Devemos ser paternalistas com os idosos.
O que os idosos precisam não é de paternalismo mas de serem tratados com respeito e olhados com atenção. A atitude paternalista para com os idosos observa-se constantemente em serviços de saúde, no comércio, e no atendimento ao público. Paternalismo não é respeito, é uma espécie de benevolência condescendente no exercício da autoridade. Os dicionários definem-na como uma assunção de autoridade segundo a qual quem a detêm deve desempenhar sobre os outros um papel análogo ao do pai na relação com os filhos pequenos.
Na realidade, é uma forma encapotada de falta de respeito pelo outro, uma menorização forçada da pessoa, uma desconsideração. É olhar o outro de cima para baixo. Mas há coisas piores do que isso. Há a violência doméstica sobre os mais velhos, e em tempos um político da nossa praça falava em público da “peste grisalha”, em plena deriva idadista…
A chamada terceira idade é uma massa homogénea.
Nada mais falso. Os idosos não são uma massa homogénea, cada um é uma pessoa diferente. A tendência de quem define as políticas destinadas a esta faixa etária vem muito na linha de encarar os seniores como uma massa indistinta. Pelo contrário, cada vez mais os indivíduos em idade avançada são diferentes entre si, nos estudos, na cultura, nas competências, vivências e experiência de vida, o que faz deles seres humanos únicos e dificilmente enquadráveis em estereótipos pré-definidos pelos teóricos.
Saindo da vida ativa, os velhos são um peso morto.
Só se a sociedade for tola e não os souber aproveitar. As pessoas têm um valor intrínseco em si mesmas. Olhá-las apenas numa perspetiva economicista é desumanizá-las. Além disso os idosos são portadores de valor económico, dada a sua experiência, que é um valor caro que não se pode comprar, nem é mero conhecimento que se adquira na escola ou na universidade. As culturas mais tradicionais sabem-no bem, por isso valorizam muito os mais velhos. Os instrumentos contemporâneos de partilha de conhecimento (internet, IA) nunca poderão substituir a experiência de vida, porque é desta que se faz a sabedoria e não daquele.
Há dias tive oportunidade de estar presente na celebração dos 20 anos da criação da RUTIS (Rede das Universidades da Terceira Idade), em Almeirim, respondendo ao amável convite da organização, entidade que tanto tem contribuído para promover o envelhecimento ativo em Portugal. As universidades seniores (UTI) têm vindo a crescer rapidamente no país e até nas comunidades portuguesa no estrangeiro, graças à visão, à dinâmica e ao excelente trabalho da RUTIS, encabeçada por um homem incansável, o meu amigo Prof. Luís Jacob.
Após um ano e meio de gestação, fundei, em 2003, com um pequeno grupo, a Universidade Sénior de Setúbal, que dirigi e da qual fui reitor durante os primeiros dez anos. Foi uma “aventura” fantástica. Servimos de inspiração ou demos origem a outras universidades noutros pontos do País e chegámos a ser considerados por muitos como uma das melhores UTI em Portugal. Durante alguns anos tive ainda a honra de presidir à Reunião Magna da RUTIS, um encontro nacional de trabalho com todos os dirigentes das UTI, o que agora foi lembrado com carinho.
Por alguma razão, os princípios da aprendizagem ao longo da vida e do envelhecimento ativo partiram da sociedade civil e não dos poderes públicos. As universidades seniores constituem talvez a única resposta social eficaz para os cidadãos mais velhos que mantêm qualidade de vida. Normalmente só se pensa em lares, centros de dia e apoio domiciliário, mas cada vez mais existe uma faixa populacional muito significativa que tem plena autonomia física e mental e que as pretende manter o mais possível.
As UTI surgiram na sociedade civil e têm vindo a crescer rapidamente em todo o País porque são necessárias. Boa parte delas surgiu sem apoios oficiais nem empresariais, apenas por esforço e carolice de visionários que lutaram pelo projeto.
Hoje, já começam a surgir outras respostas das autarquias embora pontuais e algumas juntas de freguesia e câmaras municipais apoiam estas instituições, ao ver os seus resultados em termos de saúde pública, visto que diversos estudos académicos comprovam o seu grande sucesso em termos de promoção da saúde mental e emocional. Antes assim.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.