Poucas coisas neste mundo dão maior sossego do que entretermo-nos com os mortos. Entre nobiliários, assentos paroquiais e jazigos de família, o entusiasta da genealogia está com Deus. Literalmente. Há silêncio; tudo o que havia a dizer já foi dito. Mas quando se dá o caso de ter de andar atrás de quem está vivo, aí é que as coisas se complicam. O genealogista apresenta-se e a primeira coisa que vem à cabeça da outra pessoa será quase tudo menos estar diante de alguém que trabalha com os métodos de uma ciência auxiliar da História. Soa pomposo, eu sei, mas quase tudo soa pomposo quando se trata de genealogia.
A reacção mais comum, por nenhuma ordem em particular, será uma das seguintes: ou o genealogista é tomado por um subtipo bafiento de abelhudo, ou por um projecto de aristocrata, ou então por alguém a quem a vida não deu ocupação mais urgente.
Devemos reconhecer, com a humildade possível, que isto é tudo um bocado verdade. Muitas vocações começam mesmo por uma mistura de tédio, vaidade e desarranjo moral. E, quanto à bisbilhotice, a genealogia — bendita seja — é muito simplesmente a forma científica de ordenar o impulso de querer saber da vida dos outros.
O problema é que esta definição, conquanto verdadeira, é radicalmente insuficiente. A parteira trata da vida e o cangalheiro trata da morte. (Quanto aos padres, ainda continuam a tratar de tudo.) O genealogista, porém, anda de uma margem para a outra. Carrega informações entre os vivos e os mortos. Não atravessa o Estige de túnica — em princípio, usa óculos de leitura —, mas é, à sua maneira, um psicopompo burocrático.
Os mortos dizem-lhe quem foram através de papéis que já ninguém sabe ler. Os vivos acrescentam o que sabem. E o genealogista pega nessas coisas todas, organiza o melhor que pode e deixa tudo preparado para ser recebido por quem ainda não nasceu.
Ser genealogista é a última das ocupações encantadas. E é lindo.
Claro que nada disto cabe num telefonema. Perante o inquirido — na maior parte das vezes, tragicamente, um primo —, o genealogista desenrasca-se como consegue.
— Estou a fazer um levantamento genealógico.
Silêncio.
Quando corre bem, é uma maravilha. Conhece-se gente, entra-se em casas onde nunca se tinha entrado e, muito depressa, das datas e dos lugares salta-se para a verdadeira literatura. Ficamos a saber quem fugiu e quem ficou, quem perdeu tudo e quem se safou, quem casou contra a vontade dos pais e quem acabou por perdoar. E então as entradas genealógicas transformam-se em pessoas de carne e osso. (E o genealogista com queda para escrever descobre as minas de Salomão.)
Mas quando corre mal é a angústia do cromo impossível.
— Pois, mas prefiro não aparecer.
“Não aparecer”, neste contexto, não significa impedir a publicação de um segredo. Significa dizer: “Este casal teve três filhos, mas só dois podem ser nomeados” e abrir uma falha na cadeia começada por Adão e Eva.
Como dizê-lo? Há hoje um equívoco sobre a privacidade que é preciso desfazer. Julga-se, sabe-se lá porquê, que ser pessoa é possuir uma espécie de cofre individual, fechado por dentro, no qual ninguém pode tocar — o que, numa época em que tudo o que nos diz respeito está espalhado pela internet, não deixa de ser cómico. Ora, o homem é tudo menos isso: é uma criatura pública, mesmo que se julgue sozinho. E, ainda que muitos já dispensem a entrada solene no mundo dos outros que o baptismo representa, continuam a fazer-se registos públicos.
Daí que quem pede para não ser incluído numa genealogia não esteja a defender a “privacidade”, seja lá o que isso for neste caso, mas a dizer: “Finja que eu nunca existi”. Ora, o nome que se recebe não é para fins pessoais, só existe porque há alguém que nos chama. O nome de um pai pertence ao filho que um dia quiser saber de onde veio. O nome de uma irmã pertence à memória dos irmãos. Uma pessoa não pode, sem violência, obrigar os outros a fingirem que ela não fez parte da vida deles.
Isto é, no fundo, o exercício de um poder unilateral sobre quem ainda não existe para o contestar. Aquele que pede para desaparecer julga estar a defender-se da curiosidade dos contemporâneos quando, na verdade, está a remover-se antecipadamente da companhia dos mortos, deixando aos vindouros um buraco com a forma de uma pessoa.
Mais do que meter o nariz na vida alheia, o genealogista mete as mãos no olvido. É disso que se trata. Uma profissão moderna recolhe dados. Contra o esquecimento, o genealogista recolhe vestígios: um nome num assento, uma data numa lápide, a memória trémula de uma prima de noventa anos. Mas isso, como se compreende, é o que ainda resta de um mundo encantado que deixou de existir.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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