Ao longo das últimas duas décadas, Adalberto Ribeiro tornou-se uma das figuras mais influentes na divulgação do blues em Portugal. Enquanto programador e produtor cultural, tem estado ligado a alguns dos principais festivais nacionais dedicados ao género e desempenhado um papel ativo na aproximação do circuito português ao panorama europeu. É também o responsável pela direção artística do Porto Blues Fest, que apresenta um cartaz no qual se cruzam bandas históricas, como os Ten Years After, com projetos nacionais e internacionais emergentes. A programação mantém ainda a aposta na formação de novos músicos, através do Palco Youth, e reforça a vertente ambiental do festival, confirmando uma identidade construída muito para lá dos concertos. Nesta entrevista à VISÃO Se7e, Adalberto Ribeiro reflete sobre a evolução do blues em Portugal e os desafios de manter o género vivo e em constante renovação.
Como avalia a evolução do interesse do público português pelo blues?
A evolução tem sido muito positiva e é, para quem acompanha o blues há tantos anos, um motivo de enorme satisfação. O público português foi descobrindo o blues, percebendo que não é apenas a música das suas origens, mas um género vivo, em constante evolução, capaz de emocionar pessoas de todas as idades e de influenciar grande parte da música que ouvimos hoje. Mas este crescimento não é mérito de uma só pessoa. É o resultado do trabalho de muitos promotores, músicos, associações, festivais, salas de espetáculos e agentes culturais que, ao longo de décadas, acreditaram no blues e tiveram a coragem de apostar nele quando era um género praticamente ausente da programação cultural. Há cerca de 20 anos, existiam, provavelmente, apenas três ou quatro festivais dedicados ao blues em Portugal e era muito raro ver este género integrado na programação dos teatros. Hoje, a realidade é bastante diferente, e ainda bem. Há mais festivais, mais concertos, mais espaços a receber artistas nacionais e internacionais e, acima de tudo, um público cada vez mais interessado e informado.
E o que mudou, em concreto?
Esse crescimento refletiu-se também na criação artística. À medida que surgiram mais oportunidades para tocar ao vivo, começaram a aparecer mais bandas portuguesas e verificou-se uma mudança muito interessante: muitas deixaram de ser essencialmente bandas de covers para passarem a compor música original. Isso é um sinal claro de maturidade. Significa que o blues deixou de ser apenas um género que se interpreta para passar a ser também um género que se cria. Ainda há muito caminho para percorrer, naturalmente, mas acredito que hoje o blues ocupa um lugar muito mais sólido e respeitado no panorama musical português do que ocupava em 2006. E isso deve-se ao trabalho persistente de muitas pessoas que nunca deixaram de acreditar que este género tinha público e tinha futuro em Portugal.
O que procura numa programação para que o festival continue a conquistar novos públicos sem perder a sua identidade?
Desde a primeira edição, o Porto Blues Fest teve uma preocupação muito clara: ser uma montra da diversidade do blues. Não é um género uniforme, engloba diferentes sonoridades, influências e formas de expressão. Por isso, procuramos construir uma programação que represente essa riqueza, para que exista sempre um concerto ou um artista com o qual cada pessoa possa identificar-se. Nunca programamos a pensar apenas nos grandes nomes ou apenas nas novidades. O objetivo é encontrar um equilíbrio entre artistas históricos, que ajudaram a construir a história do blues, e músicos emergentes que estão a escrever o seu futuro. Essa combinação é essencial para manter o género vivo e para despertar a curiosidade de quem talvez esteja a assistir a um festival de blues pela primeira vez. Se há algo que o Porto Blues Fest conquistou ao longo dos anos foi a confiança do público. Muitas pessoas compram bilhete antes mesmo de conhecerem todo o cartaz, porque sabem que vão ouvir boa música. Essa é, talvez, a maior responsabilidade que temos: manter um padrão de qualidade elevado, independentemente da notoriedade dos artistas.
Pode-se dizer que este festival já tem uma identidade própria?
A identidade do festival constrói-se precisamente nessa coerência. Não procuramos seguir modas nem programar em função do que é mais mediático. Procuramos artistas que tenham autenticidade, qualidade e algo para dizer em palco. Quando isso acontece, o público sente-o, regressa e recomenda o festival a outros. É assim que se conquistam novos públicos sem perder a identidade: mantendo a qualidade como principal critério e mostrando que o universo do blues é muito mais vasto, diverso e atual do que muitas pessoas imaginam.
O festival tem vindo a reforçar a aposta na formação, através do Palco Youth e da parceria com a Little Steven Blues School. Até que ponto considera que o futuro do blues depende da criação de oportunidades para as novas gerações de músicos?
Acredito que o futuro do blues depende, em grande medida, da capacidade que tivermos para criar oportunidades reais para as novas gerações. Não basta dizer aos jovens que o blues é importante; é preciso dar-lhes palco, experiências e motivos para acreditarem que vale a pena fazer blues.Foi precisamente com esse objetivo que estabelecemos uma parceria com a Academia de Guitarra do Porto. Todos os anos, o melhor aluno tem a oportunidade de representar Portugal na Little Steven Blues School, em Notodden, na Noruega, uma experiência única de formação e partilha com jovens músicos de vários países. Além disso, outro aluno sobe ao palco do Porto Blues Fest para tocar uma música com o cabeça de cartaz do festival. Para um jovem músico, essa experiência pode ser transformadora e marcar o início de um percurso artístico.
No ano passado demos mais um passo com a criação do Palco Youth, que permite a três bandas de jovens músicos apresentarem o seu trabalho perante o público do festival. Queremos que estes artistas sintam que existe um espaço onde o seu blues é valorizado e onde podem crescer. O nosso objetivo vai muito além de criar oportunidades de atuação. Queremos incentivar estes jovens a compor, a encontrar a sua própria identidade e a contribuir para a evolução do género. O blues sempre viveu da capacidade de se reinventar, e isso só acontece quando surgem novos músicos, novas ideias e novas sonoridades.
É também uma forma de chegar a um público mais jovem?
Sim, porque é esse “sangue novo” que permitirá manter o blues relevante e aproximá-lo de públicos cada vez mais jovens. Esperamos que, já a partir da próxima edição, a décima do Porto Blues Fest, possamos receber no palco principal uma banda saída desta aposta na juventude e que essa seja apenas a primeira de muitas. Esse será um sinal de que estamos a cumprir a nossa missão: criar um percurso para os jovens músicos, mostrando-lhes que existe um espaço onde podem apresentar o seu trabalho, desenvolver a sua identidade artística e acreditar que vale a pena criar o seu próprio blues. Se conseguirmos contribuir para que uma nova geração de músicos renove o género e traga novos públicos para o blues, então teremos deixado um legado muito para lá da organização de um festival.
Que concertos destaca na edição deste ano do Porto Blues Fest?
Naturalmente, os Ten Years After são um dos grandes momentos do festival. São uma banda histórica, com um legado incontornável no blues rock e na história da música, e é um privilégio recebê-los no Porto. Tenho também uma enorme expectativa em relação aos Peter Storm & The Blues Society. Representam muito bem a qualidade do blues que se faz atualmente em Portugal e demonstram que existem projetos nacionais capazes de subir ao palco principal de qualquer festival internacional. Mas seria injusto não destacar também os Dede Priest & Johnny Clark’s Outlaws, com a sua intensidade e a sua autenticidade, e os italianos Cosimo and The Hot Coals, que trazem uma abordagem muito própria, cruzando o blues com o ragtime e o swing.
Enquanto programador, que acompanha de perto o circuito europeu de blues e tem estado envolvido no European Blues Challenge, como vê o lugar de Portugal?
A evolução de Portugal no panorama europeu do blues tem sido extraordinária. Desde 2016, quando os Budda Power Blues representaram Portugal no European Blues Challenge, como a primeira banda portuguesa a participar nesta competição, muita coisa aconteceu. Hoje, acredito que a Europa conhece e reconhece a qualidade do blues que se faz em Portugal. Ao longo destes anos, as bandas portuguesas conseguiram classificações muito honrosas, entre as quais se destacam dois terceiros lugares, alcançados por Vítor Bacalhau e pelos Kiko & The Blues Refugees. Mas, mais importante do que as classificações, foi a visibilidade que estas participações deram aos nossos músicos e a credibilidade que Portugal conquistou junto da comunidade europeia do blues. Tive também o privilégio de organizar, em parceria com diferentes entidades, três edições do European Blues Challenge: em 2019, em Ponta Delgada, em parceria com o Santa Maria Blues; em 2024, em Braga; e este ano, em Katowice, na Polónia, em parceria com o Budda Guedes. Em 2027 teremos novamente a honra de organizar o European Blues Challenge, desta vez em Vila do Conde, em parceria com o Renato Dias e o Villa Sessions. Isto demonstra bem a confiança que a European Blues Union deposita na capacidade organizativa de Portugal.O impacto destas participações vai muito além do próprio concurso. Hoje vemos bandas a realizarem digressões internacionais com regularidade e músicos portugueses convidados para projetos europeus de enorme qualidade e responsabilidade artística. Um exemplo muito significativo é o nascimento dos Blues Against The Machine, a primeira banda verdadeiramente europeia de blues, formada precisamente graças às relações criadas no European Blues Challenge. O projeto reúne o Budda Guedes como vocalista e guitarrista, Vasco Moura no baixo, Bart Szopinski, da Polónia, nos teclados, Danny del Toro, de Espanha, na harmónica, e Nico Tacconi, de Itália, na bateria. É um excelente exemplo de como Portugal deixou de ser apenas um participante para passar a assumir um papel de liderança em projetos internacionais.
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