Durante séculos, a História escreveu-se devagar. Quem a contava tinha estado lá, ou tinha falado com quem esteve, ou tinha passado uma vida a estudar o que lá se passou. Podia errar, e errou muitas vezes, mas errava dentro de um ofício: havia relatos recolhidos no local, documentos, testemunhas, datas, e havia sobretudo tempo entre o acontecimento e a narrativa, tempo para verificar, para contradizer, para corrigir. Os livros de História do futuro já não se escrevem assim. Escrevem-se num telemóvel, em tempo real, por quem não estava lá, não conhece o assunto e não tem obrigação nenhuma de acertar.
Vi as imagens de Ceuta como toda a gente: no telemóvel. Dezenas de milhares de pessoas atiradas ao mar num só dia. Não foi espontâneo: nas semanas anteriores, tinha circulado nas redes sociais marroquinas uma versão deformada de uma decisão do Tribunal Supremo espanhol, transformada na promessa de que quem conseguisse nadar até Ceuta já não podia ser devolvido. Sessenta mil pessoas não se levantam num dia e decidem, todas ao mesmo tempo, atirar-se à água. Alguém lhes disse que podiam. Num ecrã. E morreu-se por causa disso: as contagens apontam para dezenas de mortos, afogados a tentar alcançar uma promessa que nunca existiu. Foi uma mentira partilhada em ecrãs que pôs aquela gente a caminho, e foram ecrãs que, horas depois, já vendiam as imagens do desespero como prova de uma “invasão”, em Camp David, nas televisões americanas, nas contas da ultradireita europeia. A mesma tecnologia serviu para empurrar as vítimas e para as acusar.
Nós já sabemos o que as redes sociais fazem às crianças e aos adolescentes. Está estudado, medido, documentado: a ansiedade, a comparação permanente, a dependência desenhada ao milímetro por quem lucra com ela. Sabemos o que fazem às mulheres, transformadas em alvo preferencial do ódio organizado. Sabemos o que estão a fazer a uma geração de rapazes, convencidos por vendedores de ressentimento de que a culpa da sua solidão é das mulheres terem estudado, trabalhado e deixado de pedir licença. Sabemos tudo isto há anos, está tudo dito à boca cheia, e continuamos a tratar cada escândalo como surpresa. Mas há um dano mais fundo e menos falado: as redes estão a substituir-se aos lugares onde se aprendia o que é verdade.
Porque é isto que mudou. A criança que hoje quer saber o que se passou em Gaza, em Ceuta ou na última guerra não abre um livro nem pergunta a um professor: abre uma aplicação. E do outro lado não está um historiador, nem um jornalista, nem sequer uma testemunha. Está, com sorte, um curioso de boa-fé. Sem sorte, está alguém a quem pagaram a viagem. Porque é assim que hoje se encomenda a narrativa: vendem-se bilhetes de avião e estadias em hotéis de cinco estrelas a gente sem qualquer conhecimento da matéria, para contar a história que determinados governos querem que se conte. Fizeram-no com criadores de conteúdo portugueses levados a Israel, como foi amplamente noticiado. Fazem-no outros Estados, com outros rostos e outras piscinas. O produto final tem sempre o mesmo formato: um sorriso bronzeado a explicar geopolítica entre o pequeno-almoço de buffet e o pôr-do-sol, de regresso a casa com o rei na barriga e a factura paga por quem aparece bem na fotografia.
A China, que raramente serve de exemplo em matéria de liberdades, percebeu o tamanho do problema antes das democracias. Desde o outono passado, quem quiser falar online de medicina, direito, finanças ou educação tem de provar que percebe do assunto: diploma, licença profissional, credencial verificada pela plataforma. Sem qualificação, não há publicação. Apetece aplaudir, e é aí que está a armadilha. Porque o mesmo quadro regulatório proíbe criticar o Partido, “distorcer” a sua liderança ou tocar em assuntos considerados sensíveis. Ou seja: o regime que exige saber para falar de finanças é o mesmo que proíbe saber de mais quando o assunto é o próprio poder. A resposta autoritária não é o caminho, e eu não a quero cá. Mas o diagnóstico que lhe está por baixo devia envergonhar-nos: uma ditadura olhou para o charco da desinformação e agiu, mal, mas agiu, enquanto as democracias assinam códigos de conduta para inglês ver e esperam que a autorregulação faça o resto. Sabemos como acaba, à míngua de regras, quem espera que os mercados se regulem a si próprios.
E é este material, este e não outro, que vai formar a memória coletiva das próximas décadas. Os manuais escolares demoram anos a escrever-se; um vídeo demora segundos a chegar a um milhão de crianças. Quando os historiadores do futuro quiserem estudar este tempo, hão de encontrar os arquivos, os jornais, os documentos oficiais. Mas as pessoas que hoje têm doze anos não vão esperar por eles. A versão dos acontecimentos com que crescem está a ser escrita agora, por ignorantes com patrocínio, e a ignorância patrocinada tem uma vantagem desleal sobre o conhecimento: não tem dúvidas, não tem notas de rodapé, não tem contraditório. Tem luz boa e música de fundo.
E que fique claro: não escrevo isto do alto de sapiência nenhuma. Eu própria só posso falar com propriedade do que estudei e do que vivi, e é exatamente esse o ponto: saber onde acaba o que sabemos era, até há pouco tempo, a base mínima de qualquer conversa séria. Foi essa base que as redes dissolveram, ao pagar melhor a quem nunca teve essa dúvida.
A História continua a escrever-se. A pergunta é só quem segura a caneta. E neste momento, a caneta está na mão de quem aceita segurá-la em troca de um bilhete de avião.
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