Na melhor das hipóteses, a hospitalização de Francisco não augura uma recuperação em breve, o que significa um governo do Vaticano sem orientação clara e à mercê dos jogos palacianos da cúria romana.
Idoso de 88 anos, sofrendo duma pneumonia bilateral e asmático, e com um persistente prognóstico reservado, mesmo que se safe desta, o Papa certamente não estará em condições de continuar a desempenhar o seu múnus em condições mínimas. Entretanto, a hospitalização vai-se prolongando.
Em qualquer estrutura humana organizada em sistema de pirâmide, a iminente perda do vértice superior faz abanar todo o sistema. O Papa fala em nome de todos os católicos do mundo e imprime uma direção à estrutura.
Em entrevista ao Corriere della Sera, o cardeal Gianfranco Ravasi afirmava há dias que a intenção de Francisco seria decidir renunciar ao cargo, mas apenas depois de concluído o Jubileu. Tal desejo, a ser verdadeiro, apresenta-se como uma impossibilidade, pois começa mesmo a colocar-se desde já a questão da sua eventual substituição. Tudo indica que as movimentações dentro da estrutura já terão começado, discretamente, como é hábito.
Muito embora a maioria do colégio cardinalício tenha sido designada por este Papa, a verdade é que nada garante que a eleição do próximo pontífice venha a privilegiar uma figura idêntica ao cardeal vindo da Argentina. Muito provavelmente, o próximo será alguém mais conservador, de modo a aplacar as tensões que durante este pontificado se levantaram, em especial com origem nos setores menos abertos à mudança.
Não será ainda o momento para balanços, mas o sínodo convocado por Francisco terá sido importante mas não resultou em grandes mudanças, em particular nas matérias mais emblemáticas como a abertura para a futura ascensão das mulheres ao sacerdócio ou o celibato facultativo dos padres. E acima de tudo uma igreja definitivamente menos clerical e mais sinodal, isto é, menos na mão de sacerdotes e bispos e contando mais com a participação, opinião e intervenção dos leigos.
É justo dizer-se que este pontificado de doze anos mudou a igreja católica no sentido de se ter tornado menos eurocêntrica e mais aberta ao mundo, mas também mais tolerante e inclusiva (“Todos, todos, todos!”). Mas paralelamente está também mais dividida porque em qualquer grande estrutura, sempre que se muda alguma coisa surge oposição. É dos livros, uma ação implica sempre uma reação.
Nem sequer é de excluir um cisma a breve trecho, pois não só as forças mais reacionárias esperam ansiosamente pelo fim deste pontificado, na esperança da chegada de um mais conservador, como outros querem andar mais depressa. Lembro apenas aqueles que diziam à boca cheia que o verdadeiro Papa não era Francisco mas o resignatário Bento XVI, antes de ele ter falecido, como também vários bispos alemães, que procuraram avançar em força com mudanças significativas no Sínodo, mesmo contra a opinião do Vaticano.
O mundo está a viver tempos muito difíceis e imprevisíveis. Como se não bastasse a morte mais do que certa da ordem internacional saída da Segunda Guerra Mundial há cerca de oitenta anos, que garantiu um tempo de paz e prosperidade únicos na história da Europa, agora ainda temos que lidar com a doença e previsível resignação ou falecimento a curto prazo de um dos players mais respeitados no mundo dos últimos doze anos, o papa Francisco.
O pontificado de Francisco teve a virtude de merecer a simpatia dos não católicos em todo o mundo, em parte por ter tido a coragem de romper com uma série de ideias e práticas anteriores. Mas também deu origem a tensões internas numa estrutura que não parece disposta a perder velhos hábitos, que resiste a abrir-se ao mundo e a voltar-se realmente para o Evangelho de Cristo.
MAIS ARTIGOS DESTE AUTOR
+ Irá a América implodir um dia?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.