Há pouco menos de quatro anos, Luís Montenegro, o Chega, a Iniciativa Liberal, o Bloco de Esquerda e grande parte da comunicação social condenavam os anteriores governos duramente e sem freios por variadíssimas razões: Portugal crescia bem menos do que podia, o executivo havia respondido mal à crise inflacionista, a educação estava estagnada, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) pós-Covid e em linha com os melhores da Europa nesse contexto era apelidado pelo atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, de um pandemónio ou um caos constante. E os desígnios de crescimento económico, da melhoria da qualidade de vida e da redução da dívida pública não valiam, para eles, como estratégia digna desse nome para o País.
Em suma, a oposição e o espaço público já não aguentavam António Costa e os “casos e casinhos” dos seus ministros.
Vaticinava-se que muita coisa se resolveria rapidamente, porque, ao contrário de grande parte das legislaturas nas últimas décadas (interrompidas ou não), se herdava uma excelente situação financeira: um PRR bem negociado, cofres do Estado mais recheados do que o habitual e caminho aberto em todas estas áreas. Não interessava muito aludir a esta última parte, mas era indesmentível. Tal como é hoje indesmentível que se falhou em toda a linha no que se prometeu.
Em dois anos, o populismo dos tempos ditou que a agenda do Chega merecia mais atenção do que tudo o resto. Que era urgente interromper uma reconfiguração estrutural em curso no SNS, e que a palavra “reforma” – fosse esta benéfica, prejudicial, indiferente ou terrível para a maioria dos portugueses – passou a representar todo um programa político, desinteressado do tempo, do modo e das consequências como se vê hoje na educação. O mais curioso é observar quem era tão severo, ontem, com os problemas e falhanços do País, quase sempre num contexto mais exigente e com consequências bem menos graves, e é hoje tão compreensivo e desculpabilizante com o “genial” ministro Fernando Alexandre. Quem os ouviu ontem e quem os ouve hoje mal reconhece a mesma voz.
Bem diferente é o caso do ministro da Administração Interna, Luís Neves, em que também vale a pena traçar um paralelismo com os governos anteriores. Podem os factos vir a desmentir-me, mas os ataques ad hominem e a campanha movida contra alguém que, num dado momento, terá agido com alguma leviandade administrativa, configuram um julgamento mediático sem processo, sem prova e sem defesa. É uma das campanhas mais vis e mais orquestradas contra o alvo número um do partido Chega e de grupos como o Movimento Armilar (que também visou “peixe” pequeno como eu), campanha que acabou por incluir a invasão da sua propriedade privada, drones por todo o lado, e uma jornalista que não quis perceber, vá-se lá saber porquê, os mínimos olímpicos sobre essa realidade, e avançou ali ao deus-dará.
Não se deve nunca confundir escrutínio e investigação jornalística exigível e necessária com falta de critério e de deontologia, deixando expor uma falta de noção sobre o cuidado redobrado que se exige hoje ao invadir a casa de um ministro da Administração Interna. E interessará pouco ao País e ao jornalismo português, julgo eu, que acabe tudo em mais um pedido de desculpas público, como aconteceu depois de uma visão ultrarromanceada e falseada, na altura sobre a Operação Influencer.
Em suma, o contraste não podia ser mais claro: acusa-se o outro de não decidir, e depois decide-se pior, mais tarde, ou não se decide de todo. Acusa-se o outro de gerir sem rumo, e depois governa-se sem bússola visível. A ambição que se prometia ficou-se pelo discurso da tomada de posse.
No fim, percebe-se que o verdadeiro programa político era e é a mudança de critérios.
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