nada. A frase vale para o sexo, mas também para a geração das aplicações que escolhem a música, o jantar, o percurso, o parceiro e, se for preciso, a personalidade. Araki pergunta se a submissão é uma fantasia ou apenas a forma erótica do cansaço contemporâneo.
O filme abre com Elliot ensanguentado, de lingerie cor-de-rosa, diante do corpo nu de Erika a boiar numa piscina. É uma espécie de Sunset Boulevard, um clássico do cinema, mas depois de uma noite num sex shop. A narrativa recua “nove semanas e meia”, pisca o olho a Adrian Lyne e organiza-se como um policial absurdo, com Margaret Cho e Johnny Knoxville a interrogarem o rapaz. Araki mistura comédia erótica, noir de plástico, sátira ao mercado da arte e romance BDSM de papéis invertidos.
Nem tudo funciona como deve ser. Quando precisa de transformar os jogos sexuais numa intriga criminal, o filme parece uma festa que continua depois de acabarem as bebidas. As reviravoltas rangem, algumas personagens são bonecos de néon e o terceiro acto procura consequências morais para uma história que passou hora e meia a gozar com a moral. Araki é melhor a criar atmosferas e acidentes emocionais do que a fechar enredos.
Olivia Wilde, a grande obra exposta
O centro do filme é sem dúvida Olivia Wilde num novo e brilhante papel depois da sua dupla função em O Convite. Erika podia ser apenas uma caricatura de dominatrix, mas Wilde transforma-a numa instalação artística viva feita de narcisismo, inteligência, crueldade, humor e uma ternura que a personagem preferia negar sob juramento. É uma interpretação camp, enorme e artificial, como se Norma Desmond de Sunset Boulevard, Madonna e uma diretora de galeria com alergia a pobres tivessem sido fechadas no mesmo corpo.
Cooper Hoffman oferece-lhe o contraste perfeito. Tem a vulnerabilidade trapalhona do pai, o incrível e malogrado Philip Seymour Hoffman, mas sabe usar o desconforto e o corpo como matéria cómica. Elliot quer ser degradado, mas também quer casar, ter filhos e transformar uma relação sadomasoquista num catálogo doméstico. É aí que o filme acerta: ninguém é apenas moderno na cama e tradicional na cozinha. O desejo não respeita coerências ideológicas.
Gregg Araki não fez, nem quer fazer uma nova revolução sexual. Fez algo talvez mais útil: uma comédia obscena sobre uma época que fala interminavelmente de sexo, identidade e limites, mas parece aterrorizada perante a possibilidade física de duas pessoas se desejarem e fazerem umas brincadeiras perversas, mas ao mesmo tempo inofensivas. O filme não despreza o consentimento; despreza a ideia de que viver consiste em eliminar todo o risco, embaraço ou contradição.
É desigual, berrante, pueril, frequentemente hilariante e menos perigoso do que julga. Mas possui aquilo que falta a demasiado cinema contemporâneo: pulso, tesão e coragem para ser inconveniente. Araki regressa é verdade, sem a raiva nuclear dos anos 90, mas ainda com vontade de incendiar a sala de cinema. Hoje, isso já parece quase pornográfico.