Há momentos na vida em que uma música nos encontra antes de percebermos porquê. Foi isso que me aconteceu ao ouvir Matilda, de Harry Styles. Não tanto pela história que conta, mas pela pergunta que deixou a ecoar em mim: em que momento começámos a acreditar que o nosso valor depende daquilo que fazemos, conquistamos ou mostramos aos outros?
Esta aprendizagem começa muito antes do que imaginamos. Ainda em crianças, perguntam-nos o que queremos ser quando formos grandes. A pergunta parece inocente, mas carrega uma ideia curiosa: não nos perguntam quem somos, o que nos desperta curiosidade, o que nos entusiasma ou que mundo gostaríamos de ajudar a construir. Perguntam-nos o que queremos vir a ser – profissionalmente –, como se a nossa identidade estivesse sempre projetada para um futuro onde, finalmente, seremos “bons o suficiente”.
Anos mais tarde, o foco orienta-se para as notas, os exames, a universidade, o curso “com saída”, o primeiro emprego, a estabilidade, o salário, o cargo, o reconhecimento. Nada disto é mau. Torna-se nocivo quando deixamos de distinguir aquilo que fazemos daquilo que somos – quando o sucesso deixa de ser consequência do nosso percurso para passar a ser a medida do nosso valor.
É por isso que, quando um/a jovem escolhe um curso, a primeira pergunta continua a ser quase sempre a mesma: “Mas isso tem saída?” Vivemos num tempo em que a estabilidade económica importa, e essa preocupação é legítima. O que me inquieta é que tantas vezes essa se tornou a única pergunta. Como se o conhecimento tivesse de provar o seu valor apenas pelo retorno (económico) que gera.
Capacidade de aprender a pensar
Confesso que, principalmente quando entrei na universidade, também senti esse peso. Desde muito jovem gostei de Economia, influenciada pela conjuntura que se vivia em Portugal: uma das maiores crises económicas e a entrada da Troika no País. Foi um período marcante para compreender a Economia na sua essência, desde os conceitos de dívida, défice, crescimento, inflação e desemprego até à utilização de modelos econométricos.
Ainda assim, o meu percurso pela universidade mostrou-me que a Economia ensinada nos manuais é apenas a ponta do icebergue de tudo o que realmente importa compreender. O maior presente que recebi não veio das aulas, mas das conversas nos corredores, dos debates com colegas de outras áreas e da possibilidade de cruzar a Economia com a Gestão, a Ciência Política, a História, as Políticas Públicas e tantas outras disciplinas. Percebi algo que hoje considero evidente: os problemas reais não cabem em gavetas próprias.
A minha universidade tinha uma característica que continuo a valorizar profundamente: era uma universidade “sem muros”. Havia espaço para o diálogo, para a curiosidade intelectual e para descobrir que compreender o mundo exige sempre mais do que uma única perspetiva.
Foi aí que deixei de olhar para a Economia como uma ciência exclusivamente matematizada. Percebi que um/a economista não trabalha apenas com números; trabalha com pessoas, escolhas, territórios, desigualdades e políticas públicas que deveriam transformar vidas. E percebi também que uma boa decisão económica raramente nasce apenas da Economia, mas da capacidade de compreender a complexidade da realidade humana.
Essa foi, possivelmente, a maior aprendizagem que a universidade me ofereceu. Não um conjunto de respostas decoradas, mas a capacidade de aprender a pensar, desenvolver discernimento e reconhecer que a realidade é, quase sempre, menos linear do que imaginamos.
Foi também aí que compreendi que o verdadeiro valor da educação dificilmente se mede numa taxa de empregabilidade. Mede-se na capacidade de sair da nossa bolha, ouvir quem pensa de forma diferente e, ainda assim, saber respeitar; de sustentar uma opinião com conhecimento e evidência; de reconhecer quando estamos errados; de aceitar que mudar de ideias não é uma derrota, mas um sinal de crescimento e maturidade.
Saber escutar antes de responder
Em tempos marcados pela polarização, pela desinformação e pela fragilidade do debate público, esta é uma das responsabilidades mais importantes da educação: não apenas formar profissionais competentes, mas formar cidadãos capazes de pensar criticamente, participar na vida democrática e compreender que nenhuma disciplina, profissão ou ideologia, por si só, explica a complexidade do mundo.
O maior valor da educação não está apenas na profissão que nos permite exercer, mas na pessoa em que nos tornamos. Há conhecimentos que aumentam o rendimento e há conhecimentos que alargam o nosso campo de visão.
A educação oferece-nos algo que dificilmente cabe num indicador estatístico: a possibilidade de nos distanciarmos das crenças e dos padrões que já não nos servem, de questionarmos narrativas que fomos aceitando e de descobrirmos que pensar por nós próprios é, talvez, uma das mais belas formas de liberdade.
Acredito que a universidade deve preparar-nos para o mercado de trabalho, mas espero que nunca se limite a isso. Que continue a ser um lugar onde aprendemos a dialogar, a duvidar, a escutar, a cruzar saberes e a compreender que o mundo é demasiado complexo para caber numa única disciplina ou num só curso.
A pergunta que nos fazem desde crianças nunca esteve totalmente errada, apenas incompleta. Antes de perguntarmos a alguém o que quer ser quando for grande, devíamos ajudá-lo a descobrir quem realmente é. Afinal, a maior missão da educação nunca foi apenas ensinar-nos a ganhar a vida, mas ensinar-nos a compreender a vida.
E é por isso que continuo a voltar a Matilda. Não porque explique estas inquietações, mas porque me recorda de que há questões que merecem ser escutadas antes mesmo de serem respondidas.