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A apresentação da 83.ª edição do Festival de Veneza, que decorre entre 2 e 12 de setembro, terminou há poucas horas, mas começou, curiosamente, não com cinema, mas com dinheiro, política e um lobo. Pietrangelo Buttafuoco, presidente da Bienal, aproveitou a conferência para atacar a Comissão Europeia depois do corte de dois milhões de euros de financiamento, consequência da polémica em torno da presença russa na Bienal de Arte. Invocou a fábula de Fedro, colocou Bruxelas no papel do lobo e a Bienal no lugar do cordeiro, anunciou recurso e garantiu que a instituição não obedecerá a tambores políticos. Uma entrada discreta, portanto. Faltou apenas bater com o sapato na mesa.
Depois chegou Alberto Barbera, mais interessado nos filmes do que na zoologia diplomática, e revelou uma Seleção Oficial com vinte títulos em competição, cinco deles italianos, menos músculo de Hollywood do que os rumores prometiam e personagens cercadas por guerras, regimes, famílias tóxicas, empresas predatórias e abrigos atómicos. Não é uma programação para levantar o moral. É, porém, bastante fiel ao estado do mundo.
A grande notícia talvez seja aquilo que não apareceu. Nada de The Social Reckoning, de Aaron Sorkin, com Jeremy Strong como Zuckerberg. Nada de Here Comes the Flood, com Denzel Washington e Robert Pattinson. Nada de Brad Pitt como Cliff Booth sob a direção de David Fincher. E nada de Tom Cruise a transformar o Lido numa base aérea promocional. Os rumores chegaram de smoking; mas a maioria regressou a casa de roupa informal.
Murdoch abre a porta
A abertura pertence a Danny Boyle e a Ink, adaptação da peça de James Graham sobre a compra do The Sun por Rupert Murdoch e a ascensão do editor Larry Lamb. Guy Pearce interpreta Murdoch, Jack O’Connell será Lamb e Claire Foy completa uma história sobre o momento em que um jornal quase falido percebeu que a indignação, o sexo e o medo vendiam melhor do que a informação. Antes das redes sociais, do caça-cliques e das famílias a discutirem política através de vídeos verticais, Murdoch já compreendera que a realidade não precisava de ser explicada: bastava torná-la excitante, ameaçadora e lucrativa.
A competição italiana é liderada por Nanni Moretti, que regressa ao Lido com Succederà questa notte, depois de décadas de fidelidade — e algumas zangas históricas — com Cannes. O filme reúne Jasmine Trinca e Louis Garrel. Em festivais, a memória é longa, mas uma boa estreia mundial funciona muitas vezes como amnistia.
Andrea Pallaoro apresenta The Echo Chamber, a partir do último projeto deixado por Bernardo Bertolucci, com Luca Marinelli, Alicia Vikander e Susan Sarandon. Marco Bechis regressa aos fantasmas da ditadura argentina em Ritorno a Buenos Aires. Edoardo De Angelis adapta Antonio Franchini em Il fuoco che ti porti dentro, com Vanessa Scalera como uma mãe napolitana capaz de transformar o Natal num cerco militar. Paolo Strippoli completa o quinteto com L’estranea, drama familiar atravessado pelo terror. Cinco italianos em vinte filmes: Barbera não deixou a casa entregue aos hóspedes.
Herzog escava, McDonagh conspira, Zeller esconde-se
Werner Herzog regressa com Bucking Fastard, protagonizado pelas irmãs Rooney e Kate Mara, sobre duas mulheres que escavam uma montanha à procura de um território onde o amor verdadeiro ainda seja possível. Herzog terá recusado Cannes por não lhe oferecer competição. O resultado é coerente: se não lhe dão a Palma, abre um túnel até ao Leão.
Martin McDonagh leva Wild Horse Nine, thriller político passado no Chile nas vésperas do golpe de 1973. John Malkovich e Sam Rockwell interpretam agentes da CIA enviados para a Ilha de Páscoa, acompanhados por Steve Buscemi, Parker Posey e Tom Waits. É um elenco que parece escolhido numa reunião de pessoas a quem nunca se deve entregar a chave de casa.
Florian Zeller encerra a competição com Bunker, reunindo Javier Bardem e Penélope Cruz como um casal instalado em Londres cuja estabilidade é abalada por uma parede aberta pelo vizinho e por uma proposta: desenhar um abrigo nuclear para um multimilionário. Os ricos já não se limitam a beneficiar do desastre; querem estacionamento privado para o Apocalipse.
Destacam-se ainda o regresso do sul-coreano Lee Chang-dong com Possible Love; 15-18, de Cédric Kahn, mergulho numa unidade de psiquiatria adolescente; e Un bon petit soldat, de Stéphane Brizé, novo capítulo da sua autópsia ao mundo laboral, com Alba Rohrwacher e Vincent Lindon. Há também o gigantesco projeto DAU, de Ilya Khrzhanovsky, mais de três horas entre ciência soviética, bomba atómica, poder e submissão. Veneza não pede apenas disponibilidade aos espectadores. Por vezes exige resistência física.
Orizzonti e a maratona documental
A secção Orizzonti apresenta dezanove longas metragens e volta a funcionar como território de primeiras obras, cinemas periféricos e nomes ainda sem direito automático à passadeira principal. A Itália surge com La ragazza con la Leica, de Alina Marazzi, sobre Gerda Taro; La città dei vivi, de Edoardo Gabbriellini; I figli della scimmia, estreia de Tommaso Landucci; e Una storia, primeira realização de Anna Foglietta. A liberdade formal costuma esconder-se melhor nas secções onde há menos fotógrafos.
Fora de competição, Gianni Amelio apresenta Nessun dolore, com Alessandro Borghi, Valeria Golino e Valerio Mastandrea, enquanto Mario Martone adapta Domenico Starnone em Scherzetto, novamente com Toni Servillo. Paul Schrader chega com The Basics of Philosophy, pequena variação sobre culpa, passado e redenção, os três móveis que nunca retirou da sua sala. Lav Diaz regressa às Filipinas coloniais e Kornél Mundruczó dirige Ellen Burstyn em Place to be.
Mas é no documentário que Veneza decidiu testar a bexiga, a coluna e a estabilidade emocional da crítica. Alex Gibney dedica quatro horas a Elon Musk, talvez o tempo mínimo para enumerar as contradições. Luca Guadagnino apresenta cerca de sete horas sobre Bernardo Bertolucci. Há ainda Russell Crowe, os Oasis a ensaiarem a reconciliação, Amos Gitai a regressar ao conflito israelo-palestiniano, Wim Wenders a filmar a arquitetura de Peter Zumthor e um documentário sobre jornalistas de Gaza que continuaram a trabalhar enquanto se tornavam alvos. O mundo arde; o documentário continua a apontar a câmara.
A única série de televisão apresentada no contexto do festival, será Peccato, falso documentário cómico protagonizado por Emanuela Fanelli, imaginada em 2049, esquecida depois de um escândalo misterioso. Até a televisão aparece em Veneza para pensar na própria decadência.
Há uma pequena notícia lusófona: Udju azul di Yonta — Os Olhos Azuis de Yonta, de Flora Gomes, integra Veneza Classics numa cópia restaurada. Cinema português contemporâneo, porém, não aparece na Seleção Oficial. Ficamos representados pela língua e pela memória, o que é bonito, embora não pague a viagem a nenhum realizador nacional. Para já, pois falta ainda a programação das secções paralelas: Venice Days-Giornate degli Autori e Settimana Internazionale della Critica, onde poderemos estar representados. Aguardemos.
Menos Oscar, talvez mais cinema
Esta Veneza 83 parece menos construída como pista de lançamento automática para Hollywood, para os Óscares e mais aberta a uma geografia inquieta do cinema. Há filmes sobre ditaduras, trabalho, guerra, trauma, colonialismo, tecnologia, memória, famílias que sufocam e homens poderosos que fazem buracos nas paredes ou no mundo. O bilionário, o general, o patrão, o sacerdote e a mãe napolitana são modalidades da mesma pergunta: quem manda na nossa vida e quanto custa escapar? Maggie Gyllenhaal presidirá ao júri. George Clooney e Ellen Burstyn receberão Leões de Ouro de carreira. Burstyn surgirá ainda em Flesh Impact, curta de Gyllenhaal que imagina Marilyn Monroe envelhecida, enquanto Dakota Johnson encarna o mito no auge. O festival terminará com Dio ride, de Giovanni Veronesi, sobre um frade cuja forma popular de falar de Deus ameaça o poder da Igreja. Veneza 83 começa, portanto, com Rupert Murdoch e termina com a Inquisição. Pelo meio há Elon Musk, a CIA, a ditadura argentina, um bunker nuclear, a guerra em Gaza e sete horas de Bertolucci. Alberto Barbera talvez não tenha reunido o desfile de estrelas que os rumores prometiam, mas apresentou uma seleção com uma coerência quase involuntária: todos parecem procurar a verdade num mundo especializado em enterrá-la. Agora falta a parte mais inconveniente de todas: como vamos conseguir no festival ver todos estes filmes?