O líder da extrema-direita britânica, Nigel Farage, recebeu cinco milhões de libras de presente. O pródigo amigo é um multimilionário inglês a viver na Tailândia que enriqueceu no fantástico mundo da criptomoeda.
O Guardian divulgou e o Parlamento inglês decidiu investigar.
Bastava isto para termos assunto. Logo para começar, esta ligação entre o mundo das criptomoedas e os populistas. Os que querem defender o povo contra as elites, os que querem tudo transparente, os que gritam contra os subsídios a quem pouco ou nada tem, são financiados e protegidos por uns tipos com uma riqueza para lá da nossa imaginação, que atuam num mercado opaco que se recusa a ser regulado e que são mestres em não pagar impostos.
Além disso, estas simpatias na forma de muito dinheiro são curiosas. Talvez alguém se lembre de um fenómeno local. Um político que dizia que não havia mal nenhum em receber dinheiro de um amigo enquanto em funções. Já não se pode ter amigos, é? O nosso ex-primeiro-ministro ainda dizia que estaria a passar por dificuldades, o Nigel Farage foi mais descarado e disse com a maior calma do mundo que aquele dinheiro era um presente do amigo para que andasse descansado e que ninguém tinha nada com isso.
A parte de estes dois personagens não terem a mínima noção de ética e de decência na atividade política não é discutível, mas é muito interessante ver como os paladinos da santidade da extrema-direita nacional e internacional olham para os comportamentos de personagens como o Farage e o Trump e para os dos outros. Não consigo, porém, deixar de elogiar os propagandistas dos populistas: conseguir que as pessoas não liguem aos evidentes atos de corrupção ou a gigantescos atropelos éticos destes indivíduos, vendendo ao mesmo tempo que esses são os que nos salvarão da corrupção e da falta de ética, é genial. É verdade que têm meios de comunicação e financiamento ilimitado, mas não deixa de ser um feito.
Voltemos ao Nigel Farage. Como o Parlamento inglês funciona e não é liderado por uma pessoa que pensa que o seu papel é ser uma espécie de moderador de programa da CMTV – Aguiar-Branco podia ser informado das várias expulsões de deputados do Reform UK do Parlamento –, foi aberto um inquérito sobre a prodigalidade do anglo-tailandês das criptomoedas.
O populista seguiu a cartilha: demitiu-se do seu cargo – é deputado por Clacton-on-Sea – para provocar eleições nesse círculo eleitoral.
Não será preciso discorrer sobre o amor da extrema-direita pelo Estado de direito. Fiquemos só pela lembrança de que é a lei e não qualquer maioria que define o que está certo e errado. Mais, há até situações em que a lei não pode prevalecer: se for contra a Constituição e princípios fundamentais de uma democracia.
O que a tal cartilha prescreve é: sempre que a lei ou os princípios éticos não agradam, tenta-se ir a eleições. Como se uma eleição fosse um julgamento onde se define o que é legal ou ético.
É mesmo sobre Farage que se está a falar, mas podia ser sobre outra pessoa, certo? Também em Portugal um político achou por bem recorrer a eleições para legitimar uma evidente falha ética – diria também legal, mas estou com certeza sozinho nessa consideração. Nigel Farage achou que ninguém tinha nada a ver com a oferta de uma quantia avultada, sendo ele deputado e líder de um partido, Montenegro achou que não devia tornar público um pagamento de privados a uma sua empresa, enquanto, primeiro, líder de um partido e depois como primeiro-ministro. Os valores são muito diferentes, o princípio, se não é o mesmo, é muito próximo.
Farage, aliás, replicou quase palavra por palavra o que Montenegro proclamou: “Que o povo decida.”
Os partidos ingleses responderam da melhor forma à intrujice do líder do Reform UK: decidiram não fazer parte da ópera bufa e não apresentaram candidato à circunscrição. Desta forma não embarcaram na farsa e não validaram a atitude do farsante. Quem aceitou o desafio foi um escritor e humorista inglês e o seu alter ego: Conde Binface, um personagem com a cara de caixote do lixo e com programa a condizer.
Não sei como se consegue derrotar os populistas. A democracia nem um nanossegundo esteve presente na vida dos povos e das comunidades e não é preciso ser pessimista para pensar que não durará mais do que já durou. O conjunto de direitos que ela garante, a forma como tenta respeitar a vontade de todos independentemente de qualquer condição objetiva ou subjetiva, a liberdade e a igualdade que são a sua essência parecem serem cada vez menos apelativos. Os valores democráticos estão a colapsar em função de uma prosperidade económica e social que não é nem nunca será uma curva eternamente a crescer; os princípios podem ser esquecidos se pressentirmos que os nossos filhos viverão pior do que nós. Tudo indica que estamos dispostos a trocar o que temos por um qualquer aldrabão que nos garanta soluções simples para problemas complicados, que nos dê culpados para as nossas frustrações.
No entanto, nunca um regime mereceu tanto que se lute por ele. Nunca nenhum garantiu tanta liberdade e prosperidade para tantos.
Talvez o humor nos faça entender o quão absurdos e ridículos são os que querem destruir a democracia. Talvez sejam os Condes Binfaces que mostrem o quão patéticos são os Nigel Farages, os Venturas e os Trumps desta vida. Talvez os ativistas que usam o humor – não os simples diletantes – consigam exibir o nada que têm os aspirantes a ditadores para dar e o tudo que querem destruir.
Como dizia um colunista inglês – de que lamentavelmente não recordo o nome: “O povo de Clacton-on-Sea tem uma escolha simples. Pode apoiar o candidato paródia que procura atenção, com um disfarce ridículo, que ridiculariza a política mainstream e se apresenta como um visitante alienígena de um planeta estranho e distante. Ou pode escolher o Conde Binface.”
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