Estou dentro de um carro. No banco de trás. De repente, percebo que não há condutor. Inquieto-me. Salto para o banco da frente, onde me apercebo de que não sei conduzir ou que, sendo ainda uma criança, não consigo ao mesmo tempo ver a estrada e carregar nos pedais. O automóvel avança descontrolado. Sei que vou ter um acidente. Acordo. Sempre antes do embate. Mas sempre com a mesma sensação de ansiedade e falta de controlo. Tenho este sonho recorrentemente há muitos anos. Desde criança, na verdade. A marca e o modelo do carro vão variando, a paisagem também. Mas a sensação é sempre a mesma. E talvez não seja preciso grande psicanálise para se concluir que o meu subconsciente se aflige com as coisas que me escapam ao controlo e que tendo a achar que tenho de assumir responsabilidades, mesmo quando devia deixar-me levar como passageira de uma viagem que se descontrola.
A catadupa de notícias capazes de causar indignação gera uma sensação semelhante à de quem se apercebe de repente que não sabe como controlar um carro que avança desgovernadamente. Há caos nos exames, a água falha em Almada, pequenas cirurgias são retiradas administrativamente da lista de espera por uma portaria, a Câmara Municipal de Lisboa (a cidade onde já não se consegue viver) vende dez terrenos que podiam ser para habitação pública, a mesma câmara gasta milhões em festivais ao mesmo tempo que corta nas refeições escolares, os lucros das petrolíferas engordam e o Governo diz que nada pode fazer sobre o escandaloso preço do combustível a não ser o que já fez (baixar impostos), por todo o território avançam manchas de painéis solares engolindo o verde que anunciam querer proteger, a GNR abre à força caminho por propriedades privadas nas Covas do Barroso para a construção de minas de lítio que vão destruir o modo de vida sustentável que as suas populações querem proteger, em Itália vão poder deter-se menores preventivamente antes de manifestações, em França a polícia passa a ter garantida a presunção de legítima defesa e tem ordem para matar, em Gaza continua o extermínio do povo palestiniano e Trump destrói a democracia enquanto brinca com a vida do mundo no estreito de Ormuz. E estes nem sequer são todos os temas que me fizeram indignar-me nos últimos oito dias.
Por esta altura, o leitor – se ainda não desistiu face ao rol de desgraças – talvez esteja a pensar em como precisamos todos dessa coisa chamada silly season, que nos últimos anos caiu em desuso e que consistia num mês inteiro de férias grandes das notícias importantes, numa espécie de suspensão da realidade. Era como se todas as desgraças do mundo ficassem em suspenso, enquanto rumávamos a sul, para dias de mergulhos e gelados. Era uma ilusão, claro. A ilusão possível apenas para os privilegiados, aqueles que podiam efetivamente tirar férias e esquecer as tragédias, que nem por isso se detinham, só desapareciam da nossa atenção.
Fingir que as coisas não estão a acontecer não as faz desaparecer. E, no entanto, é cada vez mais essa a resposta dos que se sentem atolados numa sucessão de desgraças e emergências, todas igualmente urgentes, todas a acontecer ao mesmo tempo. Essa reação não é um sintoma de fraqueza. Pelo contrário: é a consequência do efeito de impotência que a indústria da indignação, em todas as suas formas, pretende conseguir. Cidadãos que se sentem impotentes, esmagados perante a impossibilidade de reagir face a cada nova indignidade, demitem-se da democracia, refugiam-se na ignorância ou engordam hordas de fanáticos, com vontade de destruir todos os que não pensam da mesma forma, ao mesmo tempo que desculpam qualquer falha aos líderes das suas tribos. “Eles são todos iguais” é a frase que coroa o sucesso desta operação.
Não, não vamos conseguir reagir a tudo isoladamente. Não vamos corrigir as injustiças do mundo uma a uma, desmontar cada gesto de corrupção, violência e arbitrariedade. Mas podemos fazer alguma coisa se começarmos a perceber os padrões. E não é assim tão difícil.
De cada vez que alguém gritar “falha do Estado”, é tentar perceber se ele antes não foi desmantelado para garantir que o seu falhanço se transformava numa oportunidade de negócio. De cada vez que alguém gritar “é a modernidade” ou “não há alternativa”, é tentar ver quais seriam as alternativas que preferiam que ignorássemos e quem lucra com as inevitabilidades decretadas. De cada vez que se defender “o progresso” à custa da destruição do futuro, acusando de egoísmo aqueles que terão de sofrer as suas consequências, é procurar os que enriquecerão com isso, em quintais a salvo desses efeitos. De cada vez que alguém defender a barbárie como solução, é olhar para os que ficarão com os despojos e os que pagarão a fatura da destruição e da morte. De cada vez que alguém se indignar com a “grande substituição”, é pensar em como apoiam e estimulam os nómadas digitais, os unicórnios e os fundos que tornam todos os países plasticamente iguais e indistinguíveis.
O padrão é sempre o mesmo: esmagar a maioria, engordar o poder de uma minoria cada vez mais restrita. E, pelo meio, convencer-nos de que a culpa é nossa, de que somos uns falhados, de que os direitos são uma coisa escassa que é preciso racionar ou, simplesmente, convencer-nos de que as coisas são como são, nunca serão de outra maneira e o melhor é seguir com a vidinha o melhor possível, indiferentes às injustiças, aos atropelos, às corrupções e aos compadrios, ao ódio e à violência.
Sim, também me apetece ir esticar-me num areal, deixar de ler notícias, ouvir apenas o marulhar do mar e mergulhar até sentir os olhos a arder e a boca inchada de sal. Mas também sei que me abster de lutar, encolher os ombros às maldades do mundo, ignorar a injustiça, não irá fazer desaparecer nenhuma dessas coisas. E, um dia, estando à espera de mais uma maré cheia de mergulhos, talvez seja eu a engolida pela onda dos que têm tanta fome de poder que nada os saciará.
É por isso, caro leitor, que vou refrear os meus anseios por esse dolce far niente alienado enquanto o mundo arde. Não me entenda mal. Também eu hei de rumar ao sul, à procura de manhãs que começam no mar e de mergulhos inebriantes até ao sol se pôr. A vida não é uma escolha entre a felicidade e alienação. E é bem possível ser feliz, sabendo que há muito que está mal e ganhando forças e alegria para mudar tudo. Uma coisa de cada vez. mdavim@visao.pt