Estas eleições que Portugal não queria estão feridas de mediocridade. Desde logo pela forma como surgiram. A falta de transparência do primeiro-ministro levou à queda do governo, a fim de fugir a uma comissão parlamentar de inquérito que punha em causa a sua seriedade enquanto servidor público.
Depois, a paupérrima campanha eleitoral veio reforçar ainda mais a mediocridade, ao não trazer para a discussão pública praticamente nenhum dos temas que interessam ao país. Alguém a apelidou de “inoportuna e estúpida”.
Ninguém discutiu a sério temas como a saúde, o ensino, a segurança social, a defesa, a Europa ou as relações internacionais. Não houve uma única entrevista a sério aos principais candidatos à chefia do governo. A coisa ficou pelos debates nas televisões e rádio. De resto, as arruadas e o folclore do costume, incluindo os programas televisivos de entretenimento, só demonstram que temos décadas de atraso em matéria de campanhas eleitorais. Parece que os candidatos estavam mais preocupados em surgir aos olhos da opinião pública como sendo simpáticos, “cool”, fixes. Tivemos motas, mergulhos na praia, voleibol e até um Rui Rocha que quase pediu por favor aos miúdos activistas que lhe sujassem o fato com pó verde.
Mas a questão de fundo é mesmo a crise das elites. Sabemos que não é um problema exclusivamente nacional, mas a falta de qualidade política é demasiado notória no nosso país. Os melhores estão de fora, e lá terão as suas razões, ou porque são mal pagos, ou porque não querem lidar com um sistema partidário viciado, ou porque não querem ver a sua vida pessoal e familiar devassada sem dó nem piedade.
A outra razão é relativamente nova. Parece que o eleitorado português desistiu de exigir honestidade e transparência aos políticos, num processo que se tem vindo a agravar cada vez mais. A ética tornou-se uma batata. Isaltino de Morais foi condenado e esteve preso, mas voltou ao poder autárquico através de eleições quando saiu da cadeia. Miguel Albuquerque diz que vai continuar a liderar o governo regional da Madeira mesmo que venha a ser acusado de corrupção, de que é suspeito e arguido.
De acordo com a imprensa “Portugal caiu cinco lugares na edição de 2025 do Índice de Qualidade das Elites, a maior queda desde que o ‘ranking’ foi criado, para a 30.º posição (…) Segundo este estudo – elaborado pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP) e pela Universidade de Saint Gallen (Suíça), em colaboração com uma rede internacional de parceiros e instituições académicas – o índice da qualidade global da elite portuguesa deteriorou-se, sobretudo, devido à ‘evolução negativa no sub-índice de poder, em especial no que diz respeito ao poder económico das elites”. Pode parecer que o estudo se refere apenas às elites económicas, mas nesta pesquisa foram consideradas quatro grandes dimensões: poder económico, poder político, valor económico e valor político, e o facto é que Portugal recuou para o 30.º lugar entre 151 países.
Montenegro trouxe a família para a campanha. Simulou um encontro com a mulher enquanto peregrina a caminho de Fátima, para piscar o olho aos católicos. E até o filho surgiu para dar um toque de carinho familiar, quando as trapalhadas da Spinumviva ainda estão por esclarecer. Um dos homens que mais dinheiro lhe meteu no bolso, eventualmente por troca com a indicação do filho para candidato à presidência de Braga, não soube explicar que serviço lhe prestou a empresa de Montenegro, serviço esse pago a peso de ouro. Valeu tudo, mas o povo não quer saber.
Apesar disso e ao contrário do que parece, Montenegro pouco ganhou com estas eleições. Não faz maioria com a IL e está dependente dos outros para governar.
A democracia corre perigo. Os portugueses votaram no partido que apresenta a maior taxa de deputados suspeitos e investigados por crimes, votaram em perfeitos desconhecidos, uma vez que o partido não revelou quem eram os seus candidatos, e votaram no partido que mais tem desestabilizado a vida política com o seu persistente discurso de ódio, notícias falsas reiteradamente plantadas nas redes sociais e cujo líder mente todos os dias como nenhum outro. A mudança a que assistimos hoje não é só política, mas cultural e ética. Podemos agradecer a Donald Trump.
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